Vitória democrata deve ser esmagadora, afirma Wallerstein
27 de Agosto de 2007
Segundo sociólogo americano, com o fracasso republicano assessores de Bush
estão “deixando o navio antes que afunde”. Para analista, que vem ao Brasil em
setembro, ninguém em Washington quer assumir a culpa pelo inevitável colapso no
Iraque.
ANDREA MURTA
DA REDAÇÃO
Assombrado pelo fracasso no Iraque, o presidente dos EUA, George W. Bush, não
só corre o risco de terminar seu segundo mandato isolado, mas deverá entregar de
bandeja para os democratas a eleição presidencial de 2008, segundo o sociólogo
americano Immanuel Wallerstein. “Os ratos estão abandonando o navio”, disse
Wallerstein à Folha, por telefone, de New Haven (Connecticut, EUA).
O
sociólogo, que estará em Porto Alegre (RS) no dia 4 de setembro para uma
apresentação no curso de altos estudos Fronteiras do Pensamento, do Copesul
Cultural, diz crer que a Guerra do Iraque continuará a ser o tema dominante da
política americana por muito tempo.
“Ninguém quer levar a culpa pela piora no
Iraque depois que retirarem as tropas. Mas o colapso vai acontecer de todo
jeito.” Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
Folha - Qual será a pior parte do legado de Bush?
Wallerstein - As coisas
vão mal e não devem melhorar nos próximos cinco anos, e todos sabem que, de uma
forma ou de outra, os EUA têm que sair do Iraque.
Quem será responsabilizado
pelo golpe político monumental que a retirada das tropas irá causar? Essa é a
questão principal da vida política dos EUA.
Democratas e republicanos vão
continuar dizendo que os outros são culpados não apenas nas eleições do ano que
vem, mas nos anos seguintes.
Folha - Vários assessores de Bush saíram do governo recentemente. Há uma
crise da administração?
Wallerstein - É normal que assessores saiam, mas aqui
há uma pequena sensação de que os “ratos estão abandonando o navio” antes que
ele afunde.
Não há muito de positivo que o governo Bush possa alcançar, mesmo
para seus próprios padrões, antes de 2009. Nem mesmo os pré-candidatos
republicanos querem se aproximar de Bush. Ainda mais significativo é o número de
senadores republicanos, alguns de prestígio, que não vão se candidatar novamente
no ano que vem porque crêem que vão perder. Este realmente não é um bom ano para
os republicanos.
Folha - Os democratas têm um plano coerente de política externa para
apresentar em 2008?
Wallerstein - Depende do que você considera um plano
coerente. Alguns candidatos, como Barack Obama, têm menos experiência em
relações exteriores, mas isso não me preocupa muito. Estou mais preocupado com o
que eles vão fazer, e isso não está claro. Todos falam que deveríamos sair do
Iraque, mas não muito rápido. Eles não querem levar a culpa pelo colapso do
Iraque depois que retirarem as tropas -mas esse colapso vai acontecer de todo
jeito, quer os americanos saiam, quer não saiam.
O governo Bush atacou
consideravelmente as liberdades civis em nome da luta contra o terrorismo. Os
democratas vão voltar atrás nessa área? Não sei.
Haverá mudanças quando os
democratas subirem ao poder, mas não será uma revolução.
Folha - O sr. fala com muita certeza de uma vitória democrata. Não há chance
de reviravolta republicana?
Wallerstein - Se as eleições fossem hoje, seria
uma vitória democrata esmagadora, tanto na Casa Branca quanto no Senado.
Eu
vou votar no Partido Democrata. Mas estamos em agosto, e a eleição é só em
2008.
Folha - A cautela dos pré-candidatos com o Iraque indica que o militarismo
continua importante para os eleitores. Como o sr. vê a questão?
Wallerstein -
Os americanos não estão com a menor vontade de apoiar outras guerras -nem no
Irã, nem no Paquistão, nem na Coréia do Norte, nem em lugar nenhum. Até as
Forças Armadas vêm agindo como uma influência pacificadora nos EUA, porque sabem
que não têm condições para lutar mais. Não creio que o país vá se engajar em
nenhuma ação militar em um futuro próximo, mas há sempre a possibilidade de o
vice-presidente [Dick Cheney], que é quem manda de verdade, resolver fazer outra
guerra.
Folha - A crise dos mercados financeiros nos EUA reflete uma queda global do
capitalismo?
Immanuel Wallerstein - O sistema todo já está em crise há 50
anos, e uma de suas características é justamente a volatilidade dos mercados. O
governo dos EUA e os consumidores americanos estão incrivelmente endividados.
Muitos não conseguem pagar e todo o sistema vem abaixo. É o fenômeno normal do
nosso tempo e não é tão diferente da crise dos mercados asiáticos em 1997.
Aliás, crise é a palavra errada; o que temos são colapsos variados. Estamos
esperando agora o colapso real da moeda americana. O dólar perdeu ao menos um
terço de seu valor nos últimos 20 anos, e ainda estamos longe do fim.
Folha - Quais serão as alternativas se ocorrer um
colapso?
Wallerstein
- Não haverá um domínio de nenhuma moeda como
atualmente, creio. Teremos múltiplas moedas em reserva.
Uma boa quantidade de
dinheiro irá para o euro, algumas irão para o iene [do Japão] e outras irão para
moedas regionais. Poderá emergir uma moeda do Mercosul. E esta será uma situação
muito mais saudável -a não ser para os EUA, é claro.
Folha - O sr. já disse que Europa e Japão serão dois novos pólos de
acumulação de capital. O crescimento da China alterou o
quadro?
Wallerstein
- Hoje eu diria que os pólos serão a Europa e o Leste
Asiático, que deve ser visto como uma divisão entre China, Coréia do Sul e
Japão. O Japão continua a ser economicamente o mais forte. A China é um país
enorme, mas seu crescimento econômico hoje não é maior do que o da ex-União
Soviética nos anos 1950 e 1960. A possibilidade de um eixo China-Japão-Coréia
ainda terá de ser construída, mas, se acontecer, será um eixo extremamente
poderoso.
Jornal Folha de S. Paulo
http://www.uol.com.br/
*Publicado por Nezimar Borges
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