Setenta anos após o “Massacre de Nanquim”
Tradução: UOL
O massacre brutal de até 300 mil civis chineses em Nanquim ocorreu 70 anos atrás. Mas as repercussões do ataque ainda podem ser sentidas hoje nas relações sino-japonesas. E a memória coletiva da carnificina continua sendo vital para a coesão do país
Wieland Wagner
Quando os japoneses entraram em Nanquim, a antiga capital chinesa na margem sul do Rio Yangtzé e cerca de 250 quilômetros a oeste de Xangai, Xia Shuquin tinha oito anos de idade. “De repente, os soldados invadiram a minha casa. Eles mataram o meu pai a tiros sem proferir uma palavra”, recorda-se ela. A seguir os japoneses estupraram e mataram as mulheres da residência, deixando vivas apenas Xia e a sua irmã mais nova.
Sho Mitani tinha 18 anos à época, sendo dez anos mais velho que Xia Shuqin. Ele servia em uma equipe de artilharia no navio de guerra japonês “Umikaze” (”Brisa Marítima”). Quando ele chegou a Nanquim, a matança já estava em andamento. “Havia corpos empilhados por toda parte, em parques e em quadras de tênis”, conta o ancião na sua casa em Osaka. Dia após dia, o exército trazia caminhões carregados de chineses até as margens do Yangtzé e abatia os prisioneiros indefesos com rajadas de metralhadoras.
Nesta semana faz 70 anos que ocorreu o massacre de Nanquim. Foi um dos ápices sangrentos da invasão japonesa da China que finalmente terminou com a derrota de Tóquio na Segunda Guerra Mundial, depois que os norte-americanos lançaram duas bombas atômicas contra Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945.
Somente em Nanquim, os japoneses mataram pelo menos 100 mil civis chineses. A China alega que o número de vítimas foi três vezes maior. Os dois vizinhos asiáticos atualmente ainda não concordam quanto ao número exato, e às vezes discordam até a respeito da existência ou não do episódio. Vários nacionalistas japoneses negam que o massacre - muitas vezes chamado de Estupro de Nanquim - tenha ocorrido.
Nanquim e o patriotismo chinês Mas os chineses estão igualmente determinados a manter viva a memória do sangrento massacre de Nanquim - uma metáfora para crimes de guerra de todo o mundo. As relações entre Pequim e Tóquio podem hoje em dia estar mais tranqüilas do que foram durante um longo período, mas é difícil que se passe um dia sequer sem que um programa sobre os crimes de guerra japoneses seja transmitido pela televisão chinesa. Afinal, a luta heróica para repelir a opressão japonesa é um importante elemento do esforço dos comunistas para manter os 1,3 bilhão de habitantes do país unidos sob seu comando, especialmente no atual sistema essencialmente capitalista. Só a questão de Taiwan tem a mesma importância para Pequim. Nanquim continua sendo vital para a política chinesa, mesmo hoje em dia.
O memorial existente no local do horrível massacre está sendo atualmente renovado. O diretor do museu, Zhu Chengshan, 53, exibe um modelo em madeira do novo projeto. O formato é de um navio e ele será mais de três vezes maior que o atual museu. Os trabalhadores tiveram que tomar cuidado especial durante as obras de renovação, diz ele, devido aos incontáveis esqueletos remanescentes do massacre que ainda estão sob o local. O número 300.000 - representando o total de mortos - está gravado em uma parede de concreto.
Em Nanquim, o passado é onipresente. Quase todo lugar é politicamente simbólico, incluindo a casa que pertenceu a John Rabe, o “Bom Nazista” de Nanquim, que protegeu milhares de civis dos seus algozes japoneses. O funcionário da Siemens e autoridade do Partido Nazista criou uma zona de segurança de cerca de 250 mil moradores que moravam junto com estrangeiros ocidentais. Lá, atuando para todos os fins e intenções como prefeito, chefe de polícia e juiz, ele desafiou os japoneses. Os chineses reverenciam o alemão como um “Buda vivo”. Duas das pessoas que ele colocou na zona de segurança foram a jovem Xia e a sua irmã, que desde então se referem ao alemão como sendo um “santo”. As anotações de Rabe continuam tendo um valor inestimável para os chineses: o ex-funcionário da Siemens é uma importante voz estrangeira que dá legitimidade à posição chinesa no debate em torno das atrocidades de guerra japonesas.
