PDSA: Crescendo sem ferir a floresta
No Amapá, um plano de desenvolvimento sustentável dá novos horizontes à economia local
Maria do Socorro Ferreira de Souza, 57 anos, adora luxo. O
substantivo incorporou-se a seu vocabulário há quatro anos, quando
trocou a vassoura e o avental pela quebra da castanha, em Laranjal do
Jari, no sudoeste do Amapá. A mudança garantiu-lhe uma renda mensal
média de R$ 120. Com o dinheiro, a ex-dona de casa proporciona às
filhas mais novas, Marta, de 14 anos, e Márcia, de 17, um prazer de que
foi privada a vida inteira: comprar vestidos. "Parte é para encher a
geladeira. O que sobra dou para as meninas luxarem", conta, orgulhosa.
Seu conceito de luxo não está nos dicionários da cidade grande, mas,
para quem criou sete filhos com a comida que o marido, Domingos, tirava
da roça, o salário minguado é uma renda considerável. A melhoria de
vida não é privilégio dos Souza, pois beneficia os castanheiros do
município, que viram o preço do produto que extraem da selva
multiplicar-se na mesma proporção em que lhe agregam valor. Chega aos
pontos mais distantes do estado, à medida que a população reaprende a
lidar com as riquezas da Amazônia. Ao valorizar produtos e competências
locais, o governo do Amapá reinventa um estado que se acreditava fadado
ao fracasso depois do esgotamento das minas de manganês no início da
década.
Com 99% de sua cobertura vegetal preservada, insistir na
exploração madeireira e mineral seria o caminho óbvio. O estado, que
deixou de ser território pela Constituição de 1988, tornou-se conhecido
por abrigar a Icomi, mineradora que explorou as reservas de manganês do
município de Serra do Navio, e pelos campos de plantio do eucalipto que
vira papel nas indústrias do projeto Jari. Mas as imagens de crateras
gigantescas que rasgaram as montanhas de Serra do Navio, no centro do
estado, ainda assombram a população. Desde o fim dos anos 40 até o
começo dos anos 90, o manganês era a riqueza do lugar. Serra do Navio,
a 198 quilômetros da capital Macapá, surgiu do nada, planejada para ser
uma das mais modernas do mundo. Com o fim do minério, seguiram-se
devastação e abandono. Ao assumir o governo, em 1995, João Alberto
Capiberibe (PSB) apostou na inversão do modelo com o Programa de
Desenvolvimento Sustentável do Estado do Amapá (PDSA). "Serra do Navio
é a prova de que a relação com o meio ambiente tinha de mudar",
justifica. O governador garante que o PDSA não significa o abandono do
potencial mineral e madeireiro da região nem está centrado na economia.
Promete o aproveitamento ordenado dos recursos naturais e humanos do
Amapá para a melhoria da qualidade de vida da população. A valorização
da castanha é um dos bons exemplos.
Há quatro anos, 100 quilos da amêndoa eram vendidos às
empresas do Pará por R$ 10. O catador ficava com metade do dinheiro, o
atravessador com a outra. Um investimento mínimo do governo do estado
foi o suficiente para a situação começar a mudar. Em 1995, com R$ 45
mil obtidos no Banco do Estado do Amapá (Banap), os castanheiros da
Cooperativa Mista Extrativa Vegetal dos Agricultores de Laranjal do
Jari (Comaja) compraram uma fábrica de beneficiamento de castanha
desativada e formaram capital de giro. Antes exportada na casca, a
amêndoa hoje é vendida em embalagem a vácuo. O processo gera 280
empregos diretos e indiretos. O Banap quebrou, mas a Comaja pagou o que
lhe devia. Hoje, a cooperativa tem fax, computador e crédito de R$ 60
mil com o estado, que compra castanha para a merenda escolar. Na
entressafra, a caixa de 20 quilos chega a R$ 100. Os catadores recebem
até R$ 35 por 100 quilos do produto in natura. Neste ano, pretendem
produzir em escala industrial o azeite, sendo testado em Paris.
Além de consumidores, os franceses tornam-se parceiros na
execução do programa com a redescoberta da fronteira com o estado
brasileiro. A proximidade de Macapá com Caiena, a capital do
departamento francês, é maior do que com qualquer outra grande cidade
brasileira. Apenas 776 quilômetros separam-nas. A distância entre
Macapá e Belém é praticamente a mesma, mas entre elas está o
intransponível Rio Amazonas. Um vôo diário, de 1h20, liga Macapá a
Caiena. A passagem mais barata custa US$ 195. O trecho
Caiena-Paris-Caiena sai por US$ 534. Do Rio ou de São Paulo para Paris,
a tarifa mais em conta sai por US$ 987. O juiz Ernesto Collares e sua
mulher, Marly, que moram em Macapá, escolheram a primeira rota. Não se
arrependeram. "Caiena é nossa porta de entrada para a Europa",
garantem. Para o Amapá, é o passe para a União Européia. A recíproca é
verdadeira. O estado promete ser a porta do mercado brasileiro para a
Provence-Régine, por exemplo. A empresa do setor alimentício
desenvolveu patês de hortelã, chicória e manjericão nativos do Amapá,
que já são vendidos nas delicatessens de Paris. Desde 1995, o
governador recebeu 22 missões européias, das quais dez francesas. "O
governo francês aprova a aproximação. O Amapá pode garantir a
independência econômica da Guiana, muito dependente das verbas que vêm
de Paris", diz o empresário Jean François Le Cornec, cônsul honorário
da França em Macapá.
