A revolução de Che segue atual
Dia 09 passado, voltei à Bolívia junto com meu companheiro João Capiberibe, depois de minha primeira estada naquele país, há 36 anos, quando nos protegíamos, com nossa filha Artionka, ainda de colo, da repressão da ditadura militar. Fazia menos de 4 anos que Ernesto Guevara de la Serna havia sido assassinado pela CIA, usando homens e armas do Exército Boliviano. Estivemos em La Higuera convidados por João Pedro Stédile, do MST e Via Campesina, movimentos sociais que são referência na resistência à opressão e na luta pela igualdade entre homens e mulheres. Se passaram 40 anos da morte do revolucionário latino-americano, líder daqueles que não conseguem ficar confortáveis diante de qualquer injustiça cotidianamente perpetuada para o enriquecimento de uns poucos. Clique em Leia mais! para continuar sua leitura. O imperialismo norte-americano, que impõe às nações mais pobres o mais selvagem capitalismo, só fez piorar as injustiças, a opressão, a desigualdade social e econômica. Troca a roupagem para manter a política opressora: capitalismo, neoliberalismo, agronegócio, globalização... A maioria da população mundial está cada vez mais longe das tecnologias recentes e dos direitos essenciais. Em La Higuera, como há 40 anos, ainda não há energia elétrica e telefone. A água encanada é novidade recente. O tratamento à saúde só é possível por que dois médicos cubanos, movidos pela solidariedade internacional revolucionária, prestam serviços à comunidade onde Che foi morto. Na falta de um ideal político consolidado, San Ernesto de La Higuera tornou-se motivo da fé que pretende melhorar sua realidade. La Higuera, o povoado camponês isolado nas montanhas andinas, surge em cada curva de estrada ou cada encosta de morro quando se trata das desigualdades e das injustiças impostas sobre grande parte da população mundial, oprimida e massacrada cotidianamente. Foram estas injustiças, que Che vira já em sua primeira viagem pela América Latina, que acenderam sua indignação revolucionária. A gravidade da opressão imposta sobre as populações mais empobrecidas não diminuiu. Pelo contrário, o avanço tecnológico e a evolução econômica tornaram-se barreiras ainda maiores para a inclusão social e para a igualdade entre os povos. Os ideais e os motivos da indignação revolucionária de Che continuam atuais. Com a riqueza e a tecnologia de hoje não podem ser admissíveis crianças e adultos mortos pela fome, pela sede ou pela falta de tratamento médico. Se hoje não há espaço para a revolução armada, menos ainda há para o comodismo e a indiferença: * 985 milhões de pessoas sobrevivem com menos de um dólar por dia. Este número duplicou nos últimos 30 anos. 65% da população africana vive nesta situação; * a fome atinge 815 milhões de pessoas, mulheres e crianças são a maioria – 54 milhões de famintos estão na América Latina; * 35% das crianças e adolescentes até 18 anos e 27% dos adultos não bebem água potável; * 1 milhão e 600 mil crianças até 5 anos morrem todo o ano por beberem água suja ou contaminada; * Na América Latina, 150 milhões de pessoas (quase toda a população brasileira) vão sofrer com a falta de água até 2050. * O Brasil é o 4º país mais desigual do mundo: 15% da riqueza fica com apenas 1% da população. Na outra ponta estão 85 milhões de brasileiros – metade da população – que ficam com apenas 12% da riqueza. Trocando em miúdos, enquanto um rico têm R$ 15,00, um empobrecido tem só 24 centavos. Che não foi assassinado por que se acomodou como ministro de estado da sua primeira revolução. Queria a democracia e a justiça social nos países latino-americanos. Che vive nos ideais dos que lutam por justiça social, pelo fim da opressão, pela distribuição das riquezas, pelo respeito aos direitos de todos os homens e mulheres, por um mundo melhor. Ironicamente, seu assassinato multiplicou e expandiu seus ideais, aos invés de sufocá-los, tornando-o referência da eterna indignação contra a opressão e a injustiça social. É exemplo para nós que somos capazes de nos indignar com as injustiças sociais de onde sai a riqueza de uns poucos e a miséria dos bilhões. “Hasta la victória, siempre.” Janete Capiberibe é deputada federal eleita pelo PSB do Amapá
*Publicado por Nezimar Borges
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