A noite dos morto-vivos
16/07/2007
Cabo
Anselmo, o mais célebre dos militantes da resistência à ditadura que
atuaram armando ciladas para os companheiros, saiu da tumba para
provocar sustos e asco ao pleitear reparação de perseguido político à
Comissão de Anistia.
Celso Lungaretti
O cabo Anselmo saiu da tumba para provocar sustos e asco nas pessoas de bem, no Linha Direta Justiça que
a Rede Globo levou ao ar no último dia 5. Trata-se do mais célebre dos
militantes da resistência à ditadura militar que, no jargão dos
próprios órgãos de segurança, atuaram como cachorros da repressão,
armando ciladas para os companheiros. Seu caso voltou à baila por ele
estar pleiteando reparação de perseguido político à Comissão de Anistia
do Ministério da Justiça.
A reconstituição de sua história em
tevê aberta teve como ponto alto um episódio que o grande público
ignorava (embora já fosse conhecido pela minoria informada), assim
descrito por Élio Gaspari em A Ditadura Escancarada:
“A última
operação de Anselmo, na primeira semana de janeiro de 1973, (...)
resultou numa das maiores e mais cruéis chacinas da ditadura. Um
combinado de oficiais do GTE e do DOPS paulista matou, no Recife, seis
quadros da VPR. Capturados em pelo menos quatro lugares diferentes,
apareceram numa pobre chácara da periferia. Lá, segundo a versão
oficial, deu-se um tiroteio (...). Os mortos da VPR teriam disparado
dezoito tiros, sem acertar um só. Receberam 26, catorze na cabeça.
(...) A advogada Mércia de Albuquerque Ferreira viu os cadáveres no
necrotério. Estavam brutalmente desfigurados.”
Foi chocante
também, para o telespectador comum, ficar sabendo que Anselmo, no afã
de bem servir à repressão, causou a morte inclusive de sua amante, a
paraguaia Soledad Barret Viedma, que estava gerando uma criança dele; e
que aqueles militantes estavam antecipadamente marcados para morrer,
tanto que Anselmo chegou a pedir pela vida de Soledad, se fosse
“possível” poupá-la do destino dos demais.
A realidade,
portanto, foi bem diferente dos contos-de-fadas que os sites
direitistas propagam, tentando fazer passar por operações policiais
rotineiras as atrocidades cometidas pela ditadura militar.
Este Linha Direta,
surpreendentemente, não deixou de mostrar os esqueletos que o regime
dos generais tinha no armário. Mas, talvez tenha sido condescendente
com Anselmo, ao encampar sua versão de que só teria mudado de lado em
junho de 1971.
Antigos colegas da Marinha garantem que, durante
os eventos que desembocaram na quartelada de 1964, ele já era agente do
Cenimar, com a missão de radicalizar ao máximo a agitação entre os
sargentos, cabos e soldados, de forma a provocar a indignação dos
superiores. Afinal, a oficialidade hesitou bom tempo antes de aderir ao
núcleo golpista, só o fazendo quando passou a ser contestada
abertamente pelos subalternos.
Perseguido político?
Há outros fatos suspeitos.
Logo
após o golpe, Anselmo pediu asilo na embaixada mexicana. Mas, embora
fosse uma das pessoas mais procuradas do país, resolveu sair andando de
lá, sem ser detido. Logo mais foi preso, exibido como troféu pela
ditadura... e logo transferido para uma delegacia de bairro, na qual,
diz Gaspari, “Anselmo fazia serviços de telefonista, escrivão e
assistente do único detetive do lugar”.
A situação carcerária
do ex-marujo, continua Gaspari, não cessou de melhorar: “Com as
regalias ampliadas, era-lhe permitido ir à cidade. Numa ocasião
surpreendeu o ministro-conselheiro da embaixada do Chile, visitando-o
no escritório e pedindo-lhe asilo. Quando o diplomata lhe perguntou o
que fazia em liberdade, respondeu que tinha licença dos carcereiros. O
chileno, estupefato, recusou-lhe o pedido”.
Finalmente, sem
nenhuma dificuldade, Anselmo deixou a cadeia em abril de 1966. Nada
houve que caracterizasse uma fuga: apenas constataram que o hóspede
saíra e não voltara. Só retornaria ao Brasil em setembro de 1970,
iniciando no ano seguinte sua trajetória de anjo exterminador.
