PDSA do Acre X PDSA do Amapá
O
único estado que já tem governador eleito é o
Acre. Binho Marques, vice-governador e secretário de educação
é o candidato de consenso da Frente Popular, aliança
política que chegou ao poder em 1999, quando Jorge Viana foi
eleito governador e deu início a implementação
do Programa de Desenvolvimento Sustentável – PDSA acreano.
Por lá, o PDSA se chama Florestania ou Governo da Floresta.
Apesar de Jorge Viana sempre declarar que aprendeu Desenvolvimento
Sustentável com o Amapá, não resta dúvida
que o Acre avançou muito mais. De fato, o povo acreano entendeu
o Desenvolvimento Sustentável muito mais que o povo amapaense.
Mas como explicar as diferenças? Tenho alguns argumentos.
O primeiro argumento
é o fato de Jorge Viana ter uma equipe técnica muito
competente formada ainda quando Prefeito de Rio Branco. Esta equipe
cresceu politicamente e chegou ao Governo com bastante energia e capacidade
de colocar o Desenvolvimento Sustentável em prática,
coisa que não aconteceu no Amapá. Por qual razão
no Amapá o conhecimento técnico é preterido em
detrimento do puxa-saquismo e da subserviência?
O segundo argumento
é a maior tolerância para o diálogo do grupo político
de Jorge Viana. Isto é tão verdade que o vice-governador
do Acre no primeiro mandato de Jorge Viana era do PSDB. Tal composição
facilitou em muito o trânsito do Governo do PT acreano junto
ao Governo do PSDB de FHC. Jorge Viana chegou a ser apelidado de “o
queridinho da Ruth Cardoso” tamanha a facilidade em aprovar
seus projetos sociais junto ao Governo Federal.
O terceiro e
último argumento é a diferença da composição
e identidade da população do Acre e a do Amapá.
No Acre, o crescimento da população é de 3% ao
ano, com tendência de decrescimento, enquanto no Amapá
chega a assustadores 5,7% ao ano. Isto significa que a população
do Acre está mais enraizada na região e apresenta maior
identidade local. No Amapá a impressão que se tem é
que os “novos amapaenses” levam um tempo maior para se
identificar com a região, alguns permanecem meros personagens
transitórios, o que inviabiliza uma participação
mais qualificada e enraizada, necessária para o entendimento
e prática do Desenvolvimento Sustentável.
O Amapá
tem muito mais recursos naturais do que o Acre, mas não tem
tido competência para transformar estes recursos em vantagens
competitivas para o desenvolvimento sustentável. As razões
são complexas e históricas, não cabendo aqui
maiores considerações. Entretanto, gostaria de contribuir
para uma reflexão sobre o que entendo por desafios para o desenvolvimento
sustentável do Amapá:
1. O Amapá
é o estado mais urbano do Brasil. É dentro das cidades
que se verifica a maior desigualdade social. Os serviços e
equipamentos não são acessíveis a todos e grande
parte da população vive em áreas insalubres e
exerce atividades econômicas informais.
2. O intenso fluxo imigratório das ilhas e nordeste tem deslocado
uma grande quantidade de pessoas carentes para o Amapá, gerando
variados e crescentes movimentos reivindicatórios de cidadania.
3. A geopolítica preservacionista regional, que exclui o homem
da natureza, imposta por ONGs internacionais e acatada irresponsavelmente
pelo atual Governo, não consegue dar respostas para os problemas
sociais locais.
4. Os recursos naturais do Amapá (minérios, madeira,
biodiversidade) têm sido explorados sem agregação
de valor local, enriquecendo investidores externos e internalizando
impactos sociais e ambientais, além da própria perda
irreversível de capital natural.
5. Os servidores públicos do Amapá da área de
ciência, tecnologia e meio ambiente têm sido sub-utilizados,
ganham mal e ao longo dos governos tem sido submetidos a todo tipo
de exposição política partidária, segregando
aqueles que são deste ou daquele lado. Muitos desses técnicos
já desistiram do Amapá, outros estão pensando
seriamente nisso.
Marco Antonio Chagas, doutorando em desenvolvimento sustentável
pela UNIFAP/UFPA-NAEA.
*Publicado por Nezimar Borges
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