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Jornal diz que empresas do grupo Sarney mantém contas ilegais no Exterior

Local: Maranhao - AP - 19/01/2009
Fonte: Jornal Pequeno
Link: www.jornalpequeno.com.br

O Sistema Mirante – a maior rede de comunicação do Maranhão, que tem à frente o empresário Fernando Sarney (filho do senador José Sarney, do PMDB-AP) e sua mulher Teresa Cristina Murad Sarney – mantém contas no exterior (inclusive em “paraísos fiscais”) não declaradas à Receita Federal. A constatação do crime financeiro foi obtida por meio de “grampos” e interceptações de e-mails realizados com autorização judicial pela Polícia Federal em 2008, ano em que a instituição – mais precisamente os delegados Márcio Adriano Anselmo e Thiago Monjardim Santos – elaborou um extenso relatório (ao qual o Jornal Pequeno teve acesso) sobre as atividades ilícitas (formação de quadrilha, crimes contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro, tráfico de influência etc. etc.) de Fernando Sarney e um grupo de ex-colegas de faculdade do empresário. Segundo a PF, as contas ilegais dos donos da Mirante podem ter o objetivo de sonegar impostos ou alimentar “caixas 2” das campanhas eleitorais de integrantes da família Sarney (ou as duas coisas).

E aopostar

Fernando e Teresa Sarney: contas suspeitas na China e nos Estados Unidos

Dinheiro na Califórnia – Entre os vários e-mails interceptados pela Polícia Federal, um é especialmente suspeito. Nele, Teresa Sarney (teresa.sarney@mirante.com.br) informa a uma pessoa identificada como Zoca (duailib@hotmail.com) sua conta no exterior para o depósito de mil dólares. Veja o conteúdo do e-mail:

“Zoca, a conta para depósito dos mil dólares é essa: Wells Fargo Bank, Account # 6016793382 Routing 121042882. Vê com Rodrigo se falta algum dado e qualquer coisa me avisa. Quando ele chegar aqui pagamos diretamente pra ele. Bjs.”

O Wells Fargo, com sede em San Francisco (estado da Califórnia, costa oeste dos Estados Unidos) é considerado uma das mais vigorosas instituições bancárias norte-americanas.

China e Bahamas – Além desse e-mail, a PF obteve a cópia de uma autorização, assinada por Fernando Sarney, para transferir um milhão de dólares para uma conta num banco de Qingdao, na China.

Os investigadores também interceptaram mensagens eletrônicas nas quais o empresário Gianfranco Perasso (membro ativo do “esquema Fernando Sarney”, segundo a PF) faz referência a um pagamento de 26,6 mil dólares feito à empresa Morgan & Morgan, com sede no Panamá. A M&M é um escritório especializado em gerenciar empresas terceirizadas que atuam em outros países (offshores), particularmente em “paraísos fiscais”.

Relata a PF, na página 66 de seu relatório: “A referida empresa (www.morimor.com) (...), com sedes em vários paraísos fiscais, atua como blindagem patrimonial e constituição de sociedades fiduciárias. Apresenta-se, portanto, um indício veemente da constituição de empresas no exterior, possivelmente offshores”.

Gianfranco Perasso também teve interceptado pela PF um e-mail em que trata de um depósito feito no banco Credit Suisse, localizado em Nassau, nas Bahamas, notório abrigo de empresas que querem fugir do Fisco.

‘Boi Barrica’ – Para a PF, não há dúvida de que Fernando, Teresa, Gianfranco e, além deles, Flávio Barbosa Lima (outro amigo de Fernando desde o final da década de 70, tempo em que cursavam a Poli, em São Paulo), mantêm dinheiro resultante das atividades ilícitas do grupo fora do Brasil.

Eventualmente, parte desse dinheiro é retirada para pagamento a colaboradores do esquema ou outros fins. Em 4 de julho de 2008, por exemplo, a PF “grampeou” – no decorrer da operação denominada “Boi Barrica” – uma conversa por telefone entre Fernando Sarney e Gianfranco Perasso, na qual o superintendente da Mirante dá a entender que precisa levantar uma grande quantidade de dinheiro para pagamento a colaboradores. Faz referência a “dois americanos”. Para a PF, seriam dois milhões de dólares. Veja o teor do diálogo:

FERNANDO SARNEY: Aquele procedimento que aquele pessoal de Teresina faz comigo de vez em quando, que me ajuda, o nosso amigo ROBERTO, que está aí [em São Paulo], me disse que poderia fazer. Eu estou com dificuldade lá [em Teresina], o pessoal parece que está num momento que não quer fazer.

GIANFRANCO PERASSO: Eu vou falar com o ROBERTO, então.

FS: Muito bem, porque eu não vou esperar aquela outra solução não, viu ‘China’ [Gianfranco Perasso]? A pressão está muito grande, eu vou resolver isso daquela outra forma que você sabe qual é.

GP: Quantos ‘quilos’ você precisa?

FS : Isso a gente ajustaria.

GP: Eu falo com o ROBERTO.

FS: (...) Eu falei com quase ‘dois americanos’, mas não cheguei a tanto, não. Você sabe do que eu preciso, né? São aqueles problemas que você sabe, você tem idéia da coisa. O Flavinho [FLÁVIO BARBOSA] pode te dar uma idéia melhor, mas é algo próximo disso, tá?

GP: Tá, dois ‘inteiros’, né?

FS: É algo em torno. Vou definir isso com o Flavinho aqui e a gente veria exatamente como seria feito, tá?

GP: Eu converso com ele [ROBERTO] hoje, então.

FS: Conversa com muita discrição. Pergunta se ainda está de pé aquela proposta que ele me fez, tá? Pergunta as bases, qual é a troca. É importante saber. Aí você me informa pra gente poder ‘detonar’, ok?

GP: Tá bom, tá jóia, um abraço.

FS: Cuidado, hein, ‘China’...

GP: Sem problemas...

Tanto dinheiro sendo movimentado dentro e fora do país e uma empresa sem nenhum empregado – a São Luís Factoring – sendo constituída para trabalhar exclusivamente com as outras duas empresas do grupo Mirante (TV Mirante e Gráfica Escolar) são indícios translúcidos, segundo a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, de que a maior potência de Comunicação do Maranhão esteja camuflando um imenso “caixa dois”, direcionado, como já mencionado, não só à sonegação de impostos, mas ao levantamento de fundos ilegais para as campanhas eleitorais sarneisistas.

Uma conversa entre uma funcionária do setor financeiro da Mirante, Teresa Cristina Ferreira Lopes, e uma mulher não identificada, em 10 de janeiro de 2008, é por demais esclarecedora e robustece essa última suspeita. Veja o diálogo, gravado pela PF:

MULHER NÃO IDENTIFICADA: Tu já olhou alguma coisa na internet a respeito da família Sarney?

TERESA CRISTINA FERREIRA LOPES: Vi, meu nome tá lá.

MNI: Que doidice é essa?

TCFL: Aquele dinheiro que a gente sacava na época da campanha.

MNI: Da campanha, né?

TCFL: Ahã.

MNI: Vocês estão sendo investigados, entendeu?

TCFL: Entendi. Não tenho que me preocupar, não fiz nada de errado. Eu tô tranqüila.

 

 

*Publicado por Nezimar Borges

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