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Entrevista: João Capiberibe

2000

Entrevista: Vassia vanessa da silveira

Desde 1995, o governador João Alberto Capiberibe, 52,


"A sociedade quer mudar, quer respirar direitos e experimentar qualidade de vida"

enfrenta a fúria das elites que resistem à proposta de seu governo, o Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá (PDSA). Recentemente, chegou a ser ameaçado com um processo de impeachment orquestrado por deputados estaduais insatisfeitos com o apoio do governo à CPI do narcotráfico. Nessa entrevista, dada por Capiberibe no final de junho, o governador faz uma análise do PDSA e diz que o maior desafio do programa é fazer com que a população entenda que o desenvolvimento sustentável é o melhor modelo para o Amapá e toda a Amazônia.

O PDSA é muito conhecido em alguns países e pouco discutido na Amazônia. Parece haver maior preocupação, por parte de seu governo, de levar a experiência para fora do País. O que explica essa escolha?

O desenvolvimento sustentável é conceito novo que tem maior peso nos países desenvolvidos, onde as populações sentem mais intensamente a necessidade de estabelecer limites à exploração dos recursos naturais e às ações predadoras que alteram o meio ambiente. É importante contar com o apoio internacional porque lá existem estudos, pesquisas, fatos comprovando que o mundo está ameaçado pelo modelo de desenvolvimento que não estabelece esses limites. As idéias de Chico Mendes, por exemplo, encontraram eco primeiro nos Estados Unidos e na Europa, onde foi premiado e, após sua morte, considerado o Ghandi da Amazônia. E, claro, por conta dessa consciência e das pressões das ongs internacionais acabamos obtendo também algum apoio financeiro para nossos projetos amazônicos sustentáveis. Ou apoios técnicos e cientícos sem os quais não conseguiríamos avançar.

O Amapá e o Acre estão trabalhando o desenvolvimento sustentável tendo por base a exploração dos recursos naturais da região, agregando valor aos produtos e ao mesmo tempo preservando a natureza e respeitando a cultura local. Que esforços estão sendo feitos para que essa política seja adotada por outros estados da Amazônia?

A Conferência da Amazônia promovida em Belém, no começo de julho (6,7 e 8), será um marco dessa integração amazônica por reunir pela primeira vez governadores, representantes de partidos políticos, organizações indígenas, movimento de mulheres, negros, ongs, sindicatos e cooperativas, universidades e instituições científicas da região. Desse encontro deve sair a Carta da Amazônia, com posi-cionamento das populações amazônicas sobre nosso próprio destino político, sócio-econômico e ambiental. A Conferência resulta de encontros, conversas, propostas que vêm acontecendo há algum tempo entre lideranças preocupadas com uma Amazônia Sustentável, e que ganha corpo com as políticas assumidas no Amapá e no Acre. Eu não tenho a menor dúvida de que estamos iniciando um movimento amazônico amplo, que repercutirá no País e no Mundo.

Um dos desafios do desenvolvimento sustentável é organizar cadeias produtivas que possibilitem a inserção, em escala industrial, dos produtos regionais. Como o Amapá está lidando com isso?

Nós tratamos desta questão desde o momento em que assumimos o Governo do Estado em 1995, no primeiro mandato. Em cinco anos, construímos exemplos bem sucedidos provando que estamos no caminho certo. Um desses exemplos são os castanheiros do Laranjal do Jarí, no sul do Estado, que evoluíram da condição de servos atrelados aos exportadores de castanha em casca do Pará, para produtores e exportadores. Hoje, saem do Laranjal do Jarí, pelo menos 13 produtos derivados da castanha, inclusive o azeite de mesa (um similar do azeite de oliva) que já é encontrado nos supermercados da Europa. Para resumir o alcance dessa mudança, os próprios castanheiros costumam citar este dado: antes do programa, eles trocavam 100 litros de castanha por uma lata de leite em pó das pequenas (400g). Hoje, com a mesma quantidade eles compram vinte latas de leite. Sem contar que está nascendo uma cidade industrial de produtos da floresta nas margens do rio Iratapuru, região onde criei por decreto, a I Reserva de Desenvolvimento Sustentável com 850 mil hectares, preservando os castanhais para esse tipo de produção. Além disso, temos mais de 70 produtos com base florestal trabalhados pelo IEPA (Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá), que poderão passar para escala industrial através da iniciativa privada, gerando emprego e renda. Decididamente, estamos introduzindo uma nova matriz econômica no estado com resultados promissores quase imediatos.