Se
ficar estabelecido que ele sempre foi um agente duplo, Anselmo não fará
jus à anistia federal; caso tenha realmente sido um perseguido político
até 1971, seus direitos não são anulados pelas indignidades
posteriores.
Portanto, o programa da Globo, ao não aprofundar
tal questão, serviu ao principal interesse de Anselmo neste momento.
Ele, inclusive, tem posado de vítima nas entrevistas, deixando de
vangloriar-se por ter causado a morte de “cem, duzentos” militantes,
como antes fazia (aliás, com exagero). No entanto, mau ator, a
hipocrisia transparece em sua voz. A pele de cordeiro não lhe cai bem.
De resto, o Linha Direta não aliviou também para a ditadura, de forma que os telespectadores
tiveram uma rara oportunidade para conhecer a verdade, num veículo em
que ela não é habitual...
Massacre no bom sentido
A
emissão terminou com uma chamada para o chat em que o caso foi debatido
pelo ex-preso político Ivan Seixas e o advogado de Anselmo, Luciano
Blandy. Foi mais um massacre, desta vez no bom sentido. Ivan levou o
advogado às cordas várias vezes, como quando demoliu a versão de que
Anselmo teria cooperado com a repressão para não ser, ele próprio,
executado.
Se isso é duro de engolir nos episódios ocorridos
no Brasil, torna-se absolutamente inverossímil durante a estada dele no
Chile. Se não aproveitou a oportunidade para escapar das malhas da
repressão quando estava num país democrático e soberano, é porque, como
ressaltou Ivan, já pertencia de corpo e alma à ditadura, como
assalariado dos órgãos de segurança.
Foi igualmente infeliz o
advogado a referir-se ao Genoíno e a mim como ex-militantes cujos casos
seriam semelhantes ao do Anselmo. Enviei de imediato respostas e
interpelações que os organizadores do chat ignoraram, mas minhas
queixas posteriores surtiram efeito e o site do Linha Direta publicou uma nota com minha defesa:
“A
acusação que ele me fez no chat, de ter sido delator, foi desmentida em
2004 pelo historiador Jacob Gorender, depois que lhe enviei um
relatório secreto militar que viera a público e confirmava inteiramente
minhas alegações. Em carta enviada à imprensa, Gorender me isentou de
qualquer responsabilidade pela descoberta da escola de guerrilha e o
cerco a Lamarca. Exumar essa versão já superada foi uma represália do
advogado por eu ter escrito e divulgado, na véspera do debate, um
artigo contundente sobre o Cabo Anselmo, intitulado ‘Anistia para um
canalha’.”
Foi citada nessa nota também a resposta que o companheiro Ivan deu no próprio chat:
“Eu
acho um absurdo o que você está falando. Essas pessoas todas que você
falou, elas foram presas, foram muito torturadas e elas não
colaboraram. Não passaram a ser assassinas a serviço do Estado. Elas
passaram a ser presas e perseguidas. Você colocar em pé de igualdade as
pessoas torturadas com um cara desses (Anselmo), me desculpe, mas é
inaceitável. Não tem o mínimo sentido. Os critérios para aceitação do
processo de anistia com certeza são de perseguição, de pessoas que
tiveram suas vidas prejudicadas. Esse cara [Anselmo] foi assalariado,
você sabe disso.”
O advogado Blandy depois me escreveu para
afirmar que não havia me citado como delator da área de treinamento
guerrilheiro em Registro, mas sim como exemplo de militante perseguido
pela própria esquerda por causa de acusações infundadas (como, no
entender dele, é o caso do Anselmo).
Não foi essa a impressão
que ficou do que ele disse no ar, nem foi assim que entendemos o Ivan,
eu e o próprio redator da Globo que escreveu a notícia publicada no
site. Mas, como Blandy não é um comunicador experiente, admito a
hipótese de que tenha sido apenas infeliz na escolha das palavras.
Tenho por princípio nunca duvidar, a priori, da sinceridade de ninguém.
Cara de pau consumado
Também
nos dias seguintes, Ivan enviou mensagem aos amigos relatando o que
aconteceu nos bastidores do chat, até como forma de prevenir-se contra
eventuais represálias da direita. Alguns trechos interessantes:
“Lá
chegando me deparei com a presença do advogado, junto com o Carlinhos
Metralha, torturador da equipe do [delegado Sérgio] Fleury, e o próprio
cabo Anselmo.”
