Jornal diz que empresas do grupo Sarney mantém contas
ilegais no Exterior
O Sistema Mirante – a maior rede de comunicação
do Maranhão, que tem à frente o empresário Fernando
Sarney (filho do senador José Sarney, do PMDB-AP) e sua mulher
Teresa Cristina Murad Sarney – mantém contas no exterior
(inclusive em “paraísos fiscais”) não declaradas
à Receita Federal. A constatação do crime financeiro
foi obtida por meio de “grampos” e interceptações
de e-mails realizados com autorização judicial pela
Polícia Federal em 2008, ano em que a instituição
– mais precisamente os delegados Márcio Adriano Anselmo
e Thiago Monjardim Santos – elaborou um extenso relatório
(ao qual o Jornal Pequeno teve acesso) sobre as atividades ilícitas
(formação de quadrilha, crimes contra o sistema financeiro,
lavagem de dinheiro, tráfico de influência etc. etc.)
de Fernando Sarney e um grupo de ex-colegas de faculdade do empresário.
Segundo a PF, as contas ilegais dos donos da Mirante podem ter o objetivo
de sonegar impostos ou alimentar “caixas 2” das campanhas
eleitorais de integrantes da família Sarney (ou as duas coisas).
E aopostar
Fernando e Teresa Sarney: contas suspeitas na China e nos Estados
Unidos
Dinheiro na Califórnia – Entre os vários e-mails
interceptados pela Polícia Federal, um é especialmente
suspeito. Nele, Teresa Sarney (teresa.sarney@mirante.com.br) informa
a uma pessoa identificada como Zoca (duailib@hotmail.com) sua conta
no exterior para o depósito de mil dólares. Veja o conteúdo
do e-mail:
“Zoca, a conta para depósito dos mil dólares
é essa: Wells Fargo Bank, Account # 6016793382 Routing 121042882.
Vê com Rodrigo se falta algum dado e qualquer coisa me avisa.
Quando ele chegar aqui pagamos diretamente pra ele. Bjs.”
O Wells Fargo, com sede em San Francisco (estado da Califórnia,
costa oeste dos Estados Unidos) é considerado uma das mais
vigorosas instituições bancárias norte-americanas.
China e Bahamas – Além desse e-mail, a PF obteve a cópia
de uma autorização, assinada por Fernando Sarney, para
transferir um milhão de dólares para uma conta num banco
de Qingdao, na China.
Os investigadores também interceptaram mensagens eletrônicas
nas quais o empresário Gianfranco Perasso (membro ativo do
“esquema Fernando Sarney”, segundo a PF) faz referência
a um pagamento de 26,6 mil dólares feito à empresa Morgan
& Morgan, com sede no Panamá. A M&M é um escritório
especializado em gerenciar empresas terceirizadas que atuam em outros
países (offshores), particularmente em “paraísos
fiscais”.
Relata a PF, na página 66 de seu relatório: “A
referida empresa (www.morimor.com) (...), com sedes em vários
paraísos fiscais, atua como blindagem patrimonial e constituição
de sociedades fiduciárias. Apresenta-se, portanto, um indício
veemente da constituição de empresas no exterior, possivelmente
offshores”.
Gianfranco Perasso também teve interceptado pela PF um e-mail
em que trata de um depósito feito no banco Credit Suisse, localizado
em Nassau, nas Bahamas, notório abrigo de empresas que querem
fugir do Fisco.
‘Boi Barrica’ – Para a PF, não há
dúvida de que Fernando, Teresa, Gianfranco e, além deles,
Flávio Barbosa Lima (outro amigo de Fernando desde o final
da década de 70, tempo em que cursavam a Poli, em São
Paulo), mantêm dinheiro resultante das atividades ilícitas
do grupo fora do Brasil.
Eventualmente, parte desse dinheiro é retirada para pagamento
a colaboradores do esquema ou outros fins. Em 4 de julho de 2008,
por exemplo, a PF “grampeou” – no decorrer da operação
denominada “Boi Barrica” – uma conversa por telefone
entre Fernando Sarney e Gianfranco Perasso, na qual o superintendente
da Mirante dá a entender que precisa levantar uma grande quantidade
de dinheiro para pagamento a colaboradores. Faz referência a
“dois americanos”. Para a PF, seriam dois milhões
de dólares. Veja o teor do diálogo:
FERNANDO SARNEY: Aquele procedimento que aquele pessoal de Teresina
faz comigo de vez em quando, que me ajuda, o nosso amigo ROBERTO,
que está aí [em São Paulo], me disse que poderia
fazer. Eu estou com dificuldade lá [em Teresina], o pessoal
parece que está num momento que não quer fazer.
GIANFRANCO PERASSO: Eu vou falar com o ROBERTO, então.
FS: Muito bem, porque eu não vou esperar aquela outra solução
não, viu ‘China’ [Gianfranco Perasso]? A pressão
está muito grande, eu vou resolver isso daquela outra forma
que você sabe qual é.
GP: Quantos ‘quilos’ você precisa?
FS : Isso a gente ajustaria.
GP: Eu falo com o ROBERTO.
FS: (...) Eu falei com quase ‘dois americanos’, mas não
cheguei a tanto, não. Você sabe do que eu preciso, né?
São aqueles problemas que você sabe, você tem idéia
da coisa. O Flavinho [FLÁVIO BARBOSA] pode te dar uma idéia
melhor, mas é algo próximo disso, tá?
GP: Tá, dois ‘inteiros’, né?
FS: É algo em torno. Vou definir isso com o Flavinho aqui
e a gente veria exatamente como seria feito, tá?
GP: Eu converso com ele [ROBERTO] hoje, então.
FS: Conversa com muita discrição. Pergunta se ainda
está de pé aquela proposta que ele me fez, tá?
Pergunta as bases, qual é a troca. É importante saber.
Aí você me informa pra gente poder ‘detonar’,
ok?
GP: Tá bom, tá jóia, um abraço.
FS: Cuidado, hein, ‘China’...
GP: Sem problemas...
Tanto dinheiro sendo movimentado dentro e fora do país e uma
empresa sem nenhum empregado – a São Luís Factoring
– sendo constituída para trabalhar exclusivamente com
as outras duas empresas do grupo Mirante (TV Mirante e Gráfica
Escolar) são indícios translúcidos, segundo a
Polícia Federal e o Ministério Público Federal,
de que a maior potência de Comunicação do Maranhão
esteja camuflando um imenso “caixa dois”, direcionado,
como já mencionado, não só à sonegação
de impostos, mas ao levantamento de fundos ilegais para as campanhas
eleitorais sarneisistas.
Uma conversa entre uma funcionária do setor financeiro da
Mirante, Teresa Cristina Ferreira Lopes, e uma mulher não identificada,
em 10 de janeiro de 2008, é por demais esclarecedora e robustece
essa última suspeita. Veja o diálogo, gravado pela PF:
MULHER NÃO IDENTIFICADA: Tu já olhou alguma coisa na
internet a respeito da família Sarney?
TERESA CRISTINA FERREIRA LOPES: Vi, meu nome tá lá.
MNI: Que doidice é essa?
TCFL: Aquele dinheiro que a gente sacava na época da campanha.
MNI: Da campanha, né?
TCFL: Ahã.
MNI: Vocês estão sendo investigados, entendeu?
TCFL: Entendi. Não tenho que me preocupar, não fiz
nada de errado. Eu tô tranqüila.
*Publicado por Nezimar Borges
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