Encastelado no poder
O parlamento no Brasil entrou no século XXI com os mesmos
vícios de séculos anteriores. O descaso com os anseios
populares virou uma prática corriqueira, o histórico
político de alguns representantes mais parece uma “capivara”
e reina uma salada partidária que confunde até os que
convivem cotidianamente em seu meio. Mas é preciso separar
o joio do trigo, superar o discurso de que “ninguém presta”
e fortalecer a participação popular e as organizações
partidárias.
Ele é deputado federal e seu nome é Edmar, mas gosta
mesmo é de terra, muita terra. Tanta, que possui uma fazenda
de mais de 190 ha no município de São João Nepomuceno,
no estado de Minas Gerais, que como todos sabemos, não tem
saída para o mar.
Por um desses infortúnios da vida sua propriedade foi mostrada
aos quatro cantos deste planeta esférico e abriga um castelo
memorável, com muitos quartos, suítes, salas, além
de chafariz, lago artificial, piscina com cascata e capela. Já
hospedou presidente e até os casais enamorados tiram fotos
para o álbum de núpcias. São 7.500 metros quadrados
de área construída, mais do que muitos castelos medievais
europeus.
A “descoberta” da construção monumental,
erguida em meio às colinas da Serra da Mantiqueira, permite
reflexões que ilustram a quantas andam a representação
política no Brasil.
Edmar Moreira foi eleito internamente para segundo vice-presidente
da Câmara dos Deputados, e herdou por força regimental
a Corregedoria do órgão. Prerrogativa do cargo, seu
papel seria então o de fiscalizar, orientar e punir comportamentos
inadequados dos seus pares, em outras palavras, dar um pega naqueles
que, por exemplo, não declaram seus bens à Receita Federal
ou que são devedores aos cofres públicos. Incumbido
foi de uma função que exigia lisura e bom comportamento.
Decepcionou desde a primeira hora.
Seu histórico político partidário já
seria suficiente para não estar onde esteve. Foi eleito deputado
federal em 1991 na onda Collor e pelo seu partido, o PRN. Surfou na
aventura do Presidente "fashion", que foi um desastre como
Presidente, mas um marco no mundo "fashion". Quando a fantasia
acabou ele se foi em 1992 para o PP; em 1995 para o PPB; 2003 para
o PL; 2005 para o PFL e em 2007 para o DEMO. Coerência a toda
prova, jamais abandonou a direita conservadora.
Sua produtividade parlamentar também deve ter servido como
parâmetro para chegar à mesa diretora. Em 2005 apresentou
seu último projeto de lei cujo artigo primeiro sentencia: “Fica
criado o Serviço Voluntário de Capelania Carcerária
em toda unidade carcerária do Sistema Penitenciário
dos Estados, objetivando o atendimento espiritual e religioso aos
presos, internados e seus familiares, assim como aos profissionais
de segurança, respeitada, sempre, à vontade dos mesmos”.
É a sua grande contribuição ao falido sistema
prisional brasileiro.
Além da bondade que reina em seu coração é
também um homem de família. Afirma que em 1993 passou
todos bens para seus filhos. Uma ação de amor paterno,
mas que deixa um cheiro de desconfiança no ar.
Sua irmã foi reeleita em 2007, pelo PSDB, prefeita da cidade.
São João Nepomuceno arrecadou com IPTU em 2006 R$ 568
mil, e se em sua propriedade, que parece valer cerca de R$ 25 milhões,
fosse aplicado uma alíquota de 1% (aceitável para um
patrimônio deste porte), seria quase metade do que toda a cidade
recolhe, num único imóvel. Mas como o imóvel
está em área rural o imposto devido é o ITR,
que no Brasil é inexpressivo.
O Vice-Prefeito José Maria Ribeiro Sampaio ajuda a entender
outras questões. Sua origem política está no
PMDB, migrou para o PSDB e depois para o PPS. Entrou para o PT e é
hoje o segundo nome na linha de poder da cidade. Tem responsabilidade,
portanto, na isenção de IPTU do castelo, pois também
já foi presidente da Câmara Municipal, líder do
governo na Câmara e secretário municipal.
