No Amapá, propina ia para campanha
PF diz que loteamento de cargos para familiares do governador,
candidato à reeleição, e de seu antecessor garantia perpetuação do
esquema
Felipe Recondo e Rui Nogueira / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo
As investigações da Operação Mãos Limpas encontraram fortes indícios de
que o loteamento do governo por parentes do ex-governador Waldez Góes
(PDT) e do governador Pedro Paulo Dias (PP) garantia a perpetuação do
esquema de desvio de recursos públicos descoberto pela Polícia Federal.
Além disso, o dinheiro desviado e as propinas cobradas de empresários
serviriam, segundo o Ministério Público, para financiar a campanha de
reeleição de Pedro Paulo Dias.
Todos os indícios constam de documento do Ministério Público obtido pelo
Estado, que embasa os pedidos de prisão temporária de 18 pessoas,
incluindo o atual e o ex-governador, e de busca e apreensão cumpridos
pela PF. “Essa “montagem” da cúpula administrativa do Amapá por meio de
vínculos familiares é sintomática do propósito de assegurar a
estabilidade da atividade criminosa, e, consequentemente, da existência
de uma quadrilha no âmbito da administração daquele estado. É inusitado e
contraria súmula do STF que um governador tenha esposa e dois irmãos
como secretários de Estado”, argumenta o MP, referindo-se ao atual
governador.
Os documentos e interceptações telefônicas mostraram que Pedro Paulo
Dias estaria negociando, com representante de um grupo empresarial da
Indonésia, o repasse de R$ 30 milhões para sua campanha eleitoral. A
prática, conclui o MP, além de crime eleitoral, caracterizaria a prática
de corrupção e peculato.
A PF usou durante as investigações dois agentes infiltrados que colheram
provas de corrupção consideradas “inquestionáveis”. Em uma filmagem
secreta, a PF gravou um funcionário do governo pegando a porcentagem
dele na propina e indo tranquilamente depositar o dinheiro na conta
particular de um banco.
A investigação foi deflagrada em agosto de 2009, mas os 18 mandados de
prisão, 87 mandados de condução coercitiva e 94 mandados de busca e
apreensão foram todos executados anteontem no Amapá, Paraíba e São
Paulo. Todos os presos – além dos governadores, secretários, assessores
especiais e servidores públicos de carreira – foram levados ontem para
Brasília e encarcerados na Superintendência da PF e no Presídio da
Papuda.
Além de filmagens e escutas produzidas ao longo de dois meses, a
operação da PF já tem 30 laudos periciais com cruzamentos sobre
movimentação financeira dos envolvidos no esquema de corrupção, a origem
e o destino final do dinheiro público, depoimentos e documentos
mostrando como as primeiras- damas, os secretários e assessores recebiam
propinas mensais como se fossem salário.
Um dos casos de fraude envolve a Secretaria de Educação, com um contrato
de R$ 1 milhão para fornecimento de 200 filtros para melhorar a
qualidade da água que os alunos bebem nas escolas estaduais do Amapá.
O contrato, que tinha “caráter emergencial”, era dirigido a uma única
empresa, que instalou tubos coloridos de PVC, com areia e carvão, que
contaminava a água consumida pelos estudantes.
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100912/not_imp608723,0.php
*Publicado por Nezimar Borges
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