Editorial do “Le Monde”
Já faz seis anos, os atentados de 11 de setembro contra as torres do World Trade Center em Nova York, e contra o Pentágono em Washington deixavam escancarada a contradição entre o caráter todo-poderoso e a vulnerabilidade dos americanos. Pela primeira vez desde a guerra com a Grã-Bretanha, em 1812, os Estados Unidos sofriam agressões no seu solo. Eles reagiram conforme manda o seu status de “hiperpotência”, tentando atrair seus aliados e, além destes, toda a comunidade internacional numa guerra total contra o terrorismo.
Eles conseguiram arregimentar essa “coalizão dos voluntários” para combater os talebãs no Afeganistão, que haviam acolhido e apoiado Bin Laden. Eles fracassaram em reconstituir esta aliança quando quiseram tirar Saddam Hussein do poder pela força. A solidariedade quase-espontânea da qual eles haviam sido o objeto nos dias que se seguiram aos atentados de 11 de setembro de 2001, foi se transformando, no melhor dos casos, em desconfiança, e no pior, em hostilidade. Nunca a cota de popularidade dos Estados Unidos, e do seu presidente, se revelou tão reduzida como atualmente em todos os continentes.
Ao multiplicarem os controles e ao mostrarem determinação em limitar as liberdades individuais (sobretudo, aquelas dos estrangeiros no seu solo), os americanos conseguiram até agora se proteger contra novos atentados da Al Qaeda. O que não quer dizer que eles se tornaram mais impermeáveis a tais ataques do que as outras democracias. Seis anos depois de 11 de setembro de 2001, eles estão apenas menos vulneráveis e deixaram de ser todo-poderosos. Enquanto os Estados Unidos continuam sendo o país mais forte militarmente, a sua potência vem esbarrando no terreno, tanto no Afeganistão como no Iraque, nas duras realidades da guerra de guerrilha. A revolução tecnológica aplicada às questões militares não parece estar mais adaptada a esta situação do que os grandes batalhões.
No plano político, o balanço dos seis últimos anos não é mais brilhante. A idéia utópica de democratização do Grande Oriente Médio acabou atolada nas areias da Mesopotâmia. Em contrapartida, o “eixo do mal” consolidou-se com o Irã de Ahmadinejad. Este último busca tirar proveito da impopularidade dos americanos - e dos ocidentais em geral -, que ele enxerga em posição defensiva por todo lugar, do Afeganistão até a Palestina. Convencido de que George W. Bush, enfraquecido pelo lodaçal iraquiano, não pode se envolver num outro conflito, ele dá prosseguimento ao seu programa nuclear, sem prestar atenção às advertências e às sanções.
O presidente americano está convencido de que as dificuldades presentes não passam de meras peripécias, se comparadas com o julgamento da História, que lhe fará justiça. Enquanto isso, ele coloca as outras democracias ocidentais e os seus aliados numa posição das mais desconfortáveis, pois estes se vêem divididos entre a desaprovação de uma política perigosa e as demonstrações de amizade para com um grande povo que está equivocado.