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Chávez "vence" na Argentina e provoca clima de velório entre os missionários neoliberais

Local:São Paulo
Fonte: Luis Azenha
Link: http://viomundo.globo.com

Se aceitarmos a premissa de que Cristina Fernández de Kirchner se tornará a primeira presidente eleita da Argentina neste domingo essencialmente por causa da bem sucedida política econômica do marido, então ela deve a vitória à decisão de Nestor Kirchner de dar uma banana aos banqueiros e às receitas do Fundo Monetário Internacional e procurar um caminho próprio. De forma elegante e educada, é o que dizem os economistas Mark Weisbrot e Luis Sandoval, do Centro de Pesquisa Política e Econômica de Washington, que felizmente divergem das opiniões marteladas, diuturnamente, pelos papagaios cansados da mídia corporativa brasileira. Os dois acabam de divulgar um estudo sobre a economia de nosso vizinho: "A atual expansão econômica da Argentina dura mais de cinco anos e meio e foi muito além da expectativa da maioria dos economistas e da mídia especializada. Apesar do "default" recorde de U$ 100 bilhões em dezembro de 2001 e de um colapso financeiro, a economia começou a crescer três meses depois e continua crescendo desde então. O PIB da Argentina durante este período cresceu mais de 50%, fazendo da Argentina a economia de maior crescimento no Hemisfério Ocidental no período. No processo, mais de 11 milhões de pessoas, em um país de 39 milhões, superaram a linha da pobreza. Além disso, a recuperação foi obtida sem qualquer ajuda das instituições financeiras internacionais que haviam, lideradas pelo Fundo Monetário Internacional, emprestado dezenas de bilhões de dólares antes do colapso; e com o uso de políticas macroeconômicas não-ortodoxas." Nem tudo é um mar de rosas, dizem os economistas: a inflação e a falta de energia são problemas graves diante de Cristina Kirchner. Gravíssimos. Ela já disse que a parceria com Hugo Chávez continuará. A integração energética, que é um dos pilares da política externa do venezuelano, serve à Argentina como saída de médio prazo para enfrentar a crise que pode interromper o ciclo de crescimento. Os economistas atribuem a recuperação da Argentina às decisões políticas que levaram o país a romper com as receitas ortodoxas do FMI e a não sucumbir às pressões na renegociação da dívida, que resultou num desconto recorde de 65,6% do valor total. "Se o governo não tivesse adotado a linha dura com os credores acabaria com um peso insustentável da dívida, que poderia ter matado a recuperação", diz o relatório. Os autores dizem que é impossível tirar lições da crise argentina que se apliquem automaticamente a outros países, mas afirmam que a política bem sucedida de Nestor Kirchner coloca em debate as verdades absolutas dos neoliberais - como a independência do Banco Central, o corte de impostos ou de programas sociais. Atribuem ao imposto sobre exportações um papel decisivo para ajustar as contas do governo, além do bolsa-família argentino, que garantiu uma renda de 150 pesos mensais ao chefe de família desempregado com filho menor de 18 anos. Em 2003, segundo o estudo, o programa atingiu 20 por cento dos domicílios, com 97,6% dos beneficiários abaixo da linha de pobreza. "Tudo isso representa um rompimento com a política econômica tradicionalmente receitada à América Latina, mas também com o modelo de atuação de um banco central. Embora reconhecendo que passos devem ser tomados para controlar a inflação e evitar uma espiral de preços e salários, o governo aceitou conviver com inflação de dois dígitos, por algum tempo, para garantir um crescimento econômico rápido que teve um enorme impacto na pobreza, no emprego e na distribuição de renda", diz o relatório. O desemprego caiu de 21,5% na primeira metade de 2002 para 9,6% no primeiro semestre de 2007. A taxa de pobreza caiu de 41,4% dos domicílios para 16,3% no mesmo período. E o aumento real de salários foi de 40,1%. Fiquem de olho no clima de velório nos estúdios da Globo nesta segunda-feira. Anotem quantas vezes eles vão falar em "populismo" e dizer que o colapso da Argentina é apenas uma questão de tempo. Não chamem o Procon, por que a gente vai ficar sem ter de quem falar mal. Publicado em 28 de outubro de 2007

 

*Publicado por Nezimar Borges

 

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