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Marina confirma o vice

Local: Brasilia, 26/01/2010
Fonte: Via Correa Neto
Link: http://www.correaneto.com.br

Marina Silva nem precisava confirmar Guilherme Leal, um dos donos da Natura, como seu vice. Há tempos os dois fazem uma dobradinha, por assim dizer, verde: ela com a floresta, e ele, com os dólares.

Não há mal nenhum nisso, é claro. Os empresários têm, mais do que o direito, o dever de participar da vida pública brasileira. Lula, em busca de confiança e respeitabilidade nos chamados “mercados”, foi buscar o bilionário José Alencar como vice. Marina tem Leal, também bilionário e também preocupado com o Brasil.

A escolha busca tirar da candidata verde a marca do exotismo alternativo, associando-a a um empresário muito bem-sucedido, que descobriu precocemente a mina de ouro que é o discurso ecológico — nem entro no mérito se o comprometimento é real ou não; dou de barato que seja.

Cria-se, assim, uma espécie de divisão de trabalho: com ela, fica a ética da convicção, o credo, a ideologia, o evangelho da natureza, a utopia; com ele, a ética da responsabilidade, o mundo real, as dificuldades objetivas.

Ela continuaria como mediadora de um mundo selvagem e edênico; ele, como mediador da selva metafórica das ambições mundanas.

A depender de como se conduza a campanha, a fórmula pode dar trabalho àqueles que são considerados os dois candidatos principais à sucessão de Lula: José Serra e Dilma Rousseff.

A figura de Marina está centrada numa meticulosa construção: ela parece ser a política sem ambições, cuja atuação é nada além de missionária. Outros podem ter interesses inconfessáveis; ela não. Teria vocação puramente missionária.

Leal, o “capitalista” da turma, vem de um setor da economia que se apresenta como limpo, com seus xampus, sabonetes, cremes etc.

Não traz a mácula do jogo pesado dos bancos, das empreiteiras e outros setores que dependem fortemente da regulação ou dos recursos oficiais.

Se a Natura construísse hidrelétricas, portos e estradas ou negociasse títulos da dívida pública, talvez não pudesse construir essa imagem quase etérea, de um capitalismo que seria, antes de tudo, ético, dedicado a preservar a natureza, e só secundariamente dedicado ao lucro — o lucro que continua a ser o único motor capaz de gerar civilização, poesia e… pessoas dedicadas em preservar a natureza!

Se pensarmos bem, a composição obedece ao lançamento de uma linha de produtos da Natura.

Juro que não estou sendo irônico — ocorre que a tarefa indeclinável do analista é… analisar!

A empresa mistura produtos naturais, vindos de áreas de manejo controlado da floresta, com a química cosmética, e venda a esperança de, sei lá, cabelos mais macios, e pele mais suave e com menos rugas.

Marina também sai da floresta para se juntar à química do capital.

O efeito seria um mundo com menos rugas éticas.(Produtos politicos)

 

*Publicado por Nezimar Borges

 

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