Amapá Sustentável
Vássia vanessa da silveira
Em 1995, quando assumiu seu primeiro mandato, Capiberibe tinha pela
frente grandes desafios. O estado estava em dívida com fornecedores,
funcionários e até com a União. A saúde não funcionava. Faltava merenda
nas escolas e os índices da educação, apontados pelo Governo Federal,
não eram nada animadores. Com apenas R$ 22 milhões em caixa, o
governador resolver começar a arrumar a casa investindo no aumento da
arrecadação tributária e na descentralização dos recursos públicos. O
resultado do esforço não demorou a chegar. Dados da Secretaria de
Planejamento indicam que a receita do ICMS subiu de R$ 19,3 milhões, em
1994, para R$ 67,7 milhões no ano passado e o estado, segundo o
governador, está com as contas públicas equilibradas. "Hoje tenho em
caixa o equivalente a três ou quatro folhas de pagamento", garante
Capiberibe.

No Amapá a merenda escolar tem sabor regional
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Mas o que mais chama a atenção de entidades e governos internacionais
são os inúmeros programas que o governo tem desenvolvido em parceria
com as comunidades locais. De todas as experiências em curso - os
caixas Saúde e Escola, o programa de parteiras, a Escola Bosque - a dos
castanheiros é, sem dúvida, uma das mais fortes. Se antes eles
precisavam de 100 litros de castanha para trocar por uma lata de leite
em pó, hoje eles são "donos" de uma reserva de 850 hectares, fabricam
diversos produtos oriundos da castanha (sabonetes, farinha, biscoito) e
estão exportando, em parceria com uma empresa francesa, um óleo fino de
mesa que substitui o tradicional azeite de oliva.
A teimosia de Capiberibe em incentivar a produção local também
favoreceu os moveleiros. Em 1995, quando foi implantado o Programa de
Desenvolvimento Sustentável do Amapá (PDSA), faltavam carteiras nas
escolas e o governo descobriu que as movelarias locais não davam conta
de produzir o material para abastecer o mercado existente. "Queriam
mandar buscar as carteiras em São Paulo com a justificativa de que as
crianças iriam sentar no chão", lembra o governador. As crianças
realmente sentaram no chão por alguns meses mas o sacrifício não foi em
vão. Hoje, além das carteiras para as escolas estaduais, as movelarias
do Amapá estão exportando móveis para a França e cidades brasileiras do
Sul e Sudeste.

Escola Bosque do Bailique
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No Amapá, a sociedade civil participa de inúmeros projetos e é
responsável pelo gerenciamento de boa parte dos recursos públicos. Com
a descentralização, as escolas, por exemplo, ganharam autonomia para
resolver pequenos problemas na estrutura física dos prédios, comprar
material de consumo e garantir os produtos da merenda, que foi
regionalizada. O açaí, o camarão, a castanha e os outros itens do
cardápio são comprados em quitandas próximas às escolas e os reparos,
quando necessários, são feitos por profissionais do próprio bairro.
Quem cuida da contratação e do pagamento são os Caixas Escolares, uma
entidade sem fim lucrativo gerenciada por representantes das escolas,
pais, moradores da comunidade e professores. Atualmente, são 338 Caixas
Escolares gerando aproximadamente 1.900 empregos diretos.Essa mesma
receita foi estendida pelo governo às unidades hospitalares e está
dando certo.
Um outro ponto forte do programa é a valorização da cultura local. Com
o PDSA, as parteiras tradicionais, as comunidades negras e os índios
ganharam reconhecimento e apoio do governo para suas atividades e
manifestações culturais. Essa mesma preocupação fez o governo convidar
o sociólogo Mariano Klautau para desenhar o projeto da Escola Bosque,
uma das meninas dos olhos de Capiberibe. A escola alia à grade
curricular tradicional, disciplinas que respeitam o modo de vida da
população local. O primeiro módulo foi instalado no Bailique, um
arquipélago de ilhas, e oferece cursos de formação de professores
sócio-ambientais, engenharia de pesca e manejo.
Avaliação
Em junho, o governo do Amapá convidou cientistas, jornalistas e
políticos para participar de uma avaliação do PDSA. O governador do
Acre, Jorge Viana (PT), esteve no estado para falar sobre o desafio do
desenvolvimento sustentável na Amazônia. João Alberto Capiberibe e
Jorge Viana têm muitas coisas em comum. São de partidos de esquerda,
moram na Amazônia e dividem os louros de serem os únicos governadores
da região que têm programas de governo voltados para o desenvolvimento
sustentável.
Jorge Viana, assim como Capiberibe, assumiu um estado endividado mas
vem conseguindo equilibrar as contas públicas. Seu programa de governo
tem incentivado as populações tradicionais e a maior prova foi a
criação da Lei Chico Mendes, que determina um subsídio de R$ 0,40 por
cada quilo de borracha produzida pelos seringueiros organizados em
cooperativas. No Acre, o governo tem programas específicos para o
desenvolvimento das cadeias produtivas da castanha, borracha, do
murmurou e de fitoterápicos.
Durante o encontro no Amapá, os governadores assinaram acordo de
cooperação técnica e financeira para a produção, industrialização e
comercialização de produtos regionais com certificação de origem. "A
Amazônia é o nosso passaporte para o novo milênio. É com ela que o
Brasil pode se tornar uma grande potência", defende Jorge Viana.
Críticas
Além de mostrar a experiência do Amapá com o desenvolvimento sustentável, o seminário

Para Ruellan a burocracia é inimiga do desenvolvimento sustentável
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abriu espaço para as críticas de quem acompanha o PDSA desde 1995. É o
caso do cientista e professeur emérite Alain Ruellan, de Montpellier,
na França. Aos 70 anos de idade, Ruellan é um dos mais importantes
analistas do programa. Consultor internacional do governo do Amapá
desde o primeiro mandato de Capiberibe, ele fez diversas observações ao
PDSA.
Para o cientista, o governo ainda tem pela frente desafios como a falta
de dados sobre a região e suas populações, a concentração de pessoas na
zona urbana e a ausência de uma política mais eficiente para a
agricultura. Segundo Ruellan, é preciso transformar os assentamentos
agrícolas em agroflorestais e agro-extrativistas. "Isso é um debate
nacional", adianta ele. Outra crítica feita pelo cientista refere-se à
falta de proximidade da equipe de governo com a população. "A
burocracia é inimiga do desenvolvimento sustentável", avisa.
*Publicado por Nezimar Borges
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