Um governo ilegítimo
Foi esquisito ver a posse de Roseana Sarney. Ela estava nervosa e insegura,
com aquele esgar estranho na boca, que a caracteriza quando não está à vontade
com o seu papel. Ela sabe o que a maioria do povo maranhense pensa de sua posse,
no tapetão, palavra odiosa que pressupõe direitos tirados de alguém de maneira
ilegítima. Representando um papel, ela fez um discurso lido, como sempre, no
qual repete banalidades antigas.
Também era demais, para quem passou 8 anos no governo e deixou o estado no
último lugar do ranking de desenvolvimento social brasileiro ter condições de
prometer alguma coisa à sério. E depois assistir à Fundação Getúlio Vargas
divulgar que em meu governo o Maranhão foi o terceiro estado que mais se
desenvolveu no país. Só fazendo "cara de paisagem", mesmo.
Uma coisa, porém, já dá para perceber pela divulgação do secretariado. Ela
desistiu das loucuras da "reforma administrativa" que fez no seu desastrado
governo, quando acabou com a Secretaria de Agricultura, Indústria e Comércio,
Ciência e Tecnologia, etc, além de não criar uma Secretaria de Meio Ambiente,
entre outras irresponsabilidades.
Na verdade, soa como uma grande incoerência, pois ela usou todo um sistema de
mídia para dizer que aquilo era o mais importante e modernizador projeto de
administração pública do Brasil. E agora se apressa a nomear secretários para
essas pastas. Mudou de idéia caladinha, sem fazer comentários...
Seu governo paga pelos pecados de não ter sido eleito pelo povo. Não pode nem
dizer, como seu pai o fez há mais de quarenta anos: "recebo na praça pública o
direito de governar o Maranhão, direito que me foi dado pela vontade soberana do
povo". Ao contrário, o povo a reprovou no voto, mesmo com todo o seu império de
mídia, que tudo fez para elegê-la. Venceu nos tribunais, longe do povo, pelo
voto de 4 ministros, em uma decisão conseguida com custosa maioria, polêmica,
assumindo à revelia do que dispõe a Constituição do Estado, que manda fazer
novas eleições. Assoma-se mais uma vez, atualíssima, a matéria da revista
britânica The Economist, que classificou o todo poderoso senador José Sarney
como o "senhor semi-feudalista", pelos usos de expedientes para tomar o poder,
em típico ato patrimonialista oligárquico, como caracterizou Raimundo Faoro, em
seu clássico livro "Os Donos do Poder". O Brasil ali retratado ainda é o de
hoje, para alguns!
Sarney mais uma vez dá provas de que é um dos homens mais poderosos do
Brasil. Manda em presidentes e quando precisa lança um charme enorme para
aqueles que não gostam dele, usa de boa prosa e se mostra um amigável
solucionador de problemas. Poucos resistem. O charme vem em grande parte por ter
ocupado a Presidência da República, é imortal da Academia Brasileira de Letras,
e, principalmente, pelos favores que fez quando exerceu as presidências da
República e do Congresso Nacional. Pena que nunca usou esse poder tão grande
para beneficiar o estado trazendo, para cá projetos grandes o bastante e
estruturantes, para tirar o Maranhão da pobreza e do atraso. Usou todo esse
poder em benefício próprio e da sua família. Ao Maranhão, apenas a postura do
grande déspota, mantendo as condições para que continue a dominar o seu
território. Foi como procedeu, ao impedir que Lula visitasse o estado e
trouxesse benefícios, e ao impedir que a siderurgia viesse para cá.
Por falar em Lula, a governadora Roseana Sarney já fala em sua vinda ao
Maranhão. Isso seria sem dúvida alguma uma bofetada na cara dos maranhenses dada
pelo presidente. Deixaria muito claro que não tem o menor apreço pelo povo do
Maranhão que lhe deu tantos votos. A sua vinda, agora, significaria que só tem
apreço pela família Sarney e não pelos maranhenses.
Como o governo não foi eleito pelo povo, não há compromissos políticos; há
dívidas. Todos os que participaram da elaboração do processo de cassação estão
aquinhoados, sejam advogados ou a turma do "faz-tudo". Os irmãos Murad,
Ricardo e Jorge têm participação especial. Tomaram conta e se enfrentaram
dividindo o governo. Ricardo indicou metade do governo, ele mesmo para a
Secretaria da Saúde, e Jorge indica a pessoa que vai administrar o orçamento, o
dinheiro do governo, a Secretaria de Planejamento.
E já estão planejando a revanche contra seus adversários... Vamos denunciar
todos os atos de revanchismo e ódio que pretendem fazer.
Vamos ser "fiscais dos Sarney". E o pior é que, de acordo com as pretensões
que já divulgaram, o Maranhão cedo voltará aos indicadores sociais de 2002.
'Eita', oligarquia! O Maranhão precisa demonstrar que não aceitará mais tanta
irresponsabilidade.
O ex-governador José Reinaldo Tavares escreve para o Jornal Pequeno às
terças-feiras.
*Publicado por Nezimar Borges
|