“O cabo está mais magro, quase careca, com o nariz aquilino e o queixo pontudo para frente.”
“O cabo foi apresentado ao pessoal da Globo como sendo o Fininho, torturador e membro do Esquadrão da Morte.”
“Em vários momentos comentavam as encenações e confirmavam entre si a semelhança com o que viveram.”
“O
momento mais cruel foi quando o torturador perguntou para o Anselmo
sobre a encenação do massacre e este respondeu: ‘Ta bem bom’.”
“Afirmei
várias vezes que o cabo e Carlinhos Metralha estavam fora da sala e o
advogado não negou. Quando terminou, ele me ‘esclareceu’ que não era o
cabo, mas Fininho. Respondi a ele que eu conhecia os dois Fininhos e
que esse era o cabo. Ele apenas riu e saiu fora da sala.”
“O cara é mais cara de pau do que imaginávamos.”
* * *
Carlos
Alberto Brilhante Ustra saiu da tumba para provocar sustos e asco nas
pessoas de bem, colocando no seu site e infestando a internet com o
artigo “Celso Lungaretti e a organização de Lamarca”, em que repete a
receita habitual de misturar calúnias, mentiras, meias-verdades,
entulho autoritário retirado dos famigerados Inquéritos
Policiais-Militares e daquela documentação secreta cujo paradeiro o
governo Lula garante desconhecer, tudo isso interpretado da forma mais
tendenciosa e distorcida. Ele segue, com pouca criatividade e nenhum
brilhantismo, as lições de Goebbels: martelar uma falsidade mil vezes
até que ela passe por verdade.
Torturador-símbolo do Brasil
desde a morte do delegado Sérgio Fleury, Brilhante Ustra comandou,
entre setembro/1970 e janeiro/1974, o DOI-Codi de São Paulo, o
principal órgão de repressão aos grupos de esquerda que pegaram em
armas contra a ditadura militar. Já foram apresentadas 502 denúncias de
torturas referentes a esse período. Pelo menos 40 revolucionários foram
assassinados no DOI-Codi, inclusive o jornalista Vladimir Herzog.
Para
se ter uma idéia do nível do samba do crioulo doido ideológico e até
cronológico com que Brilhante Ustra tenta em vão me desacreditar, basta
este trecho: “Foi a VPR que planejou e organizou o atentado ao Quartel
do II Exército, onde morreu o soldado Kosel e outros ficaram feridos.
(...) Ele sabia desse atentado bárbaro e, mesmo assim, continuou
militando na mesma.”
Ora, seria muito difícil eu sair da VPR em
junho de 1968, já que nela ingressei em abril de 1969! Em meados de
1968 eu era apenas um secundarista que ia distribuir panfletos numa
Osasco sob ocupação militar e não tinha o mínimo interesse em atentados
contra quartéis. Só passei a prestar atenção na luta armada meses
depois, quando o recrudescimento da ditadura começou a inviabilizar a
resistência pacífica, tornando-a, cada vez mais, suicida.
Finalmente,
é emblemático que Brilhante Ustra relacione esse artigo, no seu site,
como de sua própria autoria, mas o distribua na Internet com uma
assinatura farsesca: os administradores do site www.averdadesufocada.com
Ivan Seixas, no chat do Linha Direta,
ressaltou que os veteranos da resistência à ditadura todos assumimos o
que somos e o que fazemos, assinamos os textos com nossos nomes reais,
não escondemos nossas fotos, lutamos de peito aberto.
Já as
viúvas da ditadura e os novos integralistas atuam como fakes e anônimos
na Internet, mascaram a autoria de seus escritos e comparecem a
estúdios de TV sob falsa identidade, sem que possam apontar nenhuma
ameaça real para justificar essas práticas ridículas... salvo o
complexo de culpa pelos crimes contra a humanidade que praticaram,
coonestaram e/ou defendem. Sabem que merecem punição e punem-se a si
próprios com suas paranóias.
São, além de tudo, covardes.
Celso Lungaretti é jornalista e escritor, ex-preso político e autor do livro "Náufrago da Utopia".
*Publicado por Nezimar Borges
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