O diário é um compêndio repulsivo de acontecimentos chocantes e atualmente está sendo transformado em filme pelo diretor Florian Gallenberger, que já foi agraciado com um Oscar. “A cada 100 ou 200 metros nós encontrávamos novos corpos”, observou o nazista. “O observador fica asfixiado pela náusea ao ver sistematicamente corpos de mulheres que tiveram estacas de bambu enfiadas nas vaginas. Até mesmo mulheres idosas, de mais de 70 anos, estão sendo constantemente estupradas”.
Bandeira com suástica A ex-mansão de Babe é atualmente utilizada como um centro para o estudo da paz. Porém, os financiadores do projeto em Berlim temem que o local transforme-se em um centro de peregrinação de direitistas, e a abordagem do “Oskar Schindler da China”, conforme o “New York Times” já se referiu a Rabe, é algo que exige extrema cautela diplomática. Na sua recente visita a Nanquim, a chanceler alemã Angela Merkel evitou o memorial porque o seu itinerário envolvia uma passagem pelo Japão.
Afinal, Nanquim continua sendo em grande parte um tabu no Japão, e muitos políticos japoneses justificam a invasão imperial alegando que ela foi parte de uma luta asiática de libertação contra o jugo das potências coloniais ocidentais. Porém, na realidade, os japoneses foram parceiros do Ocidente na aceleração da partilha da China.
Já na primeira guerra sino-japonesa em 1889 e 1895,o Japão assumiu o controle sobre Taiwan; na Primeira Guerra Mundial, Tóquio conquistou Tsingtao, que era controlada pelos alemães. A seguir, em 1932, os japoneses criaram o Estado fantoche de Manchukuo - uma região historicamente conhecida como Manchúria - sob o governo de Puyi, o último imperador da China.
Mas eles também queriam subjugar o resto da China, e em 1932 forças japonesas continuaram o seu assalto atacando Xangai. Todavia, a verdadeira guerra com a China finalmente irrompeu em 7 de julho de 1937 - quando um embate noturno com tropas chinesas na Ponte Marco Polo, perto de Pequim, serviu como pretexto para o combate. O imperador Hiroito e seus assessores esperavam conquistar o país em apenas alguns meses como parte daquilo que desejavam que se tornasse uma “nova ordem” no Extremo Oriente controlada pelos japoneses. Eles também desejavam deter Chiang Kai-Shek, o enigmático general e inimigo ferrenho dos comunistas que, com as suas tropas do Kuomintang, conseguiu com bastante sucesso unir o país fragmentado. Chiang desafiou os invasores japoneses e atraiu-os para Xangai, na esperança de que as potências ocidentais, fortemente representadas à época naquela metrópole econômica, unissem-se à sua batalha.
Em agosto de 1937, aviões do Kuomintang atacaram navios de guerra japonesas no Rio Huangpu, mas erraram grosseiramente os seus alvos. Dos bares dos hotéis do Bund, a agradável passarela de Xangai, empresários estrangeiros observavam incrédulos enquanto os aviões chineses sem pontaria bombardeavam a sua própria cidade. Cerca de 2.000 pessoas foram mortas no trágico ataque.
Comemorando Pearl Harbor A vitória japonesa acabou ocorrendo após uma luta longa e difícil, na qual cerca de 200 mil chineses tombaram vítimas dos ataques japoneses. Chiang Kai-shek recuou para o interior do país, primeiro para a capital Nanquim, e a seguir, através de Wuhan, para Chongqing. Os chineses desmontaram fábricas inteiras no leste para transportá-las para o oeste do país pelo Rio Yangtzé.
Chiang passou a morar em uma pequena colina na cidade, que usava como o seu quartel-general. As casas camufladas de cinza são hoje um museu. Aqui, em 7 de dezembro de 1941, ele comemorou o ataque japonês contra a base naval dos Estados Unidos em Pearl Harbor. Agora, conforme a China esperava, a superpotência norte-americana iria entrar oficialmente na Segunda Guerra Mundial contra o Japão.
