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Entrevista de João Capiberibe a Rádio Cidade "Programa Tribuna da Cidade" Macapá-AP

Local: Macapá-AP
Fonte: Rádio Cidade - AP
Link: http://lucapi.blogspot.com/

Melhores momentos da entrevista com João Capiberibe no Tribuna da Cidade

Faço abaixo uma transcrição dos principais pontos abordados por João Capiberibe em entrevista concedida no último dia 7 de janeiro no programa Tribuna da Cidade do radialista Carlos Lobato, também participaram da entrevista os jornalista Humberto Moreira e Paulo Silva:

Sobre os anos de chumbo

- Aqui(no Brasil) nós vivíamos sufocados por uma ditadura repressiva que eliminou qualquer possibilidade de organização, deixando um único caminho de resistência, que era o caminho da luta armada, então esse movimento cresce nas universidades, o movimento estudantil reprimido faz com que todos nós que tínhamos uma militância ativa passemos então a abraçar a idéia da resistência armada, e aí eu me engajo na ALN liderada por Carlos Marighella, a idéia que prevalecia na época era a do foco guerrilheiro, então havia três pontos no Brasil, um deles na região do bico do papagaio em Goiás. Mais tarde o PCdoB acabou instalando uma guerrilha lá. Foi destinado a um grupo nosso da região norte trabalhar a instalação desse foco guerrilheiro, mas antes que isso acontecesse nós fomos presos e com a prisão veio todo o sofrimento que naquela época nós tivemos que passar com a tortura. Depois, mais tarde, com o apoio da Janete, que já é conhecido porque eu contei essa história em alguns artigos, nós conseguimos escapar da prisão no presídio São José e daí fizemos um longo percurso pelo rio amazonas, subimos o rio Amazonas até Santarém, em Santarém descemos, pegamos o barco até Manaus, com a nossa filha mais velha Artionka, depois de Manaus subimos o rio madeira até Rondônia, de Rondônia pegamos um caminhão e fomos até Guauyará Mirim, de lá atravessamos para a Bolívia, uma semana que estávamos do lado boliviano teve um golpe militar e daí no meio desse golpe nós fomos para Cochabamba e passamos em Cochabamba 3 meses e pouco para poder sair pro Peru , no Peru nós ficamos um mês até transitar para o Chile, quando chega no dia 24 de dezembro de 1971 nós chegamos no Chile na véspera de natal e ficamos três anos no Chile até o Golpe que matou Allende.

Sobre perseguição política no Amapá depois da anistia

- Em 1979 eu comecei a escrever umas cartas de Moçambique para cá. A primeira que eu escrevo é para o Binga Uchôa presidente do PMDB aqui, ele era vereador junto com o Azevedo Costa, eu faço uma longa carta pra eles, falando de todo o processo de luta política brasileira e anuncio que na minha volta eu gostaria de me filiar ao partido, ao PMDB. Aí o vereador Binga Uchoa lê essa carta na Tribuna da Câmara e essa carta então é inscrita nos anais da Câmara. Eu tenho a maior curiosidade de localizar essa carta, se algum vereador pudesse me dá-la...

Naquele época eu estava morando em Pernambuco porque o clima aqui era muito difícil, era um clima político muito tenso, havia muita perseguição política. Em 1982 eu voltei para cá e fui candidato a deputado federal, fui candidato junto com o Celso Saleh, com o professor Lucimar Amoras, com Azevedo Costa, Paulo Uchoa e o clima era muito ruim, a gente saiu daqui pra fazer um comício em Mazagão, quando chegou ali pra atravessar no rio Matapi a balsa estava parada, tinham dado ordem pra não atravessar, aí a gente alugou um barco , quando a gente chegou lá não tinha energia nem água. Era assim o negócio, era muito duro. Depois isso voltou a acontecer...

