O Irã e a bomba
30 de Agosto de 2007
IMMANUEL WALLERSTEIN
Boa parte da discussão em torno do programa nuclear iraniano é pura e
simplesmente histérica. Haja visto a declaração feita neste mês pelo senador
John McCain: “Só existe uma coisa pior do que a ação militar: um Irã dotado de
arma nuclear”.
Sentimo-nos tentados a responder citando o título de uma peça
de Shakespeare, “Muito Barulho por Nada”, exceto que está sendo feito realmente
muito barulho e que algumas pessoas em altos escalões parecem estar falando
sério quando mencionam a possibilidade de recorrer à ação militar para impedir o
Irã de obter armas nucleares. Então, precisamos perguntar por que isso é tão
importante, e para quem?
Para começar, por que deveríamos achar que será uma
catástrofe se, amanhã, o Irã passar a dispor de armas nucleares? Hoje existem
nove países que, sabidamente, as possuem -os EUA, o Reino Unido, a Rússia, a
França, a China, Israel, a Índia, o Paquistão e a Coréia do Norte. O que mudaria
se o Irã se tornasse o décimo? Quem seria ameaçado pelo Irã? Que país Teerã
poderia bombardear?
No momento presente, não existe nenhum tipo de indicativo
de que o Irã seja ou pretenda tornar-se militarmente agressivo. É verdade que o
presidente iraniano atual, Mahmoud Ahmadinejad, fez declarações muito hostis em
relação a Israel. Mas será que alguém imagina que ele tem a intenção de
bombardear Israel ou que o Irã possui a capacidade militar de fazê-lo com
eficácia em qualquer momento do futuro próximo? Discursos e intenções são duas
coisas diferentes.
Entretanto, se o Irã não pretende utilizar a bomba, por
que quereria tê-la? Existem algumas razões óbvias. Dos nove países que possuem a
bomba, todos menos um podem alcançar o Irã com suas armas. O governo iraniano
teria de ser muito ingênuo para não se preocupar com isso. Ademais, baseado na
política norte-americana dos últimos cinco anos, ele pode facilmente deduzir que
os EUA invadiram o Iraque, mas não a Coréia do Norte, e que uma das maiores
diferenças entre os dois países era que o Iraque não possuía armas nucleares,
enquanto a Coréia do Norte, sim.
Uma segunda razão evidente é o nacionalismo
iraniano. Precisamos lembrar que as aspirações do Irã de tornar-se uma potência
nuclear não começaram com o presidente atual. Elas datam de desde antes da
Revolução Islâmica, da época do xá do Irã. É evidente que, hoje, uma potência
“média” das dimensões do Irã se fortaleceria geopoliticamente se fosse membro do
clube nuclear. O Irã tem seus interesses nacionais próprios, como têm outros
Estados também, e está claro que deseja desempenhar papel de destaque em sua
região.
Mas será que esse fato, por si só, representa uma ameaça ao mundo ou
à região? Quando a União Soviética promoveu sua primeira explosão nuclear, em
1949, o mundo ocidental lamentou em voz alta. Em retrospectiva, porém, fica
claro que o fator isolado que mais contribuiu para a não-ocorrência de uma
guerra americano-soviética, desde 1949 até a dissolução da União Soviética, em
1991, foi o fato de ambas as potências possuírem armas nucleares. Foi o temor da
destruição mútua que garantiu que nenhuma das duas fizesse uso de suas armas
nucleares, apesar de todas as tensões agudas sofridas, desde o bloqueio de
Berlim, até a chamada crise dos mísseis em Cuba e, mais tarde, a guerra no
Afeganistão. O fato de tanto a Índia quanto o Paquistão possuírem a bomba vem
funcionado como fator muito forte de contenção no conflito dos dois países em
torno da Caxemira.
Por que o equilíbrio de terror não poderia operar
igualmente bem no Oriente Médio? Por que a posse de uma arma nuclear pelo Irã
não poderia constituir um fator pacificador do Oriente Médio, em lugar do
contrário?
A única resposta é que o governo iraniano não é suficientemente
“racional” para abster-se de usar a bomba. Mas está claro que isso é bobagem
-bobagem racista, devemos acrescentar. O regime iraniano é ao menos tão
politicamente sofisticado quanto o governo George W. Bush, além de ter um
discurso bem menos militarista do que este.
Então, por que todos vêm fazendo
tanto alarde? Henry Kissinger apresentou a explicação há mais de um ano, e mais
recentemente Thomas Friedman a repetiu no “New York Times”. Está muito claro
que, a partir do momento em que o Irã possuir armas nucleares, a barreira terá
sido rompida, e outros dez a 15 países vão trabalhar rapidamente para fazer o
mesmo. Existem alguns candidatos óbvios: a Coréia do Sul, o Japão, Taiwan, a
Indonésia, o Egito, o Iraque (sim, o Iraque), a África do Sul, o Brasil, a
Argentina e muitos países europeus. Em 2015, pode haver 25 potências nucleares
no mundo.
Isso é perigoso? É claro que sim, na medida em que sempre existem
grupos e indivíduos desvairados que podem ganhar acesso aos botões que
precisarem ser apertados. Mas essas pessoas e esses grupos desvairados já
existem nos nove países nucleares atuais, e eu não acredito que existam mais
deles nos próximos 15 países. O desarmamento nuclear é um objetivo que é
urgente, mas não o desarmamento nuclear de apenas uma parte do mundo -o
desarmamento nuclear de todos.
A razão pela qual os EUA, em especial, vêem
com tanto temor o potencial armamento nuclear do Irã é que a difusão das armas
nucleares para os chamados países médios reduz claramente a força militar de
Washington.
Mas isso não significa que ela ameace a paz do mundo. Devemos,
então, nos preocupar com a possibilidade de uma invasão do Irã pelos EUA ou de
um ataque israelense? Não realmente, pois os EUA não possuem, neste momento, a
força militar necessária para empreender tal ataque, o regime iraquiano não o
suportaria e Israel não pode empreendê-lo sozinho. Logo, o que se está fazendo
atualmente é muito barulho por nada.
Immanuel Wallerstein, pesquisador sênior na Universidade
Yale, é autor de “O Declínio do Poder Americano”. Copyright Immanuel
Wallerstein, distribuído por Agence Global.
Jornal Folha de S. Paulo
http://www.uol.com.br/
*Publicado por Nezimar Borges
|