Carta Aberta ao senador Renan Calheiros.
Amapá, 17 Julho de 2007/ Ao Senhor Presidente do Senado Federal Senador RENAN CALHEIROS BRASÍLIA - DF
Caro Renan,
Não se aborreça e nem me leve a mal, mas bateu uma vontade incontida de falar
um pouco da vida cotidiana do Brasil da planície, que já o aguarda com certa
ansiedade.
Continuo tocando com entusiasmo minha militância política. Agora, sem as
atribuições inerentes ao mandato de senador, que você ajudou a retirar de mim
com bastante empenho.
Tendo em vista a situação inusitada da instituição que você preside e levando
em conta os acontecimentos nos quais você figura com destaque e excepcional
desenvoltura, me pergunto se não seria o caso de agradecer o mal que você me
causou.
Talvez você, em função da estressante e diversificada responsabilidade
política, empresarial e familiar, tenha apagado da memória qualquer registro a
meu
respeito.
Portanto, permita, em poucas palavras, dizer em que momentos nossos caminhos
se cruzaram.
Sou aquele senador que, antes de completar o 3º ano de mandato, foi expurgado
do Senado sem direito a defesa e substituído, com pompa e circunstância, por um
senador do PMDB, o seu partido. Lembra-se deste episódio?
Pelo sim pelo não, melhor garimpar os labirintos da memória.
O PMDB, vinte dias após as eleições de 2002, impetrou recurso junto ao TRE
pedindo a cassação do meu mandato e de minha companheira Janete, pela compra de
dois votos por R$ 26,00 cada, pagos em duas suaves prestações. Acusação
sustentada por duas testemunhas, que até hoje sobrevivem por conta deste
processo. O feito não prosperou e fomos declarados inocentes.
Mas o PMDB recorreu ao TSE. Entrou com um recurso dito “especial” que foi
cair nas mãos do então ministro Carlos Veloso.
Este senhor, como juiz relator, agindo mais como advogado de acusação e menos
como juiz, convenceu seus pares de que eu e minha companheira Janete éramos
culpados, reformando a sentença do TRE do Amapá, provendo, por inteiro, o
recurso proposto pelo candidato derrotado Gilvam Borges.
Por último, relembro um momento raro na história da Casa que você ainda
preside e à qual um dia pertenci.
Refiro-me a sessão do dia 25 de outubro de 2005. Naquele dia, você avocou
para si os poderes da Mesa, do Regimento Interno, da Constituição Federal e do
Plenário, fazendo ouvido de mercador aos apelos de cinqüenta e dois senadores e
senadoras que se revezaram na tribuna clamando para que eu tivesse respeitado o
direito constitucional de defesa, garantido até mesmo aos que cometem crimes
hediondos com requintes de crueldade.
Você manteve-se inflexível e cassou o meu mandato, para em seguida, em clima
festivo e triunfante, dar posse ao seu então assessor de gabinete Gilvam Borges.
Decisão revertida em menos de 24 horas pelo STF, que considerou sua decisão uma
afronta à Constituição Federal e determinou minha reintegração. Você acatou a
decisão, mas pressionou a Mesa Diretora a criar um rito sumário de cinco dias
para a minha defesa, um prazo inexeqüível para uma mínima investigação.
Bem, agora, com tudo fresquinho em nossas memórias, vamos ao assunto que
gostaria de compartilhar com você.
Não resta dúvida, que se trata de um sentimento que poucos ousam confessar,
entretanto, como sou franco, admito que sinto uma ponta de inveja ao comparar
sua situação de desassossego, com a que tive de enfrentar.
Não pretendo descer no varejo dos sentimentos, falemos do que é fundamental
para esclarecer as acusações que lhe atingem para comparar com as que me
atingiram.
A diferença é que você ganhou o direito de ser investigado pelo Conselho de
Ética, pela Polícia Federal e, sobretudo, pela imprensa. É sobre esses aspectos
que não posso esconder que realmente invejo a sua situação, pois tudo que
queria era ser investigado.
No entanto não me foi dado esse direito. O Ministério Público Eleitoral não
investigou por que, segundo ele, não havia crime, o TRE, por isso, declarou
nossa inocência e a imprensa não procurou contar o nosso rebanho, para saber
se teríamos bois suficientes para pagar os dois votos, que supostamente eu e
minha companheira compramos para nos eleger.
No nosso caso, bastou a acusação do candidato derrotado do PMDB para nos
cassarem os mandatos. É por isso que o considero um homem de muita sorte, pois
dispõe em abundância de tudo aquilo que você me negou: os meios necessários para
provar minha inocência.
Para finalizar, me surpreendo pensando em voz alta - se diante daqueles
absurdos, cometidos por você, contra mim, tivesse o Senado agido como determina
o exercício do poder republicano, certamente não chegaríamos à situação caótica
do presente.
Atenciosamente,
João Capiberibe*
*ex-preso político e exilado, ex-prefeito de Macapá, ex-governador do Amapá
1995-2002, ex-senador da República, 3º vice-presidente nacional do Partido
Socialista Brasileiro.
*Publicado por Nezimar Borges
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