Sobre as eleições de 1988

Quando eu voltei pra cá, já em 1985,(depois de ter morado no Acre) como secretário de agricultura do Estado eu percorri o Amapá de ponta a ponta. Eu fiz uma imersão no mundo rural agrícola e não agrícola, e também na questão florestal. Eu já vinha muito impregnado com as idéias de Chico Mendes, com a luta dos trabalhadores rurais do Acre, aí a gente tratou de aproximar o pequeno produtor do consumidor urbano, criando a feira do agricultor que começou em frente da rádio Difusora, esse projeto termina sendo um grande marco porque as pessoas que tinham perdido os laços com o campo, com a vida rural, passaram a ver na feira além dos produtos que eram trazidos, um ponto de encontro. Esses agricultores foram os grandes articuladores da minha campanha a prefeito evidentemente fazendo uma intensa campanha na cidade junto com os partidos que nós congregamos na época, que eram o PDT e o PCB. A eleição de 1988 se dá em função desse clima favorável as teses que eu defendia.

Sobre a preferência numa enquête que o coloca como o Amapaense de maior relevância no mundo político do Estado

Eu atribuo essa preferência a muitos projetos inovadores que surgem com a nossa presença na vida pública. Uma série de projetos que terminam sendo repassados de geração em geração. As idéias do desenvolvimento sustentável que no Amapá de alguns anos atrás pareciam muito extravagantes hoje são mais compreendidas porque estão todos os dias nos jornais das grandes redes de televiãos. Acho que tem obras que são muito importantes, que os pais contam para os filhos, por exemplo a Bolsa Escola surge em 1996 no Amapá, quando não se falava nisso no Brasil, nós implantamos aqui um pouco depois de Brasília. Isso aí as mães vão contando para os filhos, essa história faz com que a gente permaneça na memória das pessoas.
Entre os projetos inovadores, eu diria que a CAP pór exemplo(Central de Atendimento a população) que mudou de nome para Super Fácil. Super Fácil é para mudar o nome, mas para conceber e implantar o Projeto é Super difícil viu? Então a CAP foi um projeto que nós levamos três anos gestando o projeto, nós tivemos que investir pesadamente na informática porque é um projeto totalmente informatizado, então isso termina passando de geração.

Lobato explica que em uma hora foram recebidas 324 participações de ouvintes através de telefones e mensagens de celular. O primeiro colocado foi João Alberto Capiberibe, que recebeu 58 indicações, quase o dobro do segundo colocado que foi Janary Gentil Nunes que teve 29 indicações. Foram votados também O mestre Oscar, o ex-governador Aníbal Barcellos e Chefe Humberto. Os jornalistas Correa Neto e Humberto Moreira também foram indicados.

Sobre o Senado e a mão de Sarney na cassação de seu mandato

Eu sempre apoiei o Lula desde a sua primeira candidatura. Mas quando eu cheguei ao senado descobri que o governo Lula tomou caminhos que me decepcionaram muito. Eu mantive minha posição, uma posição histórica, os ouvintes que estão acompanhando esse programa conhecem essa trajetória, eu não poderia recuar em função de interesses fisiológicos ou conjunturais...


O processo

O recurso eleitoral interposto pelo PMDB foi derrotado aqui por um voto histórico do desembargador Mario Gutyev, que levanta naquele momento um certo antagonismo que nós tivemos...


Lobato – Mas ele (Gutyev)agiu como Magistrado... –

Capi – é, ele agiu sobretudo como juiz. mas lá em Brasília houve uma manobra para que o recurso fosse acolhido. Aí então surge o recurso que subiu daqui.

No meio desse processo eu fui chamado pelo líder do Governo, senador Mercadante de quem eu fui vice-líder até outubro de 2003 até o dia em que nós votamos a Lei de Biosegurança.

O senador Mercadante esteve comigo, ele veio comigo conversar sobre a possibilidade de nós resolvermos o conflito com o senador José Sarney.

