O tamanho do Brasil pobre
27 de Agosto de 2007
Bolsa-Família não basta: é preciso casa, emprego e, principalmente,
educação
Pedro Doria
Em 2005, 7,5 milhões de
famílias eram atendidas pelo Bolsa- Família. O número atual chega a 11 milhões
de famílias, ou mais de 45 milhões de brasileiros, quase um quarto da população.
Um em cada dois nordestinos é atendido pelo programa. “É muita gente, sim”, diz
a professora Sônia Draibe. “Este é o tamanho do Brasil pobre.”
A professora é uma enciclopédia de políticas sociais. Não cita uma política
do governo brasileiro, seja atual ou seja passado, sem compará-la com o que foi
feito em algum outro país. Às vezes o Brasil se sai bem: “Temos uma cobertura
previdenciária maior que a do México”; na maioria das vezes, sai-se mal.
Isso acontece principalmente quando a questão é educação. “Não temos muito o
que fazer pelos adultos atendidos pelo Bolsa-Família, mas para os jovens há
esperança”, diz ela. Não que as políticas deste governo ou do anterior tenham
atacado as raízes do problema. “Nos anos 60, os EUA fizeram políticas parecidas,
mas a escola estava envolvida, os professores se dedicavam mais aos alunos
assistidos pelo programa social”, explica.
Para Sônia Draibe, o programa estimula algo que já acontecia - a presença na
escola -, mas não é eficaz em garantir rendimento escolar. “O que explica que um
país com nosso nível de desenvolvimento tenha chegado a este ponto
educacional?”, ela se pergunta, para responder em seguida: “Nada.” E provoca:
“Estamos fazendo algo para tirar esta nova geração da pobreza?”. Segundo ela,
não.
O Bolsa-Família alcança um quarto da população. Isso é demais?
Um quarto é muito, sim. Mas este é o tamanho do Brasil pobre. Isso tem a ver
com nossas heranças e tem a ver com nossa política social e econômica atual.
Como explicar que a pobreza esteja na cidade e não no campo?
Entre as décadas de 50 e 70, 40 milhões de pessoas migraram para as cidades.
É uma Argentina inteira em 30 anos. Imagine a estrutura urbana e de serviços
sociais que é preciso construir com rapidez para admitir um mínimo de decência
para a vida. A urbanização acelerada, fruto da industrialização, desenvolveu o
País. Como em todo o mundo, sistemas de proteção social foram erguidos nesse
período de urbanização para substituir as antigas formas de proteção
comunitárias do campo, que não funcionavam mais. No Brasil, quando a ditadura
terminou, tínhamos uma cobertura de Previdência Social maior do que a do México,
uma vasta rede de hospitais que pertenciam ao Inamps, muitas escolas. Se formos
comparar com outros países de médio e baixo desenvolvimento, tínhamos uma
infra-estrutura razoável, embora produzindo resultados ruins.
O que se fez para enfrentar esse problema?
O governo Itamar Franco foi o primeiro a ensaiar uma política de combate à
pobreza. Mas foi o Comunidade Solidária, no primeiro mandato de Fernando
Henrique Cardoso, que procurou atacar o problema, melhorando a oferta de
serviços que podiam ter impacto sobre os pobres - educação básica, vacinação,
leite para as crianças, posto de saúde, pré-natal. Mas não havia, ainda,
transferência monetária.
Há críticas ao repasse de dinheiro.
Isso sempre foi polêmico no Brasil. Em outros países não é assim, mas aqui
sempre houve resistência, tanto entre conservadores quanto entre progressistas.
Quando eu estava na faculdade, diziam: “A primeira coisa que o pobre fará com
esse dinheiro é comprar pinga”. Depois não era mais pinga, diziam que compraria
radinho de pilha. Supunha-se que o pessoal com menos educação não usaria bem o
dinheiro.
Faz sentido essa resistência?
Não. Na década de 1980, o governo Franco Montoro, em São Paulo, criou um
programa que repassava dinheiro às famílias que recebiam seus filhos vindos da
Febem. Como o dinheiro era pouco, essas famílias juntavam tudo num bolo e cada
mês faziam um mutirão na casa de uma. Ou então poupavam por uns meses para
comprar um carrinho de pipoca para aquele rapaz que agora precisaria trabalhar.
Ao mesmo tempo, outros programas, que forneciam recursos, fracassavam por não
levar em consideração hábitos regionais. Aqui em São Paulo, por exemplo,
distribuíram feijão preto, que só é consumido no Rio. As pessoas jogavam
fora.
Como foram os projetos de transferência de renda com FHC?
