Lições do Acre
Elson Martins
Nos anos em que atuou no Amapá como secretária de Planejamento
e do Meio Ambiente, a antropóloga Mary Allegretti, uma cientista
social que conhece como poucos os anseios e as lutas dos povos da Amazônia
(escreveu suas teses de mestrado e doutorado sobre o movimento dos seringueiros
acreanos e foi amiga pessoal de Chico Mendes) –escreveu alguns
artigos fundamentais para quem começava a pensar o desenvolvimento
sustentável do Amapá.
Num deles, produzido em maio de 1996, ela fala das lições
que deviam ser aprendidas com o Acre:
Uma grande lição do Acre foi a construção
de alianças políticas diversas pautadas pela diversidade.
O Acre atraiu muita gente com o movimento de Chico Mendes. E enquanto
ele viveu, havia espaço para todos. Ele não dispensava
a ajuda de ninguém e pedia exatamente aquilo que percebia que
a pessoa podia dar. Por isso o assassinato dele caiu fundo na alma de
pessoas que tinham visitado Xapuri, vindas de muitos lugares diferentes
e tinham encontrado, ali, a receptividade simples de quem não
deixa a fama e o reconhecimento subirem à cabeça.
Quando Chico Mendes foi assassinado, em dezembro de 1988, Mary Allegretti,
- então sua grande amiga e protetora, responsável até
pela projeção internacional do líder seringueiro
e ambientalista –fez uma viagem maluca ( desde o Japão)
para estar em Xapuri ainda no velório. Vestida de preto (luto)
e amparando a viúva Ilzamar, ela criou a Fundação
Chico Mendes e saiu em busca de fundos internacionais para manter a
entidade. Aconteceu em seguida, a disputa entre grupos estrangeiros
e brasileiros para a compra dos direitos para produção
de um filme sobre o líder assassinado. E Mary, que esteve no
meio do fogaréu, falou desse momento de luto e vaidades:
Depois do assassinato do Chico, o movimento dos seringueiros entrou
em fase crítica: disputas internas por poder, guerra de facções,
estrelismos, dificuldades de concretizar as expectativas criadas, falta
de clareza política. Muitos se afastaram do Acre porque ficou
faltando a terna liderança do Chico para resolver falsos conflitos
Por conta desse clima belicoso que se instalou entre ambientalistas,
lideranças comunitárias, intelectuais, igreja e grupos
de esquerda, Mary viajou para os Estados Unidos e passou a trabalhar
no BIRD (Banco Mundial), onde Capiberibe a encontrou em 1995 convidando-a
para vir ajudar na formulação do PDSA (Programa de Desenvolvimento
Sustentável do Amapá).
Ninguém, em sã consciência, pode negar a contribuição
que a antropóloga ofereceu ao Amapá para qualificar a
administração publica atrelada a um projeto moderno de
desenvolvimento. Mas também no Amapá, - não porque
alguém da dimensão do Chico tenha sido assassinado –
a crise se instalou em 2002 desmontando o projeto e outras coisas boas
que começavam a acontecer no Estado.
O governador do Acre, Jorge Viana (PT), durante uma conversa informal
me disse que aprendeu boas lições do Amapá dos
tempos do PDSA, mas teve o cuidado de não importar os desacertos.
Atualmente (2005), no topo da popularidade regional e nacional (até
mesmo com bom conceito internacional), o governador acreano que visitou
várias vezes o Amapá nos anos noventa recomenda:
-O segredo está nas alianças com os diversos grupamentos
sociais e com os partidos políticos (da esquerda à direita)
que possam firmar compromisso em torno de um projeto de desenvolvimento
voltado para o bem coletivo com controle da governabilidade.
Mary Allegretti que foi parceira de Jorge Viana no movimento dos seringueiros
aprova seu estilo de governar com alianças atreladas a um projeto
político de consistência técnica: - A tese da política
consistente é o oposto do populismo oportunista, grande defeito
da direita e da esquerda - diz ela.
Parece ser este um bom “dever de casa” para políticos,
empresários, governo, instituições da justiça,
organizações comunitárias e todos aqueles que podem
formar uma aliança ética para tirar o Amapá do
fundo do poço
*Publicado por Nezimar Borges
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