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Estou nessa boca

Local: São Paulo
Fonte: Fausto Wolf
Link:http://jbonline.terra.com.br/

Artigo publicado hoje (15/02) pelo jornalista e escritor Fausto Wolff, no JB,  tratando da vida política brasileira, em que cita o ex-senador João Alberto Capiberibe.

 
Jornal do Brasil - página B2 - caderno B
Sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O tempo passa para todos. Para uns, correndo, e para outros, em marcha lenta. Passa devagar para quem está preso e mais devagar para quem está sendo torturado; não acaba nunca para o operário, que tem de tomar três conduções para descansar em casa por algumas horas, que, essas sim, passam rapidamente. Já para as crianças em geral, o Natal parece demorar demais.

No mundo da política, ou seja, do crime oficialmente organizado, as coisas são rápidas. Depois que FHC comprou do Congresso o segundo mandato, todo presidente eleito só pensa em fazer algo no fim do primeiro mandato. Por exemplo: aumentar em uma miséria o salário dos pequenos funcionários públicos, que, como ganham uma miséria, não têm tempo para o público. No segundo mandato ele não fará nada, a não ser que consiga comprar um terceiro.

Para o jornalista, o tempo passa rapidamente demais. Ele esquece hoje o nome do ladrão de ontem. Quando eu ajudava o Jaguar a editar o Pasquim, no tempo das Diretas-Já, sabedores de que é impossível guardar o nome de todos os políticos que trabalham contra o povo, decidimos fazer uma eleição. Leitores de todo o país responderam à pergunta: "Qual o político mais corrupto do Brasil?" Achávamos que Maluf seria barbada. Mas o Pará em peso deve ter votado e deu Jader Barbalho por focinho. E eles eram jovens, sabiam que um futuro sórdido e lucrativo os esperava. Maluf passou alguns dias na cadeia e acha que não deve nada à Justiça: nem os milhões de dólares que mantém em bancos estrangeiros. Ao contrário, diz que Lula lhe deve um favor, pois sua prisão tirou das manchetes por alguns dias a turma do mensalão. Alguém lembra os nomes dos meliantes? Mas o que digo? Meliantes? Posso ser processado, pois os nobres deputados, como gostam de ser chamados, absolveram todos os mensalonários, menos três. Estão soltos e com o dinheiro roubado certamente se reelegerão.

Jader Barbalho tem feito low profile, ou seja, tem ganhado sem trabalhar, onerando assim, por incrível que pareça, um pouco menos o Tesouro nacional. Chegou a usar algemas por alguns minutos, mas logo um juiz bondoso mandou acabar com aquela maldade. Acha que por causa dessa rápida humilhação já pagou pelo dinheiro surrupiado.

A emenda Dante de Oliveira, que pedia as diretas, foi vitoriosa (222 x 65 votos), mas rejeitada por falta de quórum. Diante disso, eu e o Jaguar publicamos no Pasquim as fotos 3x4 dos congressistas que haviam votado contra as diretas. Eram apenas 65 descarados. Os demais não foram, daí a falta de quórum. Publicamos as fotos para que ninguém se esquecesse dos facínoras. Hoje só me lembro do nome do bizarro ex-maoísta Moreira Franco. Ou foi o Medina? Todos sabiam que, nas eleições indiretas, o Tancredo Neves, um conciliador, seria barbada contra o Maluf, que nem Figueiredo queria. Eu, porém, lembrei no Pasquim que tramitava na Câmara a emenda Theodoro Mendes, que pedia eleição direta em dois turnos. Ou seja, poderíamos ter tido as diretas em 1984 e, em vez disso, tivemos o desgoverno de Sarney. Saiu tão impopular que foi se eleger pelo Amapá, onde era mais fácil. Eta Brasilzinho bom: José Ribamar está em liberdade, impediu que o PMDB lançasse o nome de Simon para a Presidência e tem contas pendentes com a União superiores a R$ 1 bilhão.

Já Alberto Capiberibe, senador amapaense pobre, honesto e nacionalista, foi cassado sob a denúncia de que teria pago R$ 28 por um voto.

Como o tempo passa depressa, ninguém se lembra mais do líder do governo no Senado. É o nosso velho conhecido Romero Jucá, de Roraima, homem de convicções tão rígidas que foi líder de Fernando Henrique Cardoso no Senado. Foi obrigado a deixar o Ministério de Lula por irregularidades cometidas quando era governador. Por irregularidades entenda-se...

Ah, esqueçam e cantem comigo: "Eu também estou aí, estou aí, o que é que há, estou aí nessa boca. Muita bebida, mulher sobrando, tem até trouxa nesse samba se arrumando".

E o tempo passa.

*Publicado por Nezimar Borges

 

LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA

Cientista político, professor emérito da Universidade de Brasília e autor de "As Relações Perigosas: Brasil-Estados Unidos de Collor a Lula, 1990-2004", "Brasil, Argentina e Estados Unidos" e "De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina". Leia alguns de seus artigos AQUI>>

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