O carnaval da estupidez, da anarquia, da incivilidade
Não houve um campeão, só baixaria, confusão. Não houve civilidade, só truculência, violência. Não coube argumento fundamentado [nas normas (lei), na doutrina e na (juris)prudência] mas imposição pela força, usurpação, violação (até mesmo da razão). Eis o retrato do carnaval deste ano no AP.
Onde já se viu uma competição na qual todos os concorrentes são aclamados campeões? Já se imaginou se essa onda pega e derrotados na próxima eleição ao governo do Estado se auto declararem, também, eleitos? Não se instituiria o estúpido reino da bagunça, da ingovernabilidade, da anarquia?
Dá pra conceber um campeonato brasileiro seja de futebol, vôlei ou basquete no qual todos os times participantes fossem declarados ao mesmo tempo campeões? E o merecimento não deveria ser premiado?
Se todos são vencedores, então, acabou-se o prazer e o charme da comemoração pela conquista de um título? E quem seriam os vencidos? Qual a razão de existir competição sem se definir um único e verdadeiro campeão? Pra que normas estabelecedoras de critérios de desempate, se estão letras mortas? Mudar a regra do jogo com o jogo em andamento se configura casuísmo, oportunismo, tirania?
Isso tudo se soma pra produzir a sociedade mais triste na época mais podre, na qual não se confia mais na lisura do resultado de uma eleição, de um campeonato ou de um desfile de escolas de samba. Pior, vale até estuprar o jogo pra se impor um resultado desejado. Quem sabe este estupro não fere de morte o carnaval da Ivaldo Veras.
Conhecer e assinar em baixo das regras de um jogo previamente pactuado e jogá-lo impele aos pactuados, mesmo que não concordando com o resultado apresentado, aceitá-lo, se produzido dentro das regras estabelecidas.
Em relação à mudança de regra, nem mesmo à soberania da assembléia geral de qualquer entidade compete, dentro do Direito, ainda que a unanimidade, mudar a constituição que a rege, sem que seja convocada para o único propósito de operar mudança. Por esse princípio, se todas as escolas de samba do AP são campeãs em 2010, o Estatuto da LIESA fora revogado e o estado de Direito varrido do carnaval, tornando-a uma entidade sem lei. Estabeleceu-se a selvageria.
Ademais, se se convida alguém para julgar uma atividade sabe-se que tal jurado vai julgar de acordo com os valores que traz n'alma, sejam tais valores de ética perversa ou não, isso é próprio da condição humana, como observou a filósofa alemã Anna Arant. O que não vale é impor ao julgador a visão, a percepção e o interesse particular de um dirigente qualquer. Ou fazê-lo de palhaço descartando o resultado do julgamento dele.
O jurado tem que ser livre pra julgar. Qualquer pressão ou artificialismo alheio ao convencimento dele corrompe o carnaval, e descoberto, instala o caos. Infelizmente, boa ética não é qualquer um; no que pese o filósofo Aristóteles tenha ensinado: “o homem só será feliz se exercer com responsabilidade a liberdade ” e o filósofo Sócrates asseverado: “a verdade é mais importante que a própria vida”. Eis a lição de ética mais fecunda de toda a história da humanidade.
O voto mesmo se de sabor azedo e seja qual for seu conteúdo, se dentro da regra do jogo, tem que ser sempre soberano e deve prevalecer. É graças a esse princípio universal que a França vai disputar a Copa do Mundo deste ano, na África.
Mas, não obstante ao descumprimento do regulamento, é claro que de há muito existe problemas no julgamento dos desfiles do carnaval tucuju, e não há escola que não tenha se sentido trapaceada; até vencedoras, em algumas ocasiões, dizem ter merecido vencer com diferenças maiores.
É fato que há jurados que pisam na bola, e por mau caratismo, beneficiam graciosamente a escola da preferida deles e metem à mão nas demais ou pelo menos na(s) concorrente(s) que ameaça(m) a vitória de suas preferidas. Gente, isso tem nome: picaretagem. Essa picaretagem encontra guarida no amadorismo.
Daí inevitável a constatação de que o carnaval amapaense merece e precisa ser repensado e repaginado como um todo, ainda pra ontem. Não há como exorcizar picaretagem nas pessoas quando isto é da natureza delas. Todavia, quanto ao amadorismo pode-se acabar com ele. Basta força de vontade. Querer.
Sendo assim, o júri do carnaval bem que poderia ser constituído por profissionais indicados pelas universidades brasileiras, por instituições de pesquisas ligadas à cultura e à história , por entidades culturais relacionadas às artes plásticas, cênicas, à dança, à música, etc. Mas nenhuma do Amapá. Sequer com parentesco ou outra forma de laços sociais com dirigentes da Liga ou das escolas de samba.
Outra medida seria estabelecer o número de cinco jurados por quesito, e descartar a nota de dois deles, uma maior e uma menor das atribuída a cada escola, em todos os quesitos de avaliação, tal qual vigora em São Paulo e Rio de Janeiro. No mais, definir com clareza e objetividade os critérios a serem avaliados nos quesitos e esclarecê-los a contento e detalhadamente ao corpo de jurados .
De resto, nem sempre ganha quem joga mais bonito. Ao que se assistiu pela TV, as fantasias da Beija- Flor eram do ponto de vista plástico, mais belas (mais luxuosas e mais caras) que as da Unidos da Tijuca, contudo, eram menos criativas e tinham menos a ver com o enredo. Outro exemplo: a seleção brasileira de 1982 encantou o planeta mas não ganhou a Copa do Mundo.
Por fim, deve-se confundir beleza com eficiência? Que reine a racionalidade, o estado de direito, a democracia e, sobretudo, a civilidade. E que a estupidez e a anarquia não matem o carnaval.
*Publicado por Nezimar Borges
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