Desenvolvimento Sustentável na prática
Mais do que um conceito ecológico, o
PDSA é uma proposta política e uma estratégia econômica,
que se nega a aceitar a exclusão social.
O mundo da globalização é o cenário dos
megaempresários, dos grandes fluxos financeiros, dos blocos e alianças
comerciais. Tudo é pensado no macro, no imediato, e a esfera econômica
ocupa o lugar de protagonista. Diante deste cenário de final de século,
qual o espaço que pode ser ocupado por um pequeno estado da região
amazônica - o Amapá? Para nós, partidários e
defensores da idéia de desenvolvimento aliado à sustentabilidade,
é fundamental provar que, mesmo neste mundo globalizado, é
possível se alcançar o desenvolvimento econômico que
também garanta a equidade social, a preservação ambiental,
a descentralização política, a participação
popular e o respeito às diferenças étnicas e culturais.
Foi preocupada com toda essa complexa problemática que a sociedade
amapaense elaborou e vem implementando o Programa de Desenvolvimento Sustentável
do Estado do Amapá. Mais do que um conceito ecológico, o PDSA
é uma proposta política e uma estratégia econômica,
que se nega a aceitar a exclusão social. Pelo contrário, ele
se impõe a tarefa de criar canais efetivos de participação,
incentivando a organização das comunidades locais, para aproximar
a sociedade do Estado, tornando-os parceiros na administração
do espaço público. Após dois anos e meio de administração,
o PDSA ganha visibilidade e muitos de seus projetos já são
realidade concreta. O Amapá foi o primeiro estado do país
a demarcar todas as suas Terras Indígenas - hoje elas representam 8,6% da área total de
nosso estado e abrigam cerca de 5 mil índios de quatro etnias. O
caso dos Waiãpi, por exemplo, guarda grande significado. Diante da
devastação social e ambiental que atingia suas aldeias, foram
os próprios índios quem expulsaram os invasores de suas terras,
num processo de auto-demarcação que foi homologado em maio
de 1996. A auto-organização das comunidades tem garantido
também o atendimento às demandas e a autonomia cultural das
diversas etnias. Graças ao processo de descentralização
e às parcerias firmadas com as associações indígenas,
os investimentos nos setores produtivos - agricultura, pecuária e
artesanato - bem como na infra-estrutura das aldeias - moradia, saneamento,
saúde e educação - atingiram mais de R$ 2,3 milhões,
entre 1995/96. O projeto de educação bilingüe, por exemplo,
preocupa-se em ensinar o português sem deixar de lado a língua
nativa. Os professores são formados para lidar com essa dinâmica,
através da coordenação do Núcleo de Educação
Indígena do Amapá (NEI).
Pesca e castanha

Os castanheiros - tradicional grupo extrativista de nosso estado - também
vêm recebendo incentivo técnico e financeiro para que desenvolvam
suas atividades. Através de cooperativas, eles foram beneficiados
por linhas de crédito para a produção e compra de máquinas,
permitindo o aproveitamento sustentável tanto do óleo de castanha
como de diversos outros subprodutos. O processamento local da castanha elimina
os intermediários, revertendo um processo que gerava renda para outras
pessoas, que não os próprios produtores. O governo e as cooperativas
também viabilizaram o consumo da produção, incentivando
as escolas a incluirem a massa da castanha em sua merenda. Na Assembléia
Legislativa, está em tramitação um projeto de autoria
do Executivo que cria uma reserva de 850 mil ha, a Reserva de Desenvolvimento
Sustentável do Rio Iratapuru, no município de Laranjal do
Sul. Essa iniciativa visa garantir o aumento da produção e
a diversificação dos produtos florestais, assegurando a permanência
das populações tradicionais na região e melhorando
sua qualidade de vida, além de romper com um passado de explorações,
representado pelos atravessadores. O governo tem também apoiado a
atividade dos pescadores artesanais. Através do financiamento do
Banco do Estado do Amapá (Banap), as cooperativas já puderam
adquirir mais de 80 barcos, construídos pelas próprias comunidades
e a baixo custo. Incentivando o desenvolvimento de tecnologias sustentáveis
aplicadas à pesca, o estado estimula uma atividade econômica
que não é agressiva ao meio ambiente, nem predatória.
É importante que se ressalte que todas as ações
que estamos viabilizando seguem um planejamento estratégico, que
pensa no global, construído na troca de experiências com universidades,
pesquisadores, ONGs, organismos internacionais e técnicos. No campo
legal e da regulamentação, todas as políticas públicas
obedecem a uma matriz ambiental, representada pelo zoneamento econômico-ecológico
que realizamos. Ele é um instrumento fundamental de preservação
do ecossistema da região, colocando limites e restrições
ao aproveitamento do meio ambiente, pois estabelece áreas, formas
e diretrizes para o aproveitamento sustentável do estado. Finalmente,
é preciso destacar o fato de que o PDSA é um processo em permanente
construção. Nestes dois anos e meio de administração,
nos deparamos com resistências e oposições. Afinal,
esse tipo de modelo de desenvolvimento bate de frente com interesses arraigados
dos grandes grupos econômicos e dos políticos mais conservadores.
Mas o PDSA implica nisso mesmo: uma mudança profunda na cultura política
da população, bem como em seus valores e práticas.
Isso se constrói no longo prazo, através da vontade política
do governo e da consciência coletiva e disposição da
sociedade em implementá-la.
João Alberto Capiberibe
governador do Amapá por duas vezes:1995 a 2002
*Publicado por Nezimar Borges
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