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O novo rearmamento da Rússia

O exército se beneficia da chuva de dinheiro do petróleo

Rodrigo Fernández

Em Moscou

A Rússia vive um processo sem precedentes de rearmamento e modernização militar. Novos sistemas de armas entram em funcionamento em todas as esferas: defesa aérea, mísseis estratégicos, aviões de combate, navios de guerra, mísseis balísticos lançados de submarinos, artilharia e blindados. Isso é possível principalmente por causa da chuva de petrodólares, que não pára graças aos altos preços dos abundantes hidrocarbonetos desse enorme país.

O Kremlin não está realizando esse processo de forma silenciosa e secreta, mas abertamente e divulgando-o tanto para sua própria população quanto para o mundo. A propaganda interna da recuperação pela Rússia de seu papel de grande potência servirá para que o atual regime acalme os nacionalistas e garanta seu apoio nas eleições parlamentares de dezembro próximo e nas presidenciais de março de 2008, pelo menos para neutralizá-los.

Para o exterior, a publicidade da modernização militar da Rússia é uma advertência: “Não se metam conosco, que temos as armas mais eficazes, capazes de penetrar qualquer escudo nuclear e de derrubar todo tipo de aviões, incluindo os chamados aviões-fantasmas”. E também: “Somos uma superpotência global, não creiam que nos contentaremos com um simples papel regional, queremos e podemos ocupar todo o espaço que a União Soviética cobriu”.

Só no primeiro semestre deste ano os militares russos receberam 36 novos tipos de armamentos. A pérola dessa coroa é sem dúvida o sistema de foguetes S-400 Triunfador - ou simplesmente Triunfo, como é chamado abreviadamente -, com que os russos começaram a substituir seu escudo antiaéreo. Os Triunfadores irão substituindo aos poucos os famosos sistemas S-300 - que a Rússia vendeu para vários países, entre eles o Irã, para defender suas instalações nucleares - e que cumprirão, em conjunto com as Tropas Espaciais, tarefas de defesa tanto antiaérea como antimíssil. Os primeiros a receber esses novíssimos armamentos foram, esta semana, os soldados da unidade militar destacada nas redondezas da cidade de Elektrostal, na província de Moscou, que é encarregada de defender a capital de um possível ataque aéreo.

Esse sistema de foguetes, que segundo os especialistas é muito mais eficaz que seu antecessor S-300, pois seu raio de destruição é o dobro, também pode eliminar alvos difíceis como os aviões-fantasmas construídos com a tecnologia “stealth”. Os Triunfadores não têm semelhante no mundo, gabam-se os russos, afirmando que o sistema pode destruir tanto aviões quanto mísseis de cruzeiro que voem a uma velocidade de até 3.000 metros por segundo a qualquer altura entre 10 metros e pouco mais de 50 km e a uma distância de até 400 km.

Os Patriots americanos, por exemplo, não podem destruir alvos que voem a menos de 60 metros de altura. Esse parâmetro é muito importante, porque nos combates modernos se aposta exatamente na mais baixa altitude de vôo possível, com o fim de burlar os sistemas de defesa antiaérea. Além disso, os Triunfadores precisam de apenas 5 minutos para entrar em estado de combate, enquanto os Patriots, 30 minutos. O que os S-400 não podem é interceptar os foguetes balísticos intercontinentais que alcançam uma velocidade de 6.000 a 7.000 metros por segundo, mas para isso existe outro tipo de armamento. Os Triunfadores também deverão proteger Sochi nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014.

Aos poucos a Rússia também está substituindo seus mísseis balísticos pelos novos Topol-M de ogivas divisíveis, isto é, com diversas cargas nucleares. Só este ano o Kremlin instalará 17 mísseis dessa nova geração, capazes segundo os russos de penetrar qualquer escudo nuclear, incluindo o sistema antimísseis que os EUA estão criando. Para dar uma idéia do salto qualitativo e quantitativo que representa esse número, basta dizer que nos anos anteriores as forças armadas russas receberam só quatro mísseis desse tipo em média por ano. O plano anunciado por Moscou pretende instalar 34 Topol-M em silos e mais de 50 em plataformas móveis até 2015.

É claro que o rearmamento e a modernização militar têm um alto custo, o que se refletiu no aumento dos gastos de defesa sob o regime de Vladimir Putin. Em comparação a 2001, o orçamento militar quase quadruplicou este ano. O programa de modernização inclui, além dos novos mísseis balísticos e sistemas de defesa antiaérea, submarinos nucleares de nova geração e inclusive a provável criação de uma frota de porta-aviões. Para poder cumprir esse ambicioso plano, a Rússia deverá investir mais de 145 bilhões de euros.

Contudo, os especialistas dizem que a Rússia ainda investe em armamentos muito menos que a União Soviética na metade dos anos 1980 e que seu orçamento militar ainda é muito inferior ao dos EUA: mais de 20 vezes menor (cerca de 23 bilhões de euros para 2007).

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

El País
http://www.elpais.com/

*Publicado por Nezimar Borges

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