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A Jari Florestal, mega-investimento do empresário norte-americano Daniel Ludwig, bateu de frente com ele nos anos 70, quando se instalou na região. Causou estragos irreversíveis. Mas perdeu o embate. É justamente nessa arena que germinou uma das sementes mais promissoras da política de desenvolvimento sustentável do Amapá: a Comaru — Cooperativa Mista de Produtores Extrativistas do Iratapuru. A movimentação é grande na Vila da Beira, que fica dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Iratapuru. Na vila residem dez das 37 famílias de castanheiros que participam da associação. As casas de madeira exibem um começo de arruamento. A escolinha está funcionando, e o passeio que ladeia as corredeiras do Iratapuru é limpo e convidativo. Vida melhor Mostrava uma prensa de mandioca. Fiquei com aquilo na cabeça. Matutei semanas. Então disse para os companheiros: vai resolver nosso problema. Viajei até Pombas, em Pernambuco, e comprei”, diz o presidente da Comaru, Sebastião Braz, enquanto estica o fio do gerador para acionar a máquina. O povo da Beira tem pressa. Eles aprenderam que a vida pode melhorar, e muito, se deixarem de ser apenas coletores de castanhas para se transformar em fabricantes de produtos derivados das amêndoas. É justamente o salto perseguido pelo PDSA — Plano de Desenvolvimento Sustentável do Amapá. A Comaru saiu na frente. Braz reúne argumentos na calculadora enquanto orienta o manejo do novo equipamento: “Se vender só a amêndoa, o castanheiro ganha 15 reais para cada 50 quilos de produto. Se descascar e desidratar, com três dias de sol o valor já pula para 98 reais. Se extrair o óleo, vai obter 62 reais, mas ainda sobram 8 quilos de torta. Essa massa transformada em biscoito vai render outros 81 reais. Quer dizer, com a extração de óleo e a fabricação de biscoito, a renda sobe para 143 reais. É quase dez vezes mais o que a gente apura quando vende os 50 quilos da castanha in natura”, esclarece. A Comaru produz quase 3 toneladas de biscoito de castanha por mês. A receita adicional permitiu que a associação adquirisse dois barcos a motor e erguesse a escolinha da Vila da Beira. Quase toda a produção é comprada pelo governo do Amapá e enviada para a merenda escolar, cujo cardápio inclui ainda sucos de polpa de frutas originários de outras cooperativas. Hoje, o biscoito é a principal fonte de renda dos castanheiros do Iratapuru, onde cada família vive com cerca de 250 reais por mês. Mas essa dependência vai acabar. Eles já têm contrato para fornecer óleo à Natura, indústria paulista que utiliza o produto em sua linha de cosméticos. A ambição não pára aí. A Comaru quer exportar o óleo de amêndoa. Atualmente, ele é comercializado na França, em garrafinhas de meio litro, para uso culinário. O tempero tem fama de ser tão ou mais saudável que o azeite de oliva. A prensagem do produto por enquanto é toda feita na Provence, mas isso deve mudar em breve. O importador já concordou em comprar óleo extraído pelos próprios castanheiros. Vai apenas engarrafá-lo na França. A máquina que acaba de chegar é o primeiro passo nesse sentido. Está tudo pronto. Uma revolução simbólica se põe em marcha quando Braz aciona o contato, e as prensas comprimem a massa branca da amêndoa. Na outra ponta surge um líquido denso, de transparência amarelada e perfume característico. Os olhos atentos dos castanheiros estão vendo o futuro acontecer na sua frente. O nome técnico disso talvez seja desenvolvimento sustentável. Mas para o povo do Iratapuru uma palavra explica melhor a emoção que estão sentindo agora: esperança. *Publicado por Nezimar Borges
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