Franceses podem ajudar
Elson Martins
É uma boa notícia essa de que a França
está interessada no programa de desenvolvimento do Acre tocado
pelo governo da floresta. Em visita ao Estado, há duas semanas,
o embaixador francês Gean de Gleneasty e o presidente da filial
do banco Socièté Generale, François Alan Dossa,
passaram a informação ao governador Jorge Viana. O banco
já financia parte da recuperação da antiga usina
de álcool da Alcobrás, na BR-317, mas as possibilidades
de negócios sustentáveis com os europeus certamente são
mais amplas.
Falo com algum conhecimento de causa. Testemunhei a
parceria que os franceses fizeram com o setor produtivo do Estado do
Amapá entre 1996 e 2002, período em que o ex-governador
João Alberto Capiberibe implementou o PDSA (Programa de Desenvolvimento
Sustentável do Amapá). Os franceses dominam a tecnologia
simplificada com a qual transformam produtos naturais em alimentos,
perfumes e remédios que são valorizados em alguns mercados
internacionais.
Um bom exemplo disso aconteceu com a castanha. Os castanheiros
do Amapá se tornaram ocupantes livres dos castanhais do Vale
do Jarí, no sul do estado, com a criação da I Reserva
de Desenvolvimento Sustentável com área superior a 800
mil hectares; e passaram a produzir lá no meio da mata vários
subprodutos: como azeite, paçoca, massa para mingau e biscoito,
além da amêndoa desidratada..
O azeite da castanha, um provável concorrente
internacional do azeite de oliva, no futuro, chegou às prateleiras
de Paris em garrafas de 300 ml. Foi uma experiência ousada que,
entretanto, não evoluiu por falta de organização
técnica e comercial dos fabricantes. Mas o produto continua sendo
produzido e comercializado em supermercados nacionais. Até foi
copiado pelo ativo empresário acreano Luis Felício, proprietário
da Miragina.
Uma noticia recente (e ruim) que recebi sobre o excepcional
azeite é que estaria sendo patenteado pelo governo do Matro Grosso.
Se isso for verdade, tal patente representa uma segunda patada no trabalho
do Instituto de Ciência e Tecnologia do Amapá (IEPA) que
já teve sua vela de andiroba (produzida para combater o mosquito
da malária) patenteada pela digníssima Fundação
Oswaldo Cruz, do Rio de Janeiro.

Cientista Alain Ruellan, amigo da Amazônia
Simples e original
Ao assumir o governo do Amapá, em janeiro de
1995, Capiberibe formatou o PDSA e saiu pela Europa mostrando o programa.
Em pleno inverno de 1996 (fevereiro) , com os termômetros apontando
graus negativos, ele e sua equipe técnica visitaram a Bélgica,
a Itália, a Alemanha, Portugal e França encontrando neste
último país, o que mais precisava: cientistas e empresários
interessados nos cheiros e sabores da Amazônia.
Um desses cientistas, Alain Ruellan, professor emérito
da Universidade de Montpellier e membro de institutos de pesquisa como
o CIRAD, tornou-se parceiro preferencial do programa e “embaixador”
do Amapá na França. Aos 73 anos, engenheiro agrônomo
e doutor em Ciências Naturais, ele não se desprega da Amazônia
sobre a qual acaba de lançar o livro “Amazonie, le chemin
de l´espoir”, escrito em parceria com o jornalista Bertrand
Verfaillie. Na obra, que ainda não foi traduzida para o português,
ele fala da experiência sustentável do Acre.
O cientista é um velho amigo da Amazônia
e do Brasil. Na adolescência, acompanhou o pai que trabalhou na
escolha do terreno para a construção de Brasília.
Depois, colocou seu saber e suas experiências a serviço
de nosso país trabalhando como especialista em solos em São
Paulo, no nordeste e por fim na Amazônia.
Por seu intermédio, Capiberibe conheceu o empresário
e inventor Emile Noel, presidente da sociedade francesa Provence Regime,
que orientou a criação de empresas “joint-ventures”
entre pequenos e médios empresários, amapaenses e franceses..
Um grupo de especialistas na produção de alimentos visitou
Macapá e fez testes com plantas como chicória, mangericão
e erva do jabuti, entre outras, produzindo mais de uma dezena de patês
e molhos que poderiam fazer sucesso nos mercados europeus. A imprensa
amapaense acompanhou os testes e se empanturrou.
Como projeto do PDSA (que após as eleições
de 2002 passou a ser desmontado pelo atual governador, Waldez Góes,
eleito por uma coligação da direita), o IEPA desenvolveu
mais de 100 produtos fitoterápicos que comercializa em sua pequena
farmácia, no Museu Sacaca, e no Mercado da Floresta, mantido
por uma cooperativa de produtores extrativistas. Nesse mercado, o visitante
encontra creme facial e shampoos de castanha, pomadas de andiroba e
copaíba, óleo de pracaxi, sabonetes, ervas aromáticas,
paçocas e até sorvetes com sabor e cheiro incomuns.
Eu sempre acreditei que o Acre, por suas características
históricas e culturais, daria um banho no Amapá do PDSA
se enveredasse com o setor produtivo por esse caminho. Teria, neste
caso, que criar seu IEPA, prestar mais atenção aos sábios
e pajés da floresta e pensar menos macro no planejamento.
Sem dúvida, os franceses podem abrir uma porta
interessante, pela qual o povo da floresta pode percorrer o caminho
das pedras sem tropeçar, politicamente, como o Amapá tropeçou.
*Publicado por Nezimar Borges
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