Só engajadas politicamente podemos comemorar
No Dia Internacional da Mulher, dedicamos atenção especial
a uma causa que nos motiva diariamente. Faz parte da minha militância
política desde a adolescência, no exílio, como
vereadora, no governo do estado como secretária e primeira
dama, como deputada na Assembléia, e agora, desde o Congresso
até as reuniões de bairro. Por isso, a comemoração
deste 8 de Março se mistura com mobilização política,
por que é assim que conquistamos cada um dos direitos para
a igualdade de gênero.
Foi assim com o direito de votar e ser votada, na década de
30 do século passado, e quando aprovamos a lei de minha autoria,
para criar o Conselho de Direitos das Mulheres, na Câmara de
Vereadores, há 20 anos, por exemplo. É assim nas conquistas
recentes: a Lei Maria da Penha, para coibir a violência doméstica
contra a mulher; a licença maternidade de 180 dias; o direito
de ter acompanhante de confiança durante o parto; a pensão
alimentícia durante a gestação.
Destaco, com carinho, duas conquistas.
Uma é a inclusão das creches no FUNDEB, para o que
foi fundamental o projeto da minha autoria que criava o Fundo Nacional
da Educação Infantil – FUNAEI. Mesmo sendo direito
da criança, traz resultados muito positivos para a igualdade
de gênero. Como faltam creches, reservei R$ 1 milhão
e 800 mil das minhas emendas para construir três em Macapá
(bairros Cidade Nova, Cuba de Asfalto e Novo Horizonte) e reformar
duas escolas em Santana (bairros Paraíso e Provedor).
Outra, é a cidadania das mulheres vítimas de escalpelamento,
até há pouco esquecidas pelo poder público e
alvo do preconceito. Apresentei um projeto de lei, já aprovado
na Câmara, que obriga instalar proteção no eixo
e noutras partes móveis do motor das embarcações.
E conquistamos mais. Agora, elas podem contar com as cirurgias reparadoras
pelo SUS e, em breve, com uma indenização que será
paga pela Defensoria Pública da União. É importante
reconhecer seu próprio esforço, que provocou os representantes
políticos.
Nós, mulheres, somos a maioria da população,
estamos em maior número nas universidades e já temos
mais anos de estudo que os homens. Mas enfrentamos a dupla –
ou tripla – jornada de trabalho; somos, tradicionalmente, as
cuidadoras da família, desde os filhos até os idosos;
e, mesmo estando num cargo igual ao dos homens, temos remuneração
cerca de 34% menor, mas que pode ser de até 70% menos para
as mulheres negras ou pardas. No Amapá, a cada 15 minutos,
uma mulher sofre algum tipo de violência.
A representação política das mulheres ainda
é numericamente inferior. Na Câmara Federal, só
o Amapá tem o mesmo número de deputadas e deputados;
mas no Congresso Nacional, nós, mulheres, não ocupamos
nem 10% das cadeiras. São poucas mulheres na Assembléia,
nas Câmaras de Vereadores, nas prefeituras e outros cargos de
mando, nos provocando a ampliar nossa participação e
democratizar a representação política. Mas não
podemos nos iludir e pensar que isso acontece com facilidade.
Nos últimos anos, o Amapá regrediu nos indicadores
de desenvolvimento humano, nas políticas de distribuição
de renda, no desenvolvimento sustentável, nos serviços
públicos em geral, com impacto pesado sobre as mulheres, dentre
as populações mais vulneráveis, junto com as
crianças e os idosos. Mas esta é uma situação
que podemos reverter.
Nossa capacidade de resistir, de articular, de construir, de sonhar
e de conquistar nos levará a superar as barreiras de uma organização
cultural, social e política que insiste em oprimir as mulheres
e negar-lhes a igualdade de gênero, como lhes nega, quando inseridas
no conjunto da sociedade, toda uma gama de direitos essenciais e democráticos.
Parabéns às mulheres brasileiras, especialmente às
mulheres do meu estado, o Amapá. Que esta homenagem se traduza
em convocação para a mobilização política
e social, com a qual crescemos coletivamente e nos tornamos vencedoras.
*Janete Capiberibe é deputada federal
eleita pelo PSB do Amapá. Militante política, foi exilada
durante a ditadura militar. De volta ao Brasil, foi vereadora, deputada
estadual por dois mandatos e secretária de estado durante o
governo do Desenvolvimento Sustentável do Amapá.
*Publicado por Nezimar Borges
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