Tetra-eleição de Sarney não será por aclamação
Sarney que imaginou ter se livrado de seus principais adversários do Amapá com as manobras sórdidas, se depara agora com Randolfe Rodrigues, 36 anos, eleito pelo PSOL do Amapá.
Randolfe é o mais jovem ocupante de uma cadeira no Senado da República a partir de 1º de fevereiro.
Quando José Sarney aportou no Amapá em 1990, Randolfe tinha apenas 15 anos, mas já fazia política estudantil.
Nestes 21 anos, que separam a primeira eleição de Sarney como senador do Amapá até os dias de hoje, Randolfe descobriu quão é maléfica a presença do maranhense no estado.
Ao chegar à Casa, classificada por Darcy Ribeiro a semelhança do Céu, Randolfe se depara com a tetra-presidência de José Sarney.
O professor de história, ex-deputado estadual, não pretende deixar barato.
Um dos mais atuantes participantes do Xô Sarney em 2006 vai transferir a luta que sempre travou contra Sarney no Amapá para a Arena do Senado.
Seu primeiro passo é disputar com Sarney a presidência do Senado.
A candidatura de Randolfe carrega o simbolismo de uma anti-candidatura, semelhante à de Ulysses Guimarães, o líder do MDB, em 1973 no auge da ditadura militar.
Vale lembrar, que nessa época José Sarney apoiava os ditadores, alojado na Arena, o partido do regime militar.
Ulysses sabia que não tinha chance de impedir a escolha do novo ditador, mas foi à luta para denunciar a farsa da eleição indireta em um Congresso dominado pela Arena e por adesistas do seu próprio partido, o MDB.
Dá-se o mesmo agora com Randolfe.
Sua anti-candidatura desmonta a farsa da aclamação de Sarney, principalmente por que com ela muitos descontentes usarão o voto secreto para demonstrar que Sarney não é unanimidade no Senado.
Com certeza, Randolfe não terá apenas o seu voto e o de Marinor Britto, senadora eleita pelo PSOL do Pará.
Randolfe terá, também, os votos dos descontentes com a “ditadura” instalada pelos cardeais do PMDB com o auxílio de alguns petistas em troca da presidência da Câmara dos Deputados.
Quem conhece a política do Amapá e conhece o perfil de Randolfe sabe que sua anti-candidatura não é um rompante, é um gesto pensado com o objetivo de marcar o terreno e transpor para o Senado a luta travada contra Sarney no Amapá.
A tri-presidência de Sarney no Senado foi recheada por uma grave crise ética e moral.
É importante o embate, pois ele proporciona aos senadores, que se opõe ao fisiologismo praticado no Senado, expressar o desejo de mudança nos hábitos da Casa, mesmo que o façam através do voto secreto.
Sobre a sua tetra-presidência, Sarney expressou a imprensa que estava fazendo mais um sacrifício ao aceitar a missão imposta pelo PMDB, ao invés de apresentar um programa mínimo para o próximo mandato.
Para não ser confundido com a conveniência de Sarney, Randolfe apresenta aos senadores quatro pontos que norteiam sua anti-candidatura divulgada pelo jornalista Josias de Souza em seu blog:
1. Autonomia: “O Senado tem de ser protagonista da cena política, independente e autônomo. Não pode ser Casa de recepção de medidas provisórias. As que forem aceitas têm de respeitar os preceitos constitucionais de relevância e urgência”.
2. Fiscalização: “O Senado, assim como a Câmara, tem a obrigação de exercer a nobre atribuição constitucional de fiscalizar os atos do Poder Executivo”.
3. Ética: “O Senado não pode fingir que nada aconteceu. A Casa tem de passar por uma profunda reforma ética: transparência de todos os atos e nomeações, contas na internet, tudo submetido ao controle público”.
4. Reformas: “Queremos agilizar as reformas política e tributária. Não reformas de interesse dos políticos, mas da sociedade. O Congresso não pode ser presa do Executivo. Sua agenda tem de ser a agenda do Brasil”.
O tempo é curto para Randolfe. Dispõe de 48 horas até o dia 1º de fevereiro.
Mas, Randolfe sabe onde as cobras dormem, por isso sabe a quem procurar para angariar votos anti-Sarney.
Vale lembrar, que ele militou no movimento estudantil e foi um dos baluartes do impedimento de Collor no Amapá, portanto é escolado.
Com a anti-candidatura, o mais jovem senador do país, mostra ao que veio e marca presença logo em sua chegada.
Pelo visto, Randolfe vai dar muito trabalho a Sarney e seus áulicos nos próximos anos.
*Publicado por Nezimar Borges
|