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Discurso da Dep. Janete que o poder não queria ouvir, mas ouviu.

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Deu nos Blogs do Amapá e do Brasil: Sarney Levou Disaforo pra casa

Da coluna do Claudio Humberto de hoje

15/12/2006

Sarney levou desaforo para casa

O senador reeleito José Sarney (PMDB-AP) ouviu ontem poucas e boas em Macapá (AP), onde foi diplomado pelo Tribunal Regional Eleitoral. Temeroso, apesar de a platéia do Teatro Bacabeiras estar aparelhada pelo seus correligionários, ele entrou pela porta dos fundos para não ser incomodado, mas não pôde se livrar do discurso da deputada cassada e reeleita (foi a maior votação proporcional do País) Janete Capiberibe (PSB), que, olhando nos olhos de Sarney, falou que a carreira política dele foi construída durante a ditadura e que o ex-presidente foi o grande responsável pelas cassações dos mandatos dela e do marido, João Capiberibe - que, aliás, entregou o diploma da mulher.

Discurso da Janete que o poder nao queria ouvir, mas ouviu

Quero cumprimentar o Exmo. Sr. Desembargador Honildo Amaral de Mello Castro, presidente do TRE em nome de quem saúdo as demais autoridades do poder judiciário presentes.



Quero saudar os membros dos poderes aqui presentes, Tribunal de Contas do estado, Assembléia Legislativa, do poder executivo e digníssimos membros do Ministério Público Eleitoral, bem como membros desta honorável instituição que é o Ministério Público, seja Estadual ou Federal.

Quero cumprimentar a todas as autoridades eleitas e que recebem seus diplomas nesta cerimônia aproveitando a oportunidade para parabenizá-las por suas conquistas.

Quero me dirigir e saudar o meu companheiro de vida inteira, o presidente do diretório regional do PSB ilustríssimo sr. João Alberto Capiberibe, membro da executiva nacional do PSB.

Quero cumprimentar os militantes do meu partido aqui presentes através também dos núcleos de base.

Saúdo meus amigos e familiares.

Senhoras e senhores presentes, Boa Noite:

A política permeia toda a nossa existência. Nossas relações pessoais e familiares. O nosso dia-a-dia. A política faz seus efeitos serem sentidos em todo e cada momento da nossa vida. E os efeitos da política podem ser positivos ou negativos. Vivemos a experiência da política quando temos liberdade sob uma democracia, mas podemos experimentar o contrário, quando vivemos a ausência da liberdade sob uma ditadura militar que persegue, tortura e mata seus opositores. No Brasil, esta foi a realidade durante vinte anos, exatamente quando eu dava meus primeiros passos na vida política do meu país. De lá pra cá, conquistamos o direito de eleger até o presidente da república. Contudo, é importante refletir: vivemos todos indistintamente a experiência democrática? Experimentam a democracia os excluídos?

Como é possível falar das benesses da liberdade política para aqueles que vivem no desemprego? Para aqueles que não estudam por falta de professores? Para aqueles que deixam a escola mais cedo por falta de merenda escolar? Como apregoar as benesses da democracia quando a realidade é boa para ínfima minoria e atroz para a maioria? Qual democracia existe quando os meios de comunicação em sua quase totalidade escutam apenas uma versão dos fatos? Como se dizer da democracia quando as instituições que deveriam combater abusos se calam, se omitem, ou julgam de maneira partidária?

As instituições brasileiras são imperfeitas e o preço dessa imperfeição é pago com sofrimento por uma parcela significativa da população. A democracia brasileira está em dívida com o povo, pois ela não foi capaz de trazer o que o cidadão brasileiro mais anseia: desenvolvimento econômico com distribuição de renda e combate à desigualdade. A democracia está em dívida pois apesar de pagarmos pesados impostos, a educação pública brasileira e em especial a amapaense, está abandonada e sucateada; nossa saúde pública está vergonhosa. Hoje no Amapá, seres humanos deixam, freqüentemente, de ter acesso a medicamentos e atendimento de saúde que são direitos constitucionais. Muitos apenas os recebem como resultado de medidas judiciais propostas, boa parte das vezes, pelo Ministério Público Estadual e Federal. Mas apesar de tudo, a democracia continua incontestável no posto de melhor regime político criado pelo ser humano.


