A obsessão cega de Sarney
Quando governo [oito anos], o PSB manteve Sarney longe das decisões sobre os rumos do Estado. Não foi consultado para nada, passou obscuro, por oito anos não deu uma mísera contribuição ao Estado que prometeu servir e que teria força no Senado.
A decisão dos socialistas – leia João Alberto Capiberibe, uma liderança nova saída da vontade popular, governador então, sangra até os dias de hoje.O ponto culminante do conflito foi o patrocínio da cassação dos mandatos do ex-governador e sua esposa Janete eleitos legitimamente pelo povo amapaense no peito de 2002.
Decisão esdrúxula da Suprema Corte, cujo voto de desempate de Nelson Jobim, então presidente da instituição, causou estranheza por quebrar uma longa tradição das cortes supremas que na dúvida [ o empate então estabelecido] o voto de minerva deve favorecer o réu. Pareceu naquele momento que Jobim assim decidira para atender um pleito do amigo Sarney, de quem foi Ministro de Estado no seu governo, e seria de partido [ PMDB] depois.
No Senado Federal, Renan Calheiros, fiel discípulo e aliado de Sarney – contra clamores quase unânime da casa, então sob intensa comoção, ratificou a decisão do STF, negando ao casal o amplo direito de defesa que os levou a denunciar no plenário da casa como uma ação maquiavélica de Sarney, fato corajoso e inédito, que agravou mais o contencioso.
A decisão favorecia Gilvan Borges [PMDB] que ganhou um mandato que perdera nas urnas. Pra frente as coisas só fizeram azedar tendo Capiberibe desempenhado papel importante na derrota de Roseane, sua filha, para Jackson Lago[PDT] ao governo do Maranhão em 2006.
Aqui Sarney jurou alijar os Capiberibe da vida pública, trabalhando dia e noite para isso. Concebeu a harmonia, sistema de dominação política que juntou setores atrasados, mas importantes do Estado: políticos, empresários, partidos [PT inclusive], meios de comunicação, inclusive o Poder Judiciário, segundo alguns, como braços armados do projeto, com o objetivo explicito de se perpetuar no Estado e eliminar a oposição socialista.
Diante da resistência do PSB e de seu desempenho nas urnas – sempre um risco as suas pretensões continuistas, trabalhou o seu isolamento, privando-o do tempo de propaganda eleitoral, e de aliados que pudessem robustecer sua coligação.
Embora perdesse os pleitos, o PSB continuava ostentar a condição de canal onde melhor se expressava a sociedade e residiam suas esperanças de mudanças, resultado de um trabalho obstinado de educação política dos humildes e excluídos. Uma das facetas dos lideres socialistas.
Tanto que nas eleições ao Estado em 2006 e a Prefeitura em 2008, as derrotas continuam ainda hoje repercutindo como obra de uma fraude eleitoral, comandada por Sarney conforme afirmou-se na ocasião e ainda hoje objeto de fortes suspeições reforçadas pelo esforço do TRE em não avalizar seis processos de cassação, alguns deles com o testemunhos de juizes da própria corte eleitoral que flagraram tais ilícitos.
Depois de insistir no processo de isolamento do PSB, por varias eleições, que esgota-se a medida que o tempo voa, investe Sarney agora na implosão da oposição.Aqui chegamos ao cerne, ao âmago desse comentário.
Nem Pedro Paulo Dias[PP] , no momento o preferido[?] do governador Waldez, nem Jorge Amanajas [PSDB], presidente da AL, que deve fazer palanque de Serra contra Lula, mas sim Lucas Barreto[PTB], homem de confiança dos empresários, seu assessor pessoal [obra dos atos secretos], que teve bom desempenho no pleito para PMM em 2008,cujas pesquisas apontam como um dos favoritos para 2010.
Como sabemos, Sarney adora arregimentar candidatos feitos, por isso usa pesquisas para pescar em águas turvas. Lucas é a bola da vez. Mesmo porque Jorge Amanajas e Pedro Paulo andam freqüentando índices baixos, não confiáveis, nesse momento, enquanto Lucas se bate com o jovem deputado Camilo[PSB] no topo da mesma, esbarrando nos trinta por cento.
Para não correr risco Sarney coopta lideranças à direita e agora à esquerda [Randolfe Rodrigues do PSOL] , por exemplo, a quem seduz com chances irreais de dar-se bem como uma candidatura ao Senado Federal, passando esse alardear, como seu porta-voz, o nascimento de “ uma nova oposição no Amapá” , liderada por Lucas, com quem formaria parceria, as suas expensas, seguramente sem o conhecimento de Heloisa Helena.
Tudo, menos essa de “nova oposição”. Quando escrevi artigo anterior OPOSIÇÃO A OPOSIÇÃO, não quis negar a legitimidade do espaço do candidato do PTB, ex- Presidente da AL, ainda que esteja convicto que sua ascensão se deve ao esgotamento do governo Waldez, e a expectativa que Lucas venha assegurar as mordomias e dádivas do governo, que Capiberibe negou-lhe quando governador.
Gostemos ou não, oposição quem faz no Amapá é o PSB, que tira leite de pedra para manter-se ao lado dos pobres e da viabilização de um projeto de governo voltado ao desenvolvimento. Que luta por um orçamento justo e que investe na melhoria da qualidade de vida do povo, colocando a cara para bater e, em alguns casos, indo às últimas conseqüências, pagando um preço salgado.
Aí está a diferença que faz uma verdadeira oposição, que nem o PSOL e o PT hoje conseguem fazer, cujas lideranças fazem de tudo para manter seus privilégios, preferindo os gabinetes refrigerados à lutar pelo povo.Faz de conta que é mas não é.
Por esta razão Lucas Barreto nunca vai ser um lídimo representante das oposições como reverbera Randolfe. Numa análise sincera Lucas nunca se posicionou contra o sistema. Presenciou situações escabrosas, sob seu nariz, como todos nós, nada disse e continua a não dizer.
O máximo que dele podemos falar é que brigou – por interesses pessoais contrariados, seguramente, com figuras representativas do sistema do qual é parte e representa, como o deputado Jorge Amanajas, presidente da AL e o governador Waldez Góes, de quem é compadre, segundo comentou-se tempos atrás.
Lucas, todavia, tem o direito, como cidadão, de buscar seu espaço político, Só não pode é querer passar pelo que nunca foi, não é e jamais será. Nem Randolfe Rodrigues, uma promessa política tentar nos convencer de uma tese furada e se deixar envolver por uma trama engendrada por Sarney para enfraquecer Capiberibe e implodir a verdadeira oposição, que há anos vem inspirando sua trajetória política.
Não custa lembrar que não é da natureza do cavalo subir escada – como dizia Ibrahim Sued, nem do jabuti subir árvores, segundo os mineiros. Ofícios prediletos do maranhense Sarney.Tudo pode cansa-lo, menos a incessante busca de poder e capacidade de fazer mau aos adversários.
- Rupsilva - Jornalista
*Publicado por Nezimar Borges
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