O oligarca perfeito
Local: Brasil - 06/06/2009
Fonte: Robeto Pompeu de Toledo - Revista VEJA
Link: www.veja.com.br |
“Sarney!, Sarney!, Sarney!” A multidão na praça grita em coro
enquanto o político, no palanque, agita os braços em triunfo. É o
começo do filme Maranhão 66, de Glauber Rocha, documentário que
registra sangue novo, cheio de boas promessas, no governo do Maranhão.
O sangue novo em questão é o do jovem (36 anos) José Sarney de Araújo
Costa, que tomava posse no cargo. “O Maranhão não suportava mais o
contraste de suas fabulosas riquezas potenciais com a miséria, com a
angústia, com a fome, com o desespero”, recita o novo governador. A
câmera mostra a desolação das casas de pau a pique, seus miseráveis
habitantes zanzando pelas ruas de terra. “O Maranhão não quer mais a
desonestidade no governo, a corrupção… O Maranhão não quer a violência
como instrumento de política. O Maranhã o não quer mais a miséria, o
analfabetismo, as mais altas taxas de mortalidade infantil.” O tom é de
anúncio de uma nova era. A câmera mostra prisões desumanas, banheiros
sujos, hospitais precários.
Se há um político brasileiro que elaborou inteligentemente o seu
projeto, e por isso mesmo pode considerá-lo coroado de êxito, é o
senador José Sarney. O projeto, já se adivinha, é o do atraso. O jovem
Tancredi, personagem do romance O Leopardo, de Tomasi di Lampedusa,
traduzia o mesmo objetivo na célebre frase: “Se queremos que tudo fique
como está, é preciso que tudo mude”. O atraso à brasileira vai mais
fundo. A ideia não é que as coisas fiquem como estão; é que melhorem
sempre para os governantes, mesmo que piorem para os governados. Há
muitos campeões do atraso na política brasileira. Sarney é o campeão
dos campeões, tanto por antiguidade quanto, sobretudo, por mérito.
Como é do conhecimento geral, as promessas de nova era no Maranhão,
registradas nos onze minutos do filme de Glauber Rocha, não foram
cumpridas. Ao contrário, a já longa era Sarney logrou a proeza de
empurrar o Maranhão para a rabeira entre os estados brasileiros,
suplantando Piauí e Alagoas. A glória de Sarney, enquanto isso, só fez
aumentar, esparramando-se para a parentela. Ao passear por São Luís e
outras cidades maranhenses, o visitante deparará com ruas, escolas,
hospitais, bibliotecas e edifícios públicos com o nome de José, Marly,
Kiola, Roseana e Fernando Sarney; entre um programa e outro da TV
Mirante, de propriedade da família, folheará o jornal O Estado do
Maranhão, idem; e terminará o périplo com uma chegada ao Convento das
Mercês, construção do século XVII doada a uma fundação criada por
Sarney para a salvaguarda de seus documentos, livros, objetos, e, ao
fim e ao cabo, dele próprio – uma vez que nela está reservado espaço
destinado à sua tumba.
Mas não é isso, ou apenas isso, que converte Sarney em campeão dos
campeões. O pulo do gato está alhures. Os chefões desse naipe – nossos
tradicionais “coronéis” – costumam adotar a prepotência como estilo.
Antonio Carlos Magalhães era assim. Sarney, de sua parte, ataca de
“homem cordial”. Ninguém mais afável. A esse traço acrescenta-se o do
literato, membro da Academia Brasileira de Letras. Suas alianças, por
essa senda, avançam para abarcar intelectuais e artistas, e foi por aí
que Glauber Rocha, já então o maior dos cineastas brasileiros, foi
seduzido a fazer o filme de 1966. Enfim, ao homem cordial e ao literato
junta-se o estadista. Ele já foi presidente da República; a pose é de
impecável cumpridor do que memoravelmente alcunhou de “liturgia do
cargo”. A capa de homem cordial/literato/estadista cobre o coronel como
um jaquetão.
Sarney está na ordem do dia, se é que algum dia saiu dela. Pela
terceira vez é presidente do Senado, e sua ascensão ao cargo vei o
junto com um festival de denúncias, envolvendo a instituição como um
todo mas com sua figura insistentemente no centro da ação – quer por
sua responsabilidade na prática de nomear diretores da casa em
chorrilho, quer pelo fato de ter enviado seguranças do Senado para
vigiar propriedades suas em São Luís, ou de ter usado uma diretora da
casa em suas campanhas eleitorais. Miudezas. O projeto de transpor o
atraso maranhense para as instituições federais está em curso já há
décadas, desde que ele ganhou projeção nacional, e não será
interrompido. Sarney tem a seu favor a pose, a palavra e uma infalível
rede de proteção político-burocrático-social-literária. Vargas Llosa
dizia que o PRI, partido que dominou o México na maior parte do século
XX, tinha inventado a “ditadura perfeita”, com seu jeito de governar
incontrastavelmente dando a impressão de que o fazia dentro da ordem
institucional. Sarney criou o oligarca perfeito.
*Publicado por Nezimar Borges
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