AS MUSAS DO CANSEI
Eliakim Araújo
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Publicada em: 16/08/2007

Essa história de levar povo pra rua não é proposta nossa, quantas pessoas virão, não importa. Nós estaremos lá” A frase acima é Luiz Borges D’Urso, presidente da OAB paulista e um dos líderes - junto com o empresário João Doria - do Cansei, e dá bem o tom do caminho que tomou o movimento. Quando um dos principais organizadores, declara que “levar povo pra rua não é proposta nossa” a manifestação é natimorta e condenada ao fracasso. Repare que o autor sequer usa o artigo “o” , antes da palavra povo. Ou seja, povo para ele é coisa distante, quase virtual. No mesmo raciocínio, só para argumentar, se o movimento teve algo de nobre em sua origem, ele se perdeu ao distanciar-se das massas e quando escalou sua comissão de frente, formada por Hebe, Ivete, Regina e Ana Maria. Todas estrelas de primeira grandeza no nosso universo televisivo. Todas, à exceção de Regina Duarte, embolsam mensalmente rendimentos acima de um milhão de reais, a julgar pelas informações que circulam abundantemente nas colunas e revistas especializadas. A foto das quatro musas, com rostos circunspectos e a mão direita sobre o peito, não empolga ninguém, porque todos sabemos que elas não são assim. São todas mulheres esfusiantes e, aparentemente, de bem com a vida. A foto ficou falsa – talvez por erro de direção – pois Hebe, Ivete, Regina e Ana Maria não são assim em seu dia a dia televisivo. Outro pecado na escolha das musas é que pelo menos duas delas sempre foram assumidamente anti-Lula (e anti-PT). Quem não se lembra da atriz Regina Duarte no programa do então candidato José Serra, em 2002, declarando “temer pelo futuro do Brasil”, caso o candidato do governo FHC não fosse eleito? Quem não se lembra de Hebe declarando abertamente seu voto (e sua eterna amizade) ao candidato Paulo Maluf? Logo, pode-se inferir que o parti pris das duas contra o atual o atual presidente vem de longe. Diante disso, a pergunta é inexorável. Será que as quatro estão assim tão indignadas com o Brasil? Será que interessa a elas alterar a atual situação social que lhes é tão favorável? Vale a piada: não estarão cansadas nossas estrelas de ganhar tanto dinheiro? Quem viveu os grandes movimentos sociais brasileiros sabe que nada acontece sem a participação popular. A história recente do país registra espetaculares mobilizações populares, algumas nem sempre vitoriosas na primeira hora - como a Marcha dos Cem Mil, em 1968, que recrudesceu a repressão do regime militar com a edição do AI-5 - mas mostraram a força do velho refrão “povo unidos jamais sera vencido”. Outras, vitoriosas, como as manifestações dos “caras pintadas”, que ajudaram a derrubar Collor do poder. Sem esquecer da campanha das Diretas, em 1984, que levou para as ruas do Rio e São Paulo milhões de pessoas. Suspeito que o ato na Catedral da Sé tem todos os ingredientes para não dar certo: primeiro pelas declarações infelizes e a falta de representatividade de suas lideranças, depois pela escolha errada das musas e finalmente por sua limitação a São Paulo. E, fundamental, esqueceram de chamar os excluídos.
*Publicado por Nezimar Borges
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