Eu disse – mas eu não tenho conflito com o Senador José Sarney, nós somos apenas adversários políticos, ele vem da ditadura militar, enquanto eu estava no calabouço em Belém, ele era líder da ARENA, ele era líder da ditadura, nós somos apenas adversários históricos e se for preciso a gente se juntar para apoiar o presidente Lula não tem problema nenhum pra mim.

Então Mercadante me disse – Capi, você há de entender que Sarney foi presidente do país e fica muito desagradável pra ele chegar aqui e ter uma pessoa contestando as posições dele.

Aí eu(Capi) disse – o que você quer dizer com isso?

Ele respondeu – Se você seguir as orientações do Presidente Sarney todos esses problemas vão desaparecer.

Eu(Capi) respondi – e com eles toda a minha biografia, toda a minha história, como é que eu vou explicar no meu estado que pra salvar o meu mandato de senador eu vou virar um seguidor do José Sarney, não tem sentido, me desculpa Mercadante mas eu acho que a política tem que ter posições sim, mesmo que as vezes a gente pague um preço caro, eu já paguei com a prisão, eu já paguei com a tortura, com o exílio...

Toda vez que o Sarney chega aqui vai um séqüito para o aeroporto, eu nunca fui. E aí de repente lá ia eu pro aeroporto... As pessoas não iam entender. Eu já sabia que como isso não ia acontecer eu perderia o mandato.

Sobre as eleições desse ano

Há quatro anos que a gente vem organizando na base a presença do nosso partido, através dos núcleos de base. Nós temos já uma centena de núcleos organizados, então esses núcleos vão poder participar ativamente além de votar elegendo um prefeito nosso ou uma prefeita, isso ainda não está definido. Esses núcleos vão ter uma participacão decisiva na vida da prefeitura porque o primeiro passo que o nosso gestor vai dar será expor em tempo real as despesas da prefeitura.

Não vai ser suficiente eleger um prefeito ou uma prefeita. Não basta só votar e no outro dia da eleição dizer: te vira! Tem que ter um desejo de fazer da cidade um lugar melhor pra se viver. Todo mundo querendo que a cidade melhore. O cidadão vai ser definitivamente importante.

Sobre a oposição ao governo atual

É necessário entender que oposição no processo democrático é muito importante. Não aquela oposição que desqualifica, a oposição destrutiva. Nós comemos um filhote com marjericão com o dep. Lucas barrreto, dep. Seabra, Randolfe, ver. Clécio , dep. Camilo, Zé Ramalho, conversando sobre política sobre as possibilidades... Há um entendimento político sobre as possibilidades de uma União. Daí para uma aliança eleitoral ainda tem muita conversa. Evidente que o PSB é um partido hoje muito estruturado com uma representação na Assembléia Legislativa e na Câmara Federal e claro que gostaria de encabeçar a chapa, mas nós estamos conversando pra valer e se for necessário apoiar um candidato de um outro partido, aí nós vamos levar essa discussão para o partido pra ver quem será o cabeça de chapa.
Com certeza vai haver sim uma aliança, eu acho que já no primeiro turno. Quantos partidos vão fazer parte? nós não sabemos...

Sobre o PT de Dalva Figueiredo e João Henrique

A gente tá querendo conversar com o PT, mas o PT está muito engajado dentro do governo do PDT. Está muito governista, muito carguista... Então aí é complicado você começar uma conversa com esse interesses todos...
Lobato – O prefeito João Henrique teria mandado uns acenos para o senhor disse o jornalista Correa Neto.
Capi - O que eu li estava lá no Correa... Eu não tenho nenhum problema de conversar com o prefeito, mas deixa primeiro passar a chuva.
Lobato – Chuva eleitoral ou chuva?
Capi – não. Chuva mesmo! deixa passar o inverno, até porque está cedo...

*Publicado por Nezimar Borges

 

LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA

Cientista político, professor emérito da Universidade de Brasília e autor de "As Relações Perigosas: Brasil-Estados Unidos de Collor a Lula, 1990-2004", "Brasil, Argentina e Estados Unidos" e "De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina". Leia alguns de seus artigos AQUI>>

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