Capiberibe revela detalhes da armação de Sarney que envolveu Renan e Nelson
Jobim para cassá-lo
Jornal Pequeno-Ma/12 de agosto de
2007
João Capiberibe divulgou à imprensa uma carta
pública endereçada ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), a quem acusa
como um dos responsáveis por sua cassação. O mandato do senador foi cassado
definitivamente em 2005, sob acusação de compra de votos de dois eleitores por
R$ 26 pagos a prestação.
Em entrevista exclusiva à revista Fórum,
Capiberibe acusa o grupo político do senador José Sarney (PMDB-AP) de articular
a acusação contra ele, contando ainda com o apoio de outras duas figuras do
partido: Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, e Nelson Jobim, então
presidente do Supremo Tribunal Federal e atual ministro da Defesa.
Se o
primeiro foi responsável pela denúncia, Jobim deu o voto de minerva favorável à
decisão do Tribunal Superior Eleitoral – contra a tradição de favorecer o réu em
caso de empate entre os demais ministros – e Calheiros não respeitou seu direito
de defesa nem esperou a publicação da decisão para empossar Gilvam Borges. O
suplente que ganhou o cargo era assessor de Sarney na Casa.
“O que eu
mais queria era ser investigado”, sustenta. “Ninguém foi verificar se eu tinha
cabeças de gado para pagar os R$ 26, como fizeram com Renan”, ironiza. A
referência são as declarações de bens apresentadas por Calheiros para justificar
a origem dos recursos com os quais ele teria pago pensão à jornalista Monica
Veloso, com quem teve uma filha em um relacionamento
extra-conjugal.
Capiberibe conta que foi a segunda vez neste ano em que
ele se manifestou publicamente. A primeira foi ao ministro do STF Carlos
Velloso, na época das acusações contra o senador Joaquim Roriz (PMDB-DF), que
renunciaria o mandato. Atualmente envolvido com a organização do PSB, do qual é
terceiro vice-presidente nacional, ele promete voltar ao Senado em
2010.
Confira os principais trechos da
entrevista:
Fórum – O senhor se sente
perseguido.
Capiberibe – Sou o primeiro senador
cassado pelo TSE. Dezenas respondem por denúncias, mas fui cassado pela suposta
compra de dois votos por R$ 26 em prestações. Na carta, ironizo o fato de
ninguém ter buscado investigar. Tudo o que eu queria era ser investigado, porque
o resultado seria outro e poderia até resultar em mudanças
eleitorais.
Ninguém foi verificar se eu tinha cabeças de gado para pagar
os R$ 26, como fizeram com Renan. Só pode ser por armação política. O TSE teria
que julgar em termos jurídicos, não interpretar para depois julgar. Em dois
casos são cassados, mas em todos os outros não? No país do mensalão, dos
sanguessugas, da operação Navalha, dos rombos financeiros, com tanto antecedente
de corrupção, se cassa pela suposta compra de dois votos – de eleitores, aliás,
sustentados até hoje pelos que fizeram a denúncia, os que haviam perdido a
eleição.
Fórum – O senhor acusa uma armação para a cassação. Quem
foi o autor dessa manobra?
Capiberibe – Foi o
PMDB do senador José Sarney. O meu processo é uma demonstração de que não é
difícil armar para uma cassação política.
Não adianta criminalizar a
política, é preciso acabar com isso com mudanças de fato. Na minha opinião,
acabar com a votação individual, criar instrumentos de participação política por
meio dos partidos, com fidelidade partidária para que as siglas tenham a
importância que têm nos países da Europa. Lá, não tem um tribunal eleitoral, mas
regras comuns a todos, que são respeitadas. Mas enquanto estiver nas mãos do
poder, não sai nem reforma política, nem Constituinte, como se propôs.
Só
se o povo sair às ruas e houver muita pressão é que se pode acabar com a
exclusão política. É ela que causa a exclusão econômica e social no país, porque
a população não tem organização social suficiente para se fazer
ouvir.
Fórum – A armação articulada envolveu outras esferas, já
que o senhor também acusa os tribunais e o presidente do
Senado.
Capiberibe – O Ministério Público não
viu crime. O TRE nos declarou inocentes, mas no TSE fomos condenados. O processo
subiu para o tribunal por recurso especial do PMDB de José Sarney, mas foi
acolhido como recurso ordinário, o que permite rever todas as provas. O STF não
aceitou, como está na Constituição, e aceitou o recurso de embargar a decisão e
subir para o Supremo. Ficamos dois anos no mandato, até 2005, quando o STF
julgou improcedente o recurso, alegando que não havíamos apresentado alguns
dados. Antes de publicar a decisão para que ela transitasse em julgado, o Senado
mandou empossar o suplente. A decisão no STF ocorreu pelo voto do então
presidente, Nelson Jobim, já de olho na filiação ao PMDB para a candidatura à
vice-presidência da República, com Lula em 2006. Foi dele o voto de Minerva, já
que estava empatado em três a três as posições dos demais ministros. Ele quebrou
uma tradição nessas situações de favorecer o réu em caso de dúvida, de empate.
Minerva era uma deusa romana muito sábia que sempre decidia para o lado certo.
Mas a decisão de Jobim mostra que havia um acerto entre Renan Calheiros, José
Sarney e Nelson Jobim. Foi um acordo dentro do que o professor Dalmo Dallari
chama de “ética dos oligarcas” em artigo no Jornal do Brasil [em 4 de agosto].
Sou um militante de esquerda, sempre tive uma posição muito clara. Afastar-me do
cargo era uma maneira de me tirar da vida pública, o que não vai acontecer.
*Publicado por Nezimar Borges
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