Dallari denuncia duas éticas no Senado
ABI-08/08/2007
No Senado da República vigoram atualmente duas
éticas, uma extremamente rigorosa, a ser aplicada aos que combatem
uma oligarquia tradicional, outra destinada aos oligarcas e que tudo
permite. A denúncia é do jurista Dalmo Dallari, feita em artigo
publicado no Jornal do Brasil do dia 4, sob o título
“Senado: a ética dos oligarcas”.
O texto do artigo foi
enviado ao ABI Online pelo Senador cassado
João Capiberibe, descrito por Dallari como vítima da ética hostil
“aos que se atreverem a enfrentar uma oligarquia tradicional”. Diz o
artigo de Dallari, que foi um dos mais ativos militantes da luta
contra a ditadura, como membro da Comissão de Justiça e Paz da
Arquidiocese de São Paulo:
“Uma história do nosso tempo,
envolvendo senadores brasileiros, deixa muito evidente que no Senado
da República vigoram duas éticas.
Uma, extremamente
rigorosa, para ser aplicada contra os que se atreverem a enfrentar
uma oligarquia tradicional, introduzindo práticas democratizantes e
procurando dar efetividade a normas e princípios constitucionais,
opondo-se à continuidade de privilégios feudais e dando prioridade
ao desenvolvimento humano.
Outra é a ética para os
oligarcas, que tudo permite e que, parafraseando Eça de Queiroz,
procura sempre ‘acobertar com o manto diáfano da fantasia a nudez
forte da verdade’, fingindo-se impotente para punir os companheiros
oligarcas, mesmo quando existirem provas mais do que robustas da
prática de ilegalidades. A ética dos oligarcas pode ser resumida
numa pequena adaptação do lema da Primeira República brasileira:
‘Para os amigos tudo, para os inimigos a ética’.
Isso foi
agora ressaltado por meio de uma carta aberta do ex-Senador João
Capiberibe dirigida ao Senador Renan Calheiros, que hoje é o
beneficiário-mor da ética dos oligarcas. João Capiberibe foi preso
político e exilado e, mais tarde, anistiado e retornando ao Brasil,
foi eleito Prefeito de Macapá e Governador do Estado do Amapá,
enfrentando e vencendo o poderoso esquema político-eleitoral de José
Sarney.
Isso despertou a ira e a reação dos oligarcas e teve
como desfecho a cassação de seu mandato em 2005. Alguns trechos da
carta aberta do ex-Senador Capiberibe são altamente expressivos e
esclarecedores e merecem ser aqui reproduzidos.
Depois de
lembrar que antes de completar o terceiro ano de mandato foi
expurgado do Senado sem direito a defesa, relembra o autor da carta:
‘O PMDB, 20 dias após as eleições de 2002, impetrou recurso junto ao
Tribunal Regional Eleitoral, pedindo a cassação do meu mandato e de
minha companheira Janete (eleita Deputada federal), pela compra de
dois votos por R$ 26 (vinte e seis reais) cada, pagos em duas suaves
prestações. Acusação sustentada por duas testemunhas’.
Absolvido da acusação de compra de votos, pelo Tribunal
Regional Eleitoral do Amapá, Capiberibe assumiu o mandato, enquanto
seus acusadores recorriam para o Tribunal Superior Eleitoral.
Antecipando-se à decisão do Judiciário, Renan Calheiros, como
presidente do Senado, declarou a cassação do mandato de Capiberibe,
apesar da manifestação em contrário de muitos senadores. ‘Você
manteve-se inflexível e cassou o meu mandato, para, em seguida, em
clima festivo e triunfante, dar posse ao então seu assessor de
gabinete, Gilvan Borges (que tinha sido adversário de João
Capiberibe na eleição para o Senado)’. Esse desfecho foi
passivamente tolerado pelos senadores.
Posteriormente, essa
cassação foi anulada pelo Supremo Tribunal Federal, mas o Tribunal
Superior Eleitoral, acolhendo o voto do relator, ministro Carlos
Veloso — o mesmo que, em outro processo, considerou não serem
‘suficientemente robustas’ as provas contra Joaquim Roriz — decidiu
cassar o mandato do Senador João Capiberibe, por considerar provada
a compra dos dois votos, acima referida.
No final de sua
carta aberta, depois de lamentar que não lhe tivesse sido dada a
oportunidade de ser investigado pelo Ministério Público, conclui
Capiberibe, homem modesto que jamais sofreu a acusação de abuso do
poder ou de corrupção, com certa melancolia mas com inegável acerto:
‘Se diante daqueles absurdos, cometidos por você, contra mim,
tivesse o Senado agido como determina o exercício do poder
republicano, certamente não chegaríamos à situação caótica do
presente’.”
*Publicado por Nezimar Borges
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