Atualmente, qual o maior desafio do PDSA?

Fazer a população entender que o desenvolvimento sustentável é o melhor modelo de desenvolvimento para o Amapá e toda a Amazônia, porque leva em conta nossas especificidades, nossa cultura, nossas tradições, e porque é um programa global que carrega em seu bojo o compromisso democrático com a cidadania, o respeito às leis ambientais, a preocupação com a qualidade de vida de todos os segmentos sociais, sem exceção. Ou seja, nós estamos no momento de promover o salto político de nosso programa, para que a revolução que estamos promovendo se complete com a participação popular em todos os níveis da administração pública e na sociedade de um modo geral. Nós precisamos entender e praticar os novos conceitos de sustentabilidade que não se aplicam apenas às questões ambientais, mas também às questões econômicas, sociais e políticas. Queremos, até o final do meu segundo mandato, garantir que a sociedade tome as rédeas do programa garantindo sua continuidade.

O professor Alain Ruellan, que é um consultor internacional do PDSA, apontou dificuldades dos secretários saírem de seus gabinetes para estar mais próximos da comunidade. Ele disse que isso, de certa forma, compromete o PDSA...

Sem dúvida que compromete. E esta é uma dificuldade que temos de superar com nossa equipe de governo. Mas acredito que isso acontece também no Acre. Leva um certo tempo até que uma máquina administrativa se adapte por completo a um programa com novos conceitos e novos paradigmas. Mas estamos avançando com relativa velocidade e podemos assegurar que a equipe do PDSA não se adaptaria mais aos velhos procedimentos administrativos. Nós fazemos encontros freqüentes, com toda a equipe e discutimos abertamente esses problemas. Também tenho feito mudanças, preocupado com a adequação da equipe ao programa. Estou consciente de que isso é um processo delicado, que não se resolve com portarias e decretos, mas com conhecimento, treinamento, formação. Nós trabalhamos com o Centro de Formação de Recursos Humanos, o CEFORH, que mantém treinamentos, seminários e debates constantes. Na realidade, estamos fazendo uma revolução administrativa, modificando procedimentos, ampliando o compromisso com o público, exigindo a qualidade dos serviços, e isso requer paciência e tolerância.

As últimas eleições confirmaram a confiança que a população tem no programa. Apesar disso, não houve renovação na Assembléia Legislativa e o senhor tem sentido isso na pele com a questão do narcotráfico e a tentativa dos deputados de impedir seu mandato. Como o senhor encara essa situação?

Olha, a falta de renovação na Assembléia fica por conta do fato da população não ter entendido, na época, que o desenvolvimento sustentável e as mudanças que o programa imprime dependem muito da qualidade de nossa representação política. Mas acredito que nas próximas eleições teremos resultados diferentes. Quanto ao narcotráfico e à tentativa dos deputados de impedir meu mandato, temos aí mais uma semelhança com o Acre. Na verdade, eu e o Jorge Viana estamos enfrentando as elites que se apropriavam dos recursos públicos prejudicando os serviços e infelicitando o povo. O que acontece é que essas elites não contavam que fôssemos tão longe com as mudanças e agora, acuadas, estão apelando para todo tipo de jogo sujo para nos impedir de avançar com uma nova e decente sociedade. Então, a reação não me surpreende. Acho que é conseqüência natural do nosso sucesso. Não há como avançar com o PDSA e passar por essas elites corruptas e atrasadas se não pelo confronto. Um confronto, observe bem, que não é entre elas (as elites) e eu, mas entre elas e a sociedade que quer mudar, quer respirar direitos e experimentar qualidade de vida. É um confronto, enfim, que vai decidir o destino das atuais e futuras gerações de nossa região.

O governador Jorge Viana já veio ao Amapá três ou quatro vezes. Mas o senhor, em cinco anos de PDSA ainda não visitou o Acre. Quando isso vai acontecer?

Quando o Jorge Viana me convidar. As vezes que o Jorge Viana veio aqui, o que sempre nos ajudou muito, foi porque eu o convidei. Talvez até este momento, ele não precisou tanto de mim no Acre quanto eu tenho precisado dele no Amapá. Além disso, fica mais fácil para ele, que está nas cabeceiras do rio Amazonas vir me visitar na foz.. Ele pode descer até de "bubuia". Na verdade, estou ansioso para ver de perto a experiência do Acre. E não se preocupe: nós somos parceiros nessa luta dentro da Amazônia e vamos nos visitar muitas vezes.

*Publicado por Nezimar Borges

 

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