Entrevista: João Alberto Capiberibe
JORNAL PÁGINA20-Rio Branco - Acre 07/05/2003
“Amapá e Acre são exemplos concretos e corajosos do modelo de sustentabilidade”
O senador João Capiberibe, do PSB do Amapá, confirmou ontem que virá com o presidente Lula para o encontro amazônico no Acre. Ele foi responsável, junto com a deputada federal Janete Capiberibe, sua esposa, pela execução do Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá (PDSA) em dois mandatos de governo naquele Estado, no período 1995/2002. Capiberibe projetou o nome do Amapá para o país e o mundo conciliando desenvolvimento social com preservação ambiental na Amazônia Oriental. Numa entrevista exclusiva ao Página 20, por telefone, o ex-governador amapaense disse o que espera do governo Lula.
– Vejo o Governo Lula como mudança política em nosso País. Creio que estamos vivendo uma nova etapa em nossa história social onde existem as condições para uma revisão crítica do antigo “modelo” de desenvolvimento da Amazônia. É fundamental conciliar o desenvolvimento econômico-social com a preservação ambiental e a justiça social. A população da Amazônia deve tomar seu destino nas próprias mãos.
Qual deve ser, então, o novo “modelo” de desenvolvimento para a Amazônia?
Está muito claro para os estudiosos da questão da Amazônia e especialmente para os amazônidas, que esse destino está cultural e economicamente ligado à preservação e exploração da riqueza ambiental na ótica do desenvolvimento sustentável. Precisamos dizer claramente: a floresta não pode ser simplesmente derrubada, mas também não deve restar intocável. Devemos apoiar políticas de valorização e exploração da biomassa florestal, sem destruí-la. Queremos dizer que é urgente tomarmos atitudes políticas decisivas para movimentar esse processo.
Quais seriam essas políticas?
A primeira atitude política é entender e somar na formulação dessa política de crescimento sustentável e gerador de renda a cultura popular. O conhecimento milenar do habitante da Amazônia não pode ser ignorado como tem sido até agora e relegado a simples “folclore”. Afinal, também somos uma sociedade complexa, como nossos 180 povos indígenas. Quem folcloriza a região, de certa forma e inconscientemente, também justifica a biopirataria, por exemplo.
Uma segunda atitude política é investir fortemente na pesquisa da biodiversidade amazônica para transformá-la em bens de consumo duráveis e não-duráveis, agregando valor e conquistando mercados. É o caso da indústria moveleira, dos fitofármacos, e do setor de alimentos, para ficar em apenas algumas áreas.
De modo geral, podemos dizer que o desenvolvimento econômico e social da Amazônia deverá ser orientado pelo ineditismo – é preciso olhar a realidade local com os olhos do caboclo, com os olhos do índio e com os olhos do pesquisador científico. Soluções “de fora” não vão nos levar a nada, a não ser perpetuar o que já se esgotou, ou seja, um modelo predatório e concentrador de renda com base na monocultura, na cultura do “gigantismo”, na transplantação de “ilhas” de industrialização artificial. Enfim, esse velho modelo resultou trágico para a Amazônia.
O Programa de Desenvolvimento Sustentável, o PDSA, que colocamos em prática durante meu governo no Amapá, e o projeto do governador Jorge Viana, aqui no Acre, são exemplos concretos, corajosos e claros desse novo modelo de desenvolvimento sustentável para a Amazônia. A experiência prova que é possível agir agora e construir um futuro digno. Nós merecemos.
*Publicado por Nezimar Borges
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