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‘Fome Zero original foi abandonado’. Entrevista com Frei Betto

Assessor especial do presidente Lula para políticas sociais até dezembro de 2004 e seu amigo de muito tempo, Carlos Alberto Libânio Cristo, o Frei Betto, tem se revelado, nos últimos tempos, um ácido crítico do governo, embora ressalve não estar totalmente decepcionado com a administração federal. Recentemente, em artigo publicado pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea), questionou o interesse do governo no etanol em detrimento de outras fontes de energia, como a eólica. Na entrevista por e-mail a seguir, o frei, que lançou vários livros - entre eles o Calendário do Poder, no qual faz críticas a atuais e ex-membros do governo, como José Dirceu, Patrus Ananias, José Graziano e o próprio Lula -, lamenta a mudança no plano de ação do Fome Zero. Na sua opinião, o programa se restringiu ao Bolsa-Família, que ele considera meramente assistencialista, sem se preocupar em libertar as pessoas da pobreza. Ao mesmo tempo, sugere que o PT cobre, em seu congresso, as reformas prometidas por Lula, principalmente a agrária. A reportagem e a entrevista com Frei Betto é de Moacir Assunção e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 19-08-2007.

Eis a entrevista.

Como o sr. avalia o governo Lula na área social?

Há muitos aspectos positivos, como a elevação da renda dos mais pobres, comprovada recentemente pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Graças ao Bolsa-Família, há mais recursos circulando no interior do País e nas periferias, bem como maior freqüência de crianças à escola. Porém, lamento que o projeto original do Fome Zero tenha sido abandonado. Previa-se que cada família beneficiária ficaria, no máximo, um ano e meio com direito de receber a renda da União. Tempo suficiente para que ela se emancipasse do programa e passasse a gerar a própria renda. Previa-se ainda uma ampla participação da sociedade civil, sobretudo através dos Comitês Gestores. Estes foram erradicados pelo próprio governo e, por sua vez, o Fome Zero ficou praticamente reduzido a um dos seus 60 programas de políticas públicas: o Bolsa-Família.

E nas questões ambientais, qual a sua opinião? Recentemente, o sr. criticou os chamados necrocombustíveis, como chamou o etanol.

Considero exemplar o desempenho da ministra Marina Silva à frente do Ministério do Meio Ambiente. Mas é preocupante saber que nos Estados do Amazonas e de Mato Grosso o índice do desmatamento ainda não tenha sido reduzido, ao contrário do que acontece em outros sete Estados amazônicos. Não descarto o etanol como fonte alternativa de energia ao petróleo. Repudio é o governo entregar o desafio aos usineiros, sem criar uma estatal - a exemplo do que fez Vargas ao criar a Petrobrás - para controlar o plantio da cana e a fabricação do etanol. E há que explorar outras energias alternativas, como a eólica e a solar, ampliando a hidrelétrica, antes de se falar em energia nuclear. Temo que a transformação de grandes áreas de plantio de alimentos em canaviais inflacione o preço da comida e favoreça a exploração do trabalho escravo e semi-escravo, como ocorre. É também importante discutir o luxo do transporte individual e investir no coletivo de qualidade.

O sr. está decepcionado com o governo Lula nesta ou em outras questões?

Minha avaliação do governo, entre aplausos e críticas, está contida em dois livros recentemente lançados pela Editora Rocco: A Mosca Azul e Calendário do Poder. Não se trata de decepção. O Brasil e a América Latina são, hoje, melhores com Lula do que seriam sem ele. Contudo, espero mais deste governo. Espero o tanto que prometeu e se comprometeu em público: reformas agrária, tributária e política, maior investimento em educação e saúde e retomada do caráter emancipatório do Bolsa-Família, com reativação dos Comitês Gestores. E há muito a aplaudir: a política externa, o controle da inflação, o combate aos crimes de colarinho branco, o PAC, a defesa dos direitos humanos.

Qual é o futuro político do PT, na sua visão? O partido conseguirá eleger o próximo presidente?

O PT, às vésperas de seu Congresso Nacional, está diante de grandes desafios, como reduzir a crescente distância entre o petismo e o lulismo (evitando a peemedebetização do PT); apurar, enfim, as denúncias de corrupção de alguns de seus dirigentes e militantes e punir os responsáveis; voltar a se sintonizar com os movimentos sociais; elaborar uma proposta de nação, evitando trocá-la por um projeto de eleição; redefinir-se como socialista e explicar o que isso significa; pressionar o governo Lula a cumprir suas propostas históricas, como a reforma agrária.

A que atividades o sr. tem se dedicado nos últimos tempos? Pretende desenvolver algum outro trabalho social no governo?

Se Deus quiser e a literatura me permitir, jamais voltarei ao poder público ou à iniciativa privada. O que faço hoje é o que pretendo fazer o resto da vida: escrever, evangelizar, assessorar movimentos populares. É o que me basta e me faz feliz.

Jornal Estado de S. Paulo
http://www.estadao.com.br/

*Publicado por Nezimar Borges

 

LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA

Cientista político, professor emérito da Universidade de Brasília e autor de "As Relações Perigosas: Brasil-Estados Unidos de Collor a Lula, 1990-2004", "Brasil, Argentina e Estados Unidos" e "De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina". Leia alguns de seus artigos AQUI>>

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