Porém, as esperanças de Chiang de uma vitória rápida sobre os japoneses foram frustradas. Os Estados Unidos de fato enviaram ao general encurralado mais suprimentos e dinheiro, mas a ajuda dos norte-americanos ao ditador foi fornecida sem muito entusiasmo. A prioridade de Washington era a vitória sobre o Terceiro Reich. Além disso, os Estados Unidos avançaram contra o Japão principalmente a partir das ilhas do Oceano Pacífico, e um número relativamente pequeno de operações foi lançado da China.
A segunda Guerra Sino-Japonesa continuou se arrastando. Após as suas primeiras vitórias, os japoneses viram-se atolados nas profundezas da China. Incapazes de de destruir a resistência, mesmo como o auxílio do regime fantoche que instalaram em Nanquim em 1940, eles recorreram a métodos cada vez mais brutais.
Diversas técnicas utilizadas na Europa durante a Segunda Guerra Mundial com o objetivo de causar destruição maciça, tais como os ataques aéreos sistemáticos contra cidades do interior com número elevado de habitantes, haviam sido usadas anteriormente pelos japoneses. O bombardeio de Chongqing teve início na primavera de 1938, matando mais de 5.000 civis em apenas dois dias. Segundo testemunhas, os mortos estavam empilhados pelas ruas.
A estratégia de terra arrasada do Japão estimulou os excessos cometidos pelos soldados imperiais, levando a comportamentos como aquele presenciado em Nanquim. Os soldados podem não ter recebido ordens oficial para realizar o massacre, mas a doutrinação de obediência incondicional ao divino Tenno (o imperador) encorajou-os a abusar dos chineses, tratando-os como uma raça inferior. Eles eram, no entanto, quase tão impiedosos consigo próprios. “Desde pequenos fomos criados para morrer pelo imperador”, explica Sho Mitani, um ex-fuzileiro naval que mais tarde participou no ataque à bomba contra Chongqing na função de engenheiro.
Cooperação brutal entre Japão e Alemanha Os japoneses também usaram gases venenosos e armas biológicas contra os seus inimigos. A infame “Unidade 731″ em Pingfang, no nordeste da China, matou milhares de prisioneiros chineses em brutais experiências médicas com seres humanos. O diretor da unidade, Shiro Ishii, trouxe a idéia das experiências de uma viagem à Alemanha.
Durante a guerra com a China, os médicos militares japoneses trocaram experiências com os seus aliados nazistas: sob recomendação de Hitler, oficiais médicos alemães viajaram ao leste da Ásia em fevereiro de 1938, a fim de pesquisar os efeitos de novas técnicas de combate. Mais tarde os médicos alemães forneceram à Unidade 731 o vírus da febre amarela, de forma que os japoneses pudessem testá-lo na China - uma cooperação macabra no intuito de exterminar um grande número de pessoas. Os criminosos de jaleco branco jamais foram levados a julgamento no Japão. Mais tarde as forças de ocupação dos Estados Unidos prometeram imunidade a Shiro Ishii para que este fornecesse a elas os resultados das suas pesquisas. As autoridades norte-americanas ainda mantêm bem guardado o material da Unidade 731, e utilizaram algumas das descobertas japonesas nas suas campanhas no Vietnã.
Wu Xuelong ainda sofre as conseqüências das “bombas sujas” japonesas. No seu casebre em Jinhua, na província de Zhejiang, Wu levanta as bainhas da calça e mostra as pernas. Das canelas até os pés os membros têm uma cor negra, como se estivessem carbonizados. Wu, que é agricultor, é uma das diversas vítimas em Zhejiang. A maioria morava ao longo da ferrovia quando os japoneses lançaram bombas durante os seus ataques. Assim como Wu, os outros apresentam sintomas que indicam o uso de antraz. “Os médicos queriam amputar a minha perna”, conta Wu com um sorriso amargo. “Mas eu ainda preciso delas”.
Wu não pode esperar indenização do Japão. Embora um tribunal japonês tenha reconhecido os danos causados por armas biológicas, a lei chinesa anulou a decisão: indivíduos não têm o direito de entrar com processos por indenizações relacionadas à guerra.
Assim, a controvérsia em relação ao passado foi se transformando cada vez mais em uma polêmica de ordem moral. Mas no 70° aniversário do massacre de Nanquim, é improvável que haja gestos amplos de reconciliação por parte de Tóquio - até hoje nenhum primeiro-ministro japonês visitou Nanquim.
*Publicado por Nezimar Borges
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