O primeiro dos projetos federais de transferência monetária foi o
Bolsa-Escola, que teve uma implementação muito difícil. Havia muita tensão com a
equipe econômica e a fiscalização da contrapartida para a transferência - a
freqüência às aulas - sempre foi difícil. Muitos municípios não tinham condições
de fazê-lo. Em 2000, o Congresso aprovou a criação daquilo que o governo tentou
evitar no início, que é um Fundo de Pobreza, vinculado à CPMF. Foi isso que
passou a financiar o Bolsa-Escola, o Bolsa-Alimentação, o Vale-Gás e outros
programas menores.
Em que o Bolsa-Família é um programa diferente?
Até 2002, o Bolsa-Escola estava no Ministério da Educação, o Alimentação, no
Ministério da Saúde, e assim por diante. O governo Lula juntou todos os que
havia, mais aquele que criou, o Fome Zero, e tirou das áreas técnicas, passando
para os cuidados da Casa Civil e, depois, do Ministério de Desenvolvimento
Social. Já havia um projeto de juntar tudo. Você fornece um só cartão magnético,
o que é mais racional. Mas tirar das áreas técnicas e mudar o nome é ruim.
Quando você chama de Bolsa-Escola, está clara a obrigação das famílias de fazer
as crianças freqüentarem a escola. Quando chama de Bolsa-Família, essa ligação
desaparece.
Então essa é uma falha do governo Lula?
O governo Lula expandiu o auxílio, o que é correto. Mas o que nem o projeto
dele nem o do governo anterior têm é aquilo que havia no programa de incentivo à
educação patrocinado pelo governo Lyndon Johnson, nos EUA. O dinheiro vinha, mas
as escolas estavam envolvidas. Do diretor aos professores, todos davam atenção
especial ao aluno bolsista. No governo Cristovam Buarque, no DF, ele tentou
fazer isso. É preciso criar um mecanismo para envolver mais as escolas, os
postos de saúde. Mas isso não aconteceu.
Resolveria o problema da pobreza?
O objetivo é interromper o ciclo vicioso da pobreza, via educação e saúde,
nas gerações mais novas. Então temos que nos perguntar se esse formato de
programa vai atender melhor o Brasil. A tradição brasileira é que, na faixa dos
7 aos 14 anos, a maioria das crianças esteja na escola, com programa ou sem
programa. Eles repetem muito, saem da escola, voltam. Chegam aos 14 na 2ª série.
O programa de bolsas melhorou um pouco a freqüência, mas não muito. Onde
encontramos crianças e adolescentes fora da escola? Na pré-escola e depois dos
15 anos. Aí tem muita gente fora. Agora o governo está reforçando o investimento
na faixa de 15 a 18 anos. O México, por exemplo, paga um valor diferente para
cada fase da escola. Até a 3ª série é um valor, daí à 8ª é outro e, no ensino
médio, o valor compete com um salário no mercado de trabalho. Porque, assim, o
programa vai incentivando a progressão escolar.
Há perigo de clientelismo?
Com manipulação ou não, o ganho eleitoral com esse tipo de política é sempre
muito forte. Se você pegar a curva de distribuição do Bolsa-Família, verá que o
programa, entre março e outubro do ano da reeleição de Lula (2005) passou a
atender de 7 milhões a 11,2 milhões de pessoas. Não é só o PT que faz isso e
esse é um risco da democracia.
Quanto dessa distribuição de renda está sendo às custas dos setores médios da
sociedade em lugar dos mais ricos?
Há um estudo da Unicamp que analisa a distribuição de renda por profissão.
Quando você vê aquelas típicas da classe média, percebe que há um enxugamento
muito grande e isso altera a redistribuição, já que diminui a distância entre o
pobre e a classe média. Mas não quer dizer que o Bolsa-Família seja às custas da
classe média. O empobrecimento dos setores médios vem de baixos salários e
desemprego. Faltam crescimento econômico e políticas de emprego.
O que mais falta ao Brasil?
É preciso democratizar o crédito. Isso é política redistributiva, também. Não
temos política de moradia: há um déficit de 12 milhões de habitações. Agora, se
tirar essas bolsas, o que acontece? Volta tudo ao que era. Não há muito como
capacitar os adultos, mas há esperança para os jovens. Mais grave que a má
distribuição de renda é o problema da educação. Pessoalmente, já não sei mais
nem onde encontrar explicação. Só estamos melhores, hoje, em educação, do que a
Bolívia e talvez o Paraguai, na América do Sul. O que explica que um país com
nosso nível de desenvolvimento tenha chegado a esse ponto? Nada. Apenas 60% dos
meninos com idade de ensino médio vão à escola. Chile e Argentina estavam assim
em 1970. Hoje estão nos 90%. O México também está melhor que nós. Estamos
fazendo algo para esta geração que desejamos tirar da pobreza? Este programa não
é suficiente. Estamos ajudando a sustentar um quarto da população, o que não é
pouco. Mas como vai ser o futuro deste país?
Jornal Estado de S. Paulo
http://www.estadao.com.br/
*Publicado por Nezimar Borges
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