A partir de março, os alunos da rede estadual passam a estudar
francês em vez de inglês. Em quatro anos, a emissão de vistos de
negócios e turismo para amapaenses que querem ir à Guiana ou a Paris
triplicou, chegando a 142 em 1998. O investimento da indústria francesa
de alimentos anima o governador. "A biodiversidade é uma de nossas
grandes riquezas", afirma. Para provar sua tese, cita os trabalhos do
Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá
(Iepa) na área de fármacos e cosméticos. Os primeiros resultados desse
trabalho estão à venda na farmácia do Iepa: sabonetes, pomadas
cicatrizantes, hidratantes, velas repelentes e remédios para males que
vão da dor de cabeça ao diabetes. A mudança no perfil do estado é
gradativa.
O processo de implantação do novo modelo correu o risco de ser
interrompido nas eleições de outubro. Com o apoio das esquerdas,
Capiberibe chegou ao segundo turno depois da ameaça de impugnação de
sua candidatura. Enfrentou os três senadores do estado, entre eles o
ex-presidente José Sarney (PMDB), reeleito com 59% dos votos válidos.
Venceu. Para tirá-lo do Palácio do Setentrião, os adversários alegavam
que o governo estadual transferira verbas para associações comunitárias
e de funcionários "incumbidas da compra de votos". Nada ficou provado e
o TSE manteve-o na disputa. Entre as entidades comunitárias do Amapá
estão as caixas escolares, instituições de direito privado geridas por
oito conselheiros não remunerados, às quais se confiou a administração
das escolas estaduais, incluindo-se as verbas. "O modelo nos entusiasma
por permitir amadurecer um projeto educativo próprio", elogia Marcelo
Mazzoli, do Unicef no Pará.
A merenda escolar foi enriquecida com castanha e sucos das
frutas nativas. As carteiras são feitas pelos moveleiros do Amapá. Até
1994 o suco era engarrafado, e o mobiliário importado. A mudança de
fornecedor tirou muitos empresários da informalidade, aumentando sua
renda e a arrecadação da Fazenda estadual. Somente com a compra da
merenda escolar ficaram R$ 2,9 milhões na economia do estado em 1998.
No ano passado, 97% das 161.400 crianças com idade entre 7 e 14 anos
estavam nas salas de aula, segundo o secretário de Educação, Clécio
Luís Vieira. "Os 3% fora da escola devem-se à forte migração no
estado", explica. Os números do IBGE dão-lhe crédito. Enquanto a taxa
de crescimento da população brasileira foi de 1,38% ao ano entre 1991 e
1996, no Amapá chegou a 5,67%, a mais alta do país. O programa
bolsa-escola, que garante um salário mínimo por mês às famílias que
mantiverem suas crianças na sala de aula, beneficia 6 mil pessoas. O de
bolsa-trabalho coloca 1.200 estudantes de cursos profissionalizantes no
mercado de trabalho e em sua área de atuação, com salários de R$ 100
mensais. Na saúde, incentivou-se a ação das parteiras, treinando-as e
dando-lhes equipamentos. Resultado: apenas 11% do total de partos são
cesarianas, o menor índice do país. Tudo como recomenda a Organização
Mundial de Saúde. "É menor do que o dos EUA, de 15%", afirma Carolina
Siu, oficial de projetos do Unicef em Brasília.
A oposição contesta. "Aqui não há programa de governo. O PDSA
é pano de fundo para ações desenvolvidas em todo o mundo", critica o
deputado Jurandir Juarez (PMDB). "Vender patê de chicória e açaí? Isso
é tão nosso que jamais será exportado", duvida. Os adversários cobram o
asfaltamento da BR-156, que corta o estado de sul a norte até a
fronteira com a Guiana. A obra constava do programa Brasil em Ação,
mas, com os cortes no Orçamento federal, foi adiada. Capiberibe também
quer a estrada asfaltada. Mas, enquanto as verbas não chegam, quer
encravar na Serra do Navio, que pretende transformar num pólo turístico
e de biotecnologia, o museu do desenvolvimento insustentável - ali
estão as crateras das velhas minas de manganês.
Ronald Freitas, em Macapá
Destruição a céu aberto
Depois de 45 anos de exploração ininterrupta de manganês, a
Icomi iniciou um lento programa de recuperação da cobertura vegetal da
Serra do Navio. A área será devolvida ao estado. A exploração do
minério levou à criação do território, cuja área pertencia ao Pará.
Oestado surgiu em 1988.
Fruto turbinado
A cadeia produtiva do açaí movimenta R$ 20 milhões por ano,
segundo os estudos do Instituto de Pesquisa do Estado (Iepa). O valor é
igual ao total das importações feitas pelos comerciantes da Zona de
Livre Comércio, criada pelo senador José Sarney em 1991 para
desenvolver a região.
Castanha-do-Amapá
As duas cooperativas de castanheiros de Laranjal do Jari,
Comaja e Comaru, não concorrem entre si. A Comaru transforma sua
castanha em biscoito e farinha, utilizada em sopas. A Comaja vende a
amêndoa sem pele. Os amapaenses querem o fim da denominação
castanha-do-pará.
Remédio do crescimento
A farmácia do estado, que faturou R$ 7.800 em 1996, obteve
receita de R$ 62.300 no ano passado com a venda de remédios e
cosméticos preparados com a flora nativa. O dinheiro é reinvestido no
desenvolvimento de novos produtos. Os clientes são atendidos por
farmacêuticos. No local está sendo estruturado o museu do
desenvolvimento sustentado.
*Publicado por Nezimar Borges
|