Cansados, cuidado: isso pode dar merdeeeé
RENATO ROVAI EDITOR DA REVISTA FORUM-(30/07/2007)
Estou na Bahia. Antes diziam assim: estou na Bahia, terra de ACM. Pois é, não mais. O governador do Estado é Jacques Wagner. E o prefeito de Salvador João Henrique. Ambos anti-carlistas. Lembro-me de ACM chorando quando soube que a dona da Daslu havia sido presa por sonegação. Lembro-me de Hebe chorando pelo mesmo motivo. Talvez outros tenham chorado às escondidas. Quem sabe João Doria e o tal D´Urso, os novos good-boys da turma. Mas por que lembro de ACM a chorar? E o que isso tem a ver com o cansei e outras coisas menos cansativas como o fim dos demos? A tentativa de ressuscitar a elite pelo gogó de novos atores políticos foi a última operação da dupla que pouco se bicava, mas que jogava junto por sentimento de preservação da espécie. São eles: ACM e Bornhausen. Eles mais a ajuda das pesquisas de opinião de César Maia. Quando perceberam que o modelo político que lideraram se esgotara e que estavam prestes a não só perder os anéis, como também os dedos, decidiram renovar a coisa. Trocaram o nome do projeto político que criaram ao fim da ditadura para continuar tendo espaço na redemocratização. E inspirados na matriz política deles (USA) escolheram o nome de Democratas, mas também poderia ser Republicanos. O problema é que já havia o Partido Republicano (PR) no Brasil. Depois do nome do partido, trocaram os nomes dos líderes. O ACM virou Acminho. E o César Maia virou Rodriguinho. Assim por diante. Até um certo Kassab conseguiu espaço na turma. Mesmo sem ter tido um voto. Mas se por um lado isso deu nova cara midiática para o grupo, fez com que a base tradicional ficasse meio ressabiada. Tipo: “xi, esses meninos parecem são muito almofadinhas...”. Aqui na Bahia, por exemplo, o grupo de Paulo Souto não aceita a liderança de Acminho. Ele já deu mais de uma indicação de que só fica nos demos se tiver o controle da coisa. E se na Bahia a coisa está assim, nem imagina o leitor como anda na base ruralista. Diz-se que a tendência é que os demos percam boa base das suas médias e pequenas pequenas cidades, como também boa parte das pequenas cidades com base rural. Se isso vier, somado a quase certa derrota do grupo de César Maia no Rio de Janeiro. E a uma muito improvável vitória de Kassab em São Paulo, o que sobra? Praticamente nada. Sumindo do executivo dos municípios, restará aos Demos uma quantidade de senadores, já que na Câmara a tendência será a perda de muitos deputados. E mesmo entre os senadores, alguns buscarão espaço em legendas como PTB, PL PP etc. para tentar algo nas próximas eleições. O que isso tem a ver com o Cansei? Diretamente não tanta coisa. Mas indiretamente muita. Ao perceber que estão perdendo espaço no debate político nacional, a turma da Oscar Freire decidiu criar um movimento que reclama de pagar impostos e que não gosta de criança vivendo na rua. Entenderam? E já até elegeu um negro para chamar de seu, o seu Jorge. Para quê? A idéia é dar uma renovada, criar novas referências, tentar inventar um novo jeito de fazer política pela direita, com base em movimentos, em festinhas de rua. A tendência é que isso dê muito errado, como deu a transformação do pefelê em demos. Essas operações plásticas costumam deixar a boca torta. E mesmo com todo o apoio midiático elas no máximo criam uma divisão social mais forte. O povão, que não é tão bobo como os cansados imaginam, toma lado. E pensa: se eles defendem isso eu vou para o outro lado da rua. Elite quando inventa de fazer movimento de rua ou consegue bons resultados, operando um golpe. Ou o povo se enoja por ela estar querendo mandar sem voto e bota para quebrar. Os cansados podem nos levar a uma divisão social como a da Venezuela. Se eu fosse amigo deles, reunia a turma e dizia: gente, vai dar merdeeé. É melhor a gente rasgar logo essa fantasia e tirar o bloco da rua. Ou como disse um amigo meu: “assim eles não acabam com os demos, mas também com os tucanos na próxima eleição”.
