Entrevista de Charles Chelala
Jornal pagina 20 do Acre-06/06/2003
Charles Chelala
“O Acre não pode descuidar em ter
a sociedade como aliada”
Cimoni Oliveira
O economista, especialista em desenvolvimento da Amazônia, Charles Chelala, 36, ex-secretário de planejamento no Amapá, durante a gestão do governador João Alberto Capiberibe, foi convidado pelo governo do Acre para ser um dos palestrantes do seminário Indicadores para o Desenvolvimento Sustentável e a Florestania.
Durante o encontro, Chelala demonstrou aos participantes a experiência de oito anos acumulada no Amapá com o programa de desenvolvimento sustentável, destacando a forma como o projeto melhorou a qualidade de vida dos amapaenses.
Nesta entrevista, o economista Charles Chelala elogia os avanços alcançados no Acre, mas chama a atenção do governo para a conquista do apoio da sociedade.
De que forma o Amapá pode contribuir com o Acre na construção dos indicadores sustentáveis?
No Amapá, nós tivemos quase oito anos de governo de desenvolvimento sustentável e conseguimos apresentar avanços nos mais diversos aspectos e indicadores que mensuram a qualidade de vida social. O que nós podemos contribuir é mostrar ao Acre nossos avanços e erros. Nós avaliamos, por exemplo, que cometemos alguns equívocos de conquista da sociedade.
Você pode explicar isso melhor?
Refiro-me ao ponto de vista da sociedade apoiar nosso projeto, entender o que foi o Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá (PDSA) e vir a apóia-lo. Tivemos uma derrota no que seria construir a sustentabilidade política do programa. Tanto que, ao sairmos do governo, muitos pontos do programa estão sendo desativados e isso é bastante desastroso. O recado que a gente passa para o Acre é que tem que ter muito cuidado em ganhar a sociedade, demonstrar a ela, a todo o momento, os avanços e não descuidar de trazê-la cada vez mais para ser seu aliado e co-participe da construção desse programa. Esse é um dos pontos. Além de outras várias experiências que desenvolvemos lá, como a construção dos próprios indicadores do desenvolvimento sustentável.
E quais experiências de lá que se pode aplicar aqui, já que a filosofia é basicamente a mesma?
São experiências co-irmãs. São dois projetos de governo voltados para a relação harmônica do homem com o meio ambiente e para a valorização da cultura e da sua população. Entretanto, tem pequenas peculiaridades entre um e outro. Aqui no Acre sinto que o conceito de florestania que está sendo construído tem um peso maior dentro da estrutura no programa de governo daqui. No Amapá, esse conceito era mais voltado para as questões urbanas. Existem pequenas diferenças, mas o Acre pode aproveitar muitas experiências do Amapá, adaptando ao conceito de florestania.
Como você avalia as experiências que estão sendo desenvolvidas no Estado? Elas estão avançando?
O Acre tem uma história que é muito mais antiga do que se pode imaginar. Durante o processo de migração nordestina para cá, no primeiro período áureo da borracha, tem uma história de sobrevivência e convivência, onde o povo tinha que tirar seu sustento da floresta. Formou-se então um movimento. Nos anos 70, teve os embates, depois teve a morte de Chico Mendes, e a conquista do poder há cerca de quatro anos por esse mesmo movimento. O Acre tem avançado ponto a ponto, não somente nesses quatro anos de governo, mas sim desde cem anos atrás. Então hoje você nota a contribuição que o Acre dá em se propor, de maneira muito ousada, em criar um novo conceito, que é o que se chama florestania. Isso já demonstra um importante avanço. Agora avaliando os outros setores, percebe-se que o Acre é um Estado onde a qualidade de vida da população tem melhorado.
A partir do encontro, o que ficou definido para a construção dos indicadores de sustentabilidade?
Formaram-se dois grandes grupos. Existem indicadores que são medidos por uma série de entidades como IBGE, o MEC, entre outros. Esses indicadores são pesquisados e levantados diariamente por essas instituições. A tarefa de um grupo é garimpar nesses indicadores aqueles que servem para medir o desenvolvimento sustentável do Acre, como de qualquer outra sociedade. O segundo, muito mais trabalhoso e custoso e que exige maior empenho das pessoas, é o de formular e elaborar novos indicadores que não existem hoje e nem estão disponíveis, mas que precisam ser criados para avaliar a evolução de uma sociedade sustentável, a partir de fatores econômicos, sociais e culturais.
Acre e Amapá deveriam estreitar ainda mais essa parceria? Você acredita que a integração favorece os dois eEstados?
Acho que sim. Nós deveríamos fazer isso muito mais, e estimular essa integração, porque o Acre e o Amapá conseguiram implantar uma experiência de desenvolvimento sustentável. Nós que participamos do governo do atual senador João Alberto Capiberibe estamos à disposição do governo Jorge Viana para contribuir. Além disso, nós temos uma tarefa árdua que é implantar o plano de desenvolvimento para a Amazônia, lançado aqui em Rio Branco pelo presidente Lula. E para isso precisamos mobilizar as pessoas importantes no Amazonas, em Roraima, no Tocantins, no Maranhão, no Pará, onde predominam visões não tão definidas sobre o programa. Então, temos essa tarefa de integrar. Nós, Amapá e Acre, que temos uma consciência mais firmada com o desenvolvimento sustentável temos que conquistar esses novos aliados para tocar o programa de desenvolvimento sustentável como um todo.
*Publicado por Nezimar Borges
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