A coluna painel da Folha de S. Paulo publicou neste oito de fevereiro:
“Amigos... A declaração favorável do novo
líder do PT na Câmara, Cândido Vaccarezza, sobre
o deputado Edmar Moreira (DEM-MG) tem respaldo na bancada. Mesmo reservadamente,
petistas se recusam a dizer um "ai" sobre o "dono do
castelo.”
Continua a mesma coluna: “... de longa data. A boa relação
é antiga. Além de ter votado pela absolvição
de deputados petistas acusados no "mensalão", Moreira
foi favorável à CPMF, mesmo sendo de partido da oposição”.
Deu para entender? E o pior é que pesam sobre o deputado denúncias
de ligação com a ditadura militar e tortura de presos
políticos, mas o passado pode ser apagado em nome da governabilidade
do presente e o poder no futuro.
Pelo seu histórico recebeu ainda várias homenagens.
É cidadão honorário de três cidades mineiras,
ganhou a “Brigadeiro Tobias” da Polícia Militar
de São Paulo e a Comenda Universitária da Federal de
Itajubá dentre outras tantas condecorações. É
o gosto pela fantasia travestida de seriedade.
O apego piegas por honrarias remonta aos títulos de nobreza
do período colonial brasileiro, de onde se originam também
outras características não menos importantes da elite
nacional. Economicamente patrimonialista e extravagante em seus hábitos,
faz o delírio de empresas dedicadas ao mercado da ponta do
topo da pirâmide. Somos linha de frente nas vendas de Ferrari,
jóias e perfumes caros, pela frota de helicópteros,
dentre outras quimeras. É a reprodução moderna
do binômio Casa Grande e Senzala: na economia o casamento forçado,
no social o divórcio litigioso.
Os antigos Barões e Coronéis são hoje os caciques
regionais e nacionais, geradores de uma tensão permanente entre
o fisiológico poder pessoal e a organização partidária.
Por isso vivemos uma oscilação permanente entre a construção
de formas mais avançadas de representação política
e participação popular e a manutenção
desta arcaica estrutura de poder, sintetizada em partidos de pessoas.
No Brasil a sopa de letrinhas ganhou maizena com a incorporação
do PT ao caldo. Recentemente o Planalto apoiou José Sarney
para a presidência do Senado Federal, isolando Tião Viana
que é do partido do presidente Lula, e que por sua vez foi
apoiado pelo PSDB. Assim como Sarney, Collor hoje também faz
parte da base de sustentação do governo no Senado. Quem
mudou de lado?
A aversão ao recolhimento de valores ao fisco também
vem de longa data. Juntar bens e não pagar os impostos devidos
é outra faceta do enriquecimento fácil, e por isso mesmo
o imposto sobre as grandes fortunas não avança no país
das grandes fortunas. Nem mesmo um brasileiro que passou a vida inteira
as atacando fez força para implantá-lo quando chegou
à presidência. A elite dirigente sequer é Republicana
neste sentido, não tem um projeto de nação, a
não ser pilhar a riqueza nacional e gastar em extravagância,
seja aqui ou em Miami, em vestidos de grife ou viagens à Disneilandia.
A superação deste quadro é possível e
necessária, mas não se resolve na base das lamúrias.
É preciso mobilização social de baixo para cima
para enfrentar os escândalos que se sucedem. Reclamos insistentes
com o vizinho, indignação de sofá e cuspir respostas
mecânicas como “ninguém presta” e “político
é tudo ladrão”, só colaboram para ampliar
o distanciamento das pessoas da participação política
na definição dos rumos do país, que é
tudo que os donos do poder querem. O remédio é exatamente
o contrário: protestar organizadamente contra este estado de
coisas, agir politicamente a favor de uma reforma que fortaleça
os partidos e enfraqueça os coronéis, diferenciar a
banda podre da banda sadia do parlamento. Enfim, tornar os brasileiros
verdadeiros protagonistas das mudanças necessárias.
O brasão do município de São João Nepomuceno,
que é o padroeiro contra a calúnia, estampa a frase:
Ecce Agnus Dei – “Esse é o Cordeiro de Deus”.
Será que Edmar Moreira passa pelo buraco da agulha?
Ricardo Alvarez
Geógrafo, é professor e editor do Blog Controvérsia
*Publicado por Nezimar Borges
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