Cansados:E se as marchas ficarem grandes
Segundo uma das entidades organizadoras, eram oitocentos. Mas isso nem sempre é pouco. Aliás, nesse caso foi mais do que o suficiente. Antes, porém, de partir para análise do evento de ontem, um parênteses. Algumas das pessoas que estavam naquela manifestação vestiam camisetas com nomes e fotos de vítimas. Estavam em dor. E seus protestos precisam ser compreendidos e ouvidos. Mas a marcha de ontem não foi apenas um protesto clamando justiça, como se espera de um evento de enlutados por uma tragédia. Ela fez parte de uma operação midiática calculada e que pretende devolver o governo federal às cordas do ringue político. Não há nada de novo no formato do evento. Na operação midiática realizada contra o presidente venezuelano Hugo Chávez, da qual trato em detalhes em meu recente livro, Midiático Poder, as passeatas tiveram papel importantíssimo. Tanto que foi em meio a uma delas que a ação golpista tomou o Palácio de Miraflores, seqüestrando e encarcerando o presidente do país. Dias depois desse primeiro golpe contra Chávez, estive em Caracas e fiz uma entrevista com o jornalista Clodovaldo Hernadez, editor de El Universal, o principal jornal de oposição do país. Ele de forma honesta, disse sem meio tom a respeito das marchas que “quando eram só alguns protestando, a mídia já apresentava essas manifestações com enorme destaque”
O que aconteceu ontem foi isso.
A mídia convocou durante toda a semana o evento. Divulgou local, hora e data e tentou até calibrar o mote. Seria algo como uma manifestação pacífica para lembrar as vítimas da TAM, mas ao mesmo tempo para protestar contra tudo de errado. Entenderam? Pois é, em geral, eles fazem assim. Jogam tudo num mesmo balaio, mas no fundo no fundo querem só uma coisa. Por exemplo, se você não gosta de pagar imposto e acha o peso dos encargos sociais na folha de pagamento um absurdo, pode ir. Se o seu problema é o aumento do salário mínimo que fez sua empregada doméstica custar mais caro, também. Se considera um absurdo que o governo dê bolsa-família para “essa gente”, é bem-vindo. Se não gosta de deputados e políticos, a não ser aquele que lhe quebra todos os galhos, está quase se tornando um líder. Agora, se além de tudo isso você não suporta um analfabeto como o Lula na presidente da República, aí você entendeu tudo. Ou seja, o objetivo é retomar o controle do poder, que sempre esteve nas mãos da elite branca, má e perversa, para usar uma definição do ex-governador Cláudio Lembo. E mesmo com tudo isso a manifestação de ontem (que até já encontrou um negro com passado pobre para chamar de seu, o seu Jorge) foi um fiasco de público. Mas isso não quer dizer quase nada para a campanha midiática. Vejam, por exemplo, a capa de hoje da Folha de S. Paulo (29/07). É um panfleto de campanha. Muito bem diagramado e pensado por sinal. A foto de destaque é a da marcha, mesmo ontem tendo sido o dia do encerramento dos Jogos Pan-Americanos. Mas se achar isso pouco, perca um pouco do seu tempo com a programação da TV Globo. É na emissora dos Marinhos e nos seu programas “despolitizados”, como despolitizada era a marcha de ontem, que os dentes do jacaré aparecem mais salientes. Em Malhação, Ana Maria Braga, Faustão etc. é possível perceber a feiúra do bicho. Ontem, por exemplo, Faustão não cansou de dizer que: apesar de tudo de ruim que está acontecendo no país, apesar de tanta corrupção e tanta desgraça, o esporte brasileiro tinha tido uma participação brilhante no Pan. Tinha mostrado que o Brasil pode ser diferente, pode ser melhor do que é e blá-blá-blá. Ou seja, apesar desse governo, o Brasil tem coisas boas, entenderam? No editorial que encerrou o programa de Ana Maria Braga de hoje a coisa foi ainda mais escancarada. Ela falava de corrupção, de desmando, de falta de segurança, de crise aérea, de problema na saúde e educação e ao fundo apareciam imagens da manifestação que reuniu 800 pessoas em São Paulo. Claro que isso não é jornalismo ou qualquer outra coisa que se assemelhe a ele. É campanha que em princípio não creio seja para derrubar Lula na semana que vem. Mas que tem ao menos dois objetivos muito claros.O primeiro, amarrar o noticiário numa grande crise, para que o governo gaste suas energias enfrentando-a. E como esse governo é exageradamente covarde para lidar com os barões da mídia, isso eles devem conseguir com certa facilidade. Em segundo lugar, estão começando o jogo das eleições municipais. Sabem que se não fizerem nada desde já, os partidos que os representam serão escurraçados nas urnas. Sendo que um deles, o dos demos, pode se tornar um nanico já em 2008. Mas e se as marchas crescerem? Bem, nesse caso, como ocorreu na Venezuela, aqueles que as estão incentivando podem ficar mais ousados. E tentarem aquilo que tentaram lá. E que quase chegaram a tentar aqui em 2006. Na ocasião, só não o fizeram, porque as marchas não ficaram grandes. Mas não se deve subestimá-las.
*Publicado por Nezimar Borges
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