Comissão da CNBB acusa Gilmar Mendes de ser "parcial"
Local: Goiania - GO - 06/03/2009
Fonte: Pastoral da Terra
Link: Diversos |
Nota distribuída há pouco pela Secretaria Nacional
da Comissão Pastoral da Terra da Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil:
“Ai dos que coam mosquitos e engolem camelos” (MT 23,24)
A Coordenação Nacional da CPT diante das manifestações
do presidente do STF, Gilmar Mendes, vem a público se manifestar.
No dia 25 de fevereiro, à raiz da morte de quatro seguranças
armados de fazendas no Pernambuco e de ocupações de
terras no Pontal do Paranapanema, o ministro acusou os movimentos
de praticarem ações ilegais e criticou o poder executivo
de cometer ato ilícito por repassar recursos públicos
para quem, segundo ele, pratica ações ilegais. Cobrou
do Ministério Público investigação sobre
tais repasses.
No dia 4 de março, voltou à carga discordando do procurador-geral
da República, Antonio Fernando de Souza, para quem o repasse
de dinheiro público a entidades que “invadem” propriedades
públicas ou privadas, como o MST, não deve ser classificado
automaticamente como crime.O ministro, então, anunciou a decisão
do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), do qual ele mesmo é
presidente, de recomendar aos tribunais de todo o país que
seja dada prioridade a ações sobre conflitos fundiários.
Esta medida de dar prioridade aos conflitos agrários era mais
do que necessária. Quem sabe com ela aconteça o julgamento
das apelações dos responsáveis pelo massacre
de Eldorado de Carajás, (PA), sucedido em 1996; tenha um desfecho
o processo do massacre de Corumbiara, (RO), (1995); seja por fim julgada
a chacina dos fiscais do Ministério do Trabalho, em Unaí,
MG (2004); seja também julgado o massacre de sem terras, em
Felisburgo (MG) 2004; o mesmo acontecendo com o arrastado julgamento
do assassinato de Irmã Dorothy Stang, em Anapu (PA) no ano
de2005, e cuja federalização foi negada pelo STJ, em
2005.
Quem sabe com esta medida possam ser analisados os mais de mil e
quinhentos casos de assassinato de trabalhadores do campo. A CPT,
com efeito, registrou de 1985 a 2007, 1.117 ocorrências de conflitos
com a morte de 1.493 trabalhadores. (Em 2008, ainda dados parciais,
são 23 os assassinatos).
Destas 1.117 ocorrências, só 85 foram julgadas até
hoje, tendo sido condenados 71 executores dos crimes e absolvidos
49 e condenados somente 19 mandantes, dos quais nenhum se encontra
preso. Ou aguardam julgamento das apelações em liberdade,
ou fugiram da prisão, muitas vezes pela porta da frente, ou
morreram.
Causa estranheza, porém, o fato desta medida estar sendo tomada
neste momento. A prioridade pedida pelo CNJ será para o conjunto
dos conflitos fundiários ou para levantar as ações
dos sem terra a fim de incriminá-los?
Pelo que se pode deduzir da fala do presidente do STF, “faltam
só dois anos para o fim do governo Lula”... e não
se pode esperar, “pois estamos falando de mortes” nos
parece ser a segunda alternativa, pois conflitos fundiários,
seguidos de mortes, são constantes. Alguém já
viu, por acaso, este presidente do Supremo se levantar contra a violência
que se abate sobre os trabalhadores do campo, ou denunciar a grilagem
de terras públicas, ou cobrar medidas contra os fazendeiros
que exploram mão-de-obra escrava?
Ao contrário, o ministro vem se mostrando insistentemente
zeloso em cobrar do governo as migalhas repassadas aos movimentos
que hoje abastecem dezenas de cidades brasileiras com os produtos
dos seus assentamentos, que conseguiram, com sua produção,
elevar a renda de diversos municípios, além de suprirem
o poder público em ações de educação,
de assistência técnica, e em ações comunitárias.
O ministro não faz a mesma cobrança em relação
ao repasse de vultosos recursos ao agronegócio e às
suas entidades de classe.
Pelas intervenções do ministro se deduz que ele vê
na organização dos trabalhadores sem terra, sobretudo
no MST, uma ameaça constante aos direitos constitucionais.
O ministro Gilmar Mendes não esconde sua parcialidade e de
que lado está.
Como grande proprietário de terra no Mato Grosso ele é
um representante das elites brasileiras, ciosas dos seus privilégios.
Para ele e para elas os que valem, são os que impulsionam o
“progresso”, embora ao preço do desvio de recursos,
da grilagem de terras, da destruição do meio-ambiente,
e da exploração da mão de obra em condições
análogas às de trabalho escravo.
Gilmar Mendes escancara aos olhos da Nação a realidade
do poder judiciário que, com raras exceções,
vem colocando o direito à propriedade da terra como um direito
absoluto e relativiza a sua função social. O poder judiciário,
na maioria das vezes leniente com a classe dominante é agílimo
para atender suas demandas contra os pequenos e extremamente lento
ou omisso em face das justas reivindicações destes.
Exemplo disso foi a veloz libertação do banqueiro Daniel
Dantas, também grande latifundiário no Pará,
mesmo pesando sobre ele acusações muito sérias,
inclusive de tentativa de corrupção.
O Evangelho é incisivo ao denunciar a hipocrisia reinante
nas altas esferas do poder: “Ai de vocês, guias cegos,
vocês coam um mosquito, mas engolem um camelo” (MT 23,23-24).
Que o Deus de Justiça ilumine nosso País e o livre
de juízes como Gilmar Mendes!
Goiânia, 6 de março de 2009.
Dom Xavier Gilles de Maupeou d’Ableiges, Presidente da Comissão
Pastoral da Terra
*Publicado por Nezimar Borges
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