AMAPÁ, Fim do desenvolvimento sustentável
05/11/2002
Acabou
o Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá, com a derrota dos
partidos políticos que o colocaram em prática no Estado? Esta é a
pergunta que Mary Helena Alegretti faz, num artigo no jornal Folha do
Amapá. Waldez Góes, do PDT, suplantou tanto a governadora Dalva
Figueiredo, do PT, que ocupou o cargo quando o antigo titular, João
Alberto Capiberibe, se desincompatibilizou para concorrer a uma das
duas vagas ao Senado em disputa (conseguiu, mas com uma votação bem
inferior à prevista), como o próprio candidato de Capi, lançado pelo
PSB.
A ameaça já era visível quando Dalva, que
ocupou a vice-governadoria graças à aliança entre PT e PSB na eleição
passada, logo se distanciou do seu antecessor, sepultando a esperança
de que a coligação se mantivesse. Divididas, as duas forças foram
superadas. Alegretti, que participou ativamente na montagem do PDSA,
depois de haver atuado no Acre, lança uma dúvida: o programa foi
absorvido pela população amapaense, adquirindo força social, ou era
apenas uma idéia na cabeça do ex-governador, que agora chegará ao
Senado tendo que explicar como “um programa tão divulgado e tão
inovador não terá continuidade”.
“Do ponto de vista do futuro da Amazônia, era muito importante que o
PDSA tivesse sido vencedor. Mas não foi, observa a assessora do
Ministério de Meio Ambiente. Ela acha que ”a idéia do desenvolvimento
sustentável pode ter ficado desgastada de tanto ser usada em vão” pelos
que se diziam favoráveis, mas não a aplicavam. Mesmo que o PDSA não
tenha continuidade, com um governo que nunca manifestou simpatia pela
tese, Alegretti acredita que a idéia poderá renascer como Fênix, não
mais no Amapá, mas com a senadora Marina Silva, se ela for a nova
ministra do Meio Ambiente.
Se isso acontecer, o desenvolvimento
sustentável será a política oficial para a Amazônia, argumenta
Alegretti: “Como disse o presidente eleito Lula, seu governo será o
guardião da Amazônia e de sua biodiversidade, o que assegura que os
pilares da sustentabilidade não só se mantenham como se multipliquem”.
Para ela, as eleições na Amazônia “dão sinais de que o Acre continuará
na frente e consolidará os excelentes projetos que já executa, baseados
no conceito de florestania, agora com amplo respaldo federal. Talvez o
Amazonas ocupe o espaço inovador que antes era do Amapá e venha a se
constituir no segundo pilar de sustentabilidade da região. Além do
governador eleito, Eduardo Braga, ter reafirmado esse modelo na
campanha, é um Estado muito preservado e com uma alta capacidade
própria de investimentos financeiros. O Pará deverá equilibrar melhor o
modelo expansionista atual porque elegeu uma bancada, estadual e
federal, afirmativa de um modelo florestal”. Sobre os demais, ainda
seria cedo para falar.
Mary Alegretti sustenta que “se o
programa trouxe benefícios à sociedade, será esta a principal defensora
de seus princípios e cobrará, do próximo governo, os avanços que
conquistou”.
Além disso, se o PDSA contribuiu para que
a idéia de sustentabilidade se transformasse em uma força
político-partidária sólida, “a aliança do PSB com o governo Waldez
certamente vai assegurar que iniciativas do governo Capiberibe não
somente sejam mantidas – como foi divulgado durante a campanha – quanto
continuem identificadas com a marca do desenvolvimento sustentável”.
Alegretti aposta ainda no acompanhamento daqueles que se envolveram com
o plano, mas admite que, se tudo isso não acontecer, “o PDSA terá sido
um programa de um governo que, ao não conseguir fazer seu sucessor,
correrá o risco de desaparecer, como muitas outras iniciativas
promissoras desse País. E deixará evidente o que parece ter sido sua
fragilidade principal: a distância entre o que prometeu e o que
realizou. Terá sido um programa do Capi e não da sociedade”.
Ela entende que a idéia de
desenvolvimento sustentável passará por um delicado teste no Amapá nos
próximos quatro anos: “As condições objetivas que deram origem à
proposta continuam lá: o Amapá ainda é o Estado mais preservado do
País, porque atividades de base predatória não foram incentivadas. A
sociedade amapaense foi envolvida em um processo inovador e algumas
iniciativas projetaram o Estado internacionalmente”. Mas se isso não
ocorrer e
o PDSA tenha mesmo acabado como programa de governo, “isso não
significa que a idéia de desenvolvimento sustentável tenha morrido. A
força de uma idéia é medida pelo seu enraizamento social”.
Ela se pergunta se o desenvolvimento
sustentável será transformado em uma força social no Amapá e qual a
força política que vai conduzir essa proposta no futuro. “Embora ainda
seja cedo para definir quem são os herdeiros do desenvolvimento
sustentável, o que é certo é que não estarão sozinhos se considerarmos
a força do governo federal a partir do ano que vem. Mas é certo,
também, que o novo modelo para a região terá que trazer resultados
concretos, ter ampla base social, construir sólidas alianças políticas
e gerar benefícios para todos os setores da sociedade”, arremata a
militante ambientalista.
Publicação 5/11/2002
*Publicado por Nezimar Borges
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