O novo rearmamento da Rússia
16 de Agosto de 2007
O exército se beneficia da chuva de dinheiro do
petróleo
Rodrigo Fernández
Em Moscou
A Rússia vive um processo sem precedentes de rearmamento e modernização
militar. Novos sistemas de armas entram em funcionamento em todas as esferas:
defesa aérea, mísseis estratégicos, aviões de combate, navios de guerra, mísseis
balísticos lançados de submarinos, artilharia e blindados. Isso é possível
principalmente por causa da chuva de petrodólares, que não pára graças aos altos
preços dos abundantes hidrocarbonetos desse enorme país.
O Kremlin não está realizando esse processo de forma silenciosa e secreta,
mas abertamente e divulgando-o tanto para sua própria população quanto para o
mundo. A propaganda interna da recuperação pela Rússia de seu papel de grande
potência servirá para que o atual regime acalme os nacionalistas e garanta seu
apoio nas eleições parlamentares de dezembro próximo e nas presidenciais de
março de 2008, pelo menos para neutralizá-los.
Para o exterior, a publicidade da modernização militar da Rússia é uma
advertência: “Não se metam conosco, que temos as armas mais eficazes, capazes de
penetrar qualquer escudo nuclear e de derrubar todo tipo de aviões, incluindo os
chamados aviões-fantasmas”. E também: “Somos uma superpotência global, não
creiam que nos contentaremos com um simples papel regional, queremos e podemos
ocupar todo o espaço que a União Soviética cobriu”.
Só no primeiro semestre deste ano os militares russos receberam 36 novos
tipos de armamentos. A pérola dessa coroa é sem dúvida o sistema de foguetes
S-400 Triunfador - ou simplesmente Triunfo, como é chamado abreviadamente -, com
que os russos começaram a substituir seu escudo antiaéreo. Os Triunfadores irão
substituindo aos poucos os famosos sistemas S-300 - que a Rússia vendeu para
vários países, entre eles o Irã, para defender suas instalações nucleares - e
que cumprirão, em conjunto com as Tropas Espaciais, tarefas de defesa tanto
antiaérea como antimíssil. Os primeiros a receber esses novíssimos armamentos
foram, esta semana, os soldados da unidade militar destacada nas redondezas da
cidade de Elektrostal, na província de Moscou, que é encarregada de defender a
capital de um possível ataque aéreo.
Esse sistema de foguetes, que segundo os especialistas é muito mais eficaz
que seu antecessor S-300, pois seu raio de destruição é o dobro, também pode
eliminar alvos difíceis como os aviões-fantasmas construídos com a tecnologia
“stealth”. Os Triunfadores não têm semelhante no mundo, gabam-se os russos,
afirmando que o sistema pode destruir tanto aviões quanto mísseis de cruzeiro
que voem a uma velocidade de até 3.000 metros por segundo a qualquer altura
entre 10 metros e pouco mais de 50 km e a uma distância de até 400 km.
Os Patriots americanos, por exemplo, não podem destruir alvos que voem a
menos de 60 metros de altura. Esse parâmetro é muito importante, porque nos
combates modernos se aposta exatamente na mais baixa altitude de vôo possível,
com o fim de burlar os sistemas de defesa antiaérea. Além disso, os Triunfadores
precisam de apenas 5 minutos para entrar em estado de combate, enquanto os
Patriots, 30 minutos. O que os S-400 não podem é interceptar os foguetes
balísticos intercontinentais que alcançam uma velocidade de 6.000 a 7.000 metros
por segundo, mas para isso existe outro tipo de armamento. Os Triunfadores
também deverão proteger Sochi nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014.
Aos poucos a Rússia também está substituindo seus mísseis balísticos pelos
novos Topol-M de ogivas divisíveis, isto é, com diversas cargas nucleares. Só
este ano o Kremlin instalará 17 mísseis dessa nova geração, capazes segundo os
russos de penetrar qualquer escudo nuclear, incluindo o sistema antimísseis que
os EUA estão criando. Para dar uma idéia do salto qualitativo e quantitativo que
representa esse número, basta dizer que nos anos anteriores as forças armadas
russas receberam só quatro mísseis desse tipo em média por ano. O plano
anunciado por Moscou pretende instalar 34 Topol-M em silos e mais de 50 em
plataformas móveis até 2015.
É claro que o rearmamento e a modernização militar têm um alto custo, o que
se refletiu no aumento dos gastos de defesa sob o regime de Vladimir Putin. Em
comparação a 2001, o orçamento militar quase quadruplicou este ano. O programa
de modernização inclui, além dos novos mísseis balísticos e sistemas de defesa
antiaérea, submarinos nucleares de nova geração e inclusive a provável criação
de uma frota de porta-aviões. Para poder cumprir esse ambicioso plano, a Rússia
deverá investir mais de 145 bilhões de euros.
Contudo, os especialistas dizem que a Rússia ainda investe em armamentos
muito menos que a União Soviética na metade dos anos 1980 e que seu orçamento
militar ainda é muito inferior ao dos EUA: mais de 20 vezes menor (cerca de 23
bilhões de euros para 2007).
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
El País
http://www.elpais.com/
*Publicado por Nezimar Borges
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