Democracia não pode ser confundida com harmonia. A harmonia é prevista nas relações entre os poderes, tanto na constituição federal, como em nossa constituição estadual. Ela é condição para a existência das instituições democráticas. Não é dádiva de ninguém. Harmonia não pode ser confundida com complacência, cumplicidade ou auto-proteção.

Os conflitos, quando existem, são um reflexo dos anseios que estão guardados no seio da própria sociedade. Conflitos e crises acontecem quando setores excluídos da sociedade encontram representação política entre eleitos. Um ditado corrente na nossa infância ensinava que dois não brigam quando um não quer. Se houve conflitos, isso não foi responsabilidade de um ou outro, isoladamente, senão de todos os envolvidos.

É importante também que se compreenda que os interesses conflitantes decorrem do fato de nossa sociedade ser desigual. Quem está desempregado não vê com naturalidade que privilegiados recebam super-salários. Eliminar privilégios é defender uma sociedade onde todos sejam iguais e recebam de maneira eqüitativa os benefícios pagos com dinheiro público, financiado pelo imposto do cidadão.

Não deve portanto haver dúvidas quanto à natureza e à função do mandato parlamentar concedido pelo povo do Amapá para esta mulher política calejada por tantos anos de luta. Se ontem lutamos pela democracia, enquanto outros políticos cresciam e floresciam na sombra do arbítrio, hoje nos encontramos todos convivendo harmonicamente, pois isto é da própria natureza da democracia.
A democracia é generosa, mas é frágil. Ela tolera aqueles egressos dos seios do autoritarismo e se auto-imola ao permitir que métodos próprios das ditaduras continuem existindo. O Amapá e o nosso país não podem mais conviver com banimentos e exílios. Restringir o espaço de atuação e tolher a voz da oposição é anti-democrático e será denunciado por todos os meios possíveis.

O povo do Amapá, com a votação histórica a mim conferida, enviou um recado claro para aqueles que de maneira injusta ceifaram dois mandatos eleitorais legítimos, conferidos pelo desejo popular. Em 2006, fui a deputada federal mulher mais votada de todo o país em termos relativos. Tive vinte e nove mil e quinhentos votos conquistados em uma vida inteira dedicada às causas populares. Eu e meu companheiro João Alberto Rodrigues Capiberibe estamos na política desde que lutar por democracia poderia custar a própria vida.
Vivemos dez anos no exílio e se estamos na política é para mudar a sociedade; se estamos na política é para reduzir as desigualdades; para trazer aos fóruns legítimos as demandas daqueles que não tem voz: parteiras, extrativistas, desempregados, agricultores, micro e pequenos empresários, índios, artesãos, profissionais do sexo, afro-descendentes, quilombolas, crianças, mães-solteiras, ribeirinhos, trabalhadores, Gays lésbicas e transgeneros, e tantos outros. Agradeço a confiança em mim depositada pelo eleitor e eleitora amapaense.

Se defender os direitos dos excluídos implica em melhor repartir o orçamento público, combatendo privilégios, corrupção e desperdício, este será um caminho válido e legítimo sempre. Volto para continuar exercendo o papel a mim reservado pela população. Acredito num modelo de desenvolvimento que gere riqueza, inclua o cidadão que vive à margem do sistema e que promova a proteção ao meio ambiente. Continuarei o mandato a mim atribuído pelo povo e de mim tirado pelas articulações de bastidores próprias daqueles que sentem saudades do arbítrio. Quem escreve o destino de um representante político é o povo. Lutamos, e lutaremos, com ou sem mandatos, em defesa dos que mais precisam porque ao fazê-lo homenageamos a democracia. Obrigado e boa noite a todos.

Discurso proferido por ocasião da diplomação dos candidatos eleitos no pleito 2006 no Teatro das Bacabeiras.

Macapá, 14 de dezembro de 2006

 

*Publicado por Nezimar Borges

 

LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA

Cientista político, professor emérito da Universidade de Brasília e autor de "As Relações Perigosas: Brasil-Estados Unidos de Collor a Lula, 1990-2004", "Brasil, Argentina e Estados Unidos" e "De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina". Leia alguns de seus artigos AQUI>>

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