‘Fome Zero original foi abandonado’. Entrevista com Frei
Betto
21 de Agosto de 2007
Assessor especial do presidente Lula para políticas sociais até dezembro de
2004 e seu amigo de muito tempo, Carlos Alberto Libânio Cristo, o Frei Betto,
tem se revelado, nos últimos tempos, um ácido crítico do governo, embora
ressalve não estar totalmente decepcionado com a administração federal.
Recentemente, em artigo publicado pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar
(Consea), questionou o interesse do governo no etanol em detrimento de outras
fontes de energia, como a eólica. Na entrevista por e-mail a seguir, o frei, que
lançou vários livros - entre eles o Calendário do Poder, no qual faz críticas a
atuais e ex-membros do governo, como José Dirceu, Patrus Ananias, José Graziano
e o próprio Lula -, lamenta a mudança no plano de ação do Fome Zero. Na sua
opinião, o programa se restringiu ao Bolsa-Família, que ele considera meramente
assistencialista, sem se preocupar em libertar as pessoas da pobreza. Ao mesmo
tempo, sugere que o PT cobre, em seu congresso, as reformas prometidas por Lula,
principalmente a agrária. A reportagem e a entrevista com Frei Betto é de Moacir
Assunção e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 19-08-2007.
Eis a entrevista.
Como o sr. avalia o governo Lula na área social?
Há muitos aspectos positivos, como a elevação da renda dos mais pobres,
comprovada recentemente pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Graças ao Bolsa-Família, há mais recursos circulando no interior do País e nas
periferias, bem como maior freqüência de crianças à escola. Porém, lamento que o
projeto original do Fome Zero tenha sido abandonado. Previa-se que cada família
beneficiária ficaria, no máximo, um ano e meio com direito de receber a renda da
União. Tempo suficiente para que ela se emancipasse do programa e passasse a
gerar a própria renda. Previa-se ainda uma ampla participação da sociedade
civil, sobretudo através dos Comitês Gestores. Estes foram erradicados pelo
próprio governo e, por sua vez, o Fome Zero ficou praticamente reduzido a um dos
seus 60 programas de políticas públicas: o Bolsa-Família.
E nas questões ambientais, qual a sua opinião? Recentemente, o sr. criticou
os chamados necrocombustíveis, como chamou o etanol.
Considero exemplar o desempenho da ministra Marina Silva à frente do
Ministério do Meio Ambiente. Mas é preocupante saber que nos Estados do Amazonas
e de Mato Grosso o índice do desmatamento ainda não tenha sido reduzido, ao
contrário do que acontece em outros sete Estados amazônicos. Não descarto o
etanol como fonte alternativa de energia ao petróleo. Repudio é o governo
entregar o desafio aos usineiros, sem criar uma estatal - a exemplo do que fez
Vargas ao criar a Petrobrás - para controlar o plantio da cana e a fabricação do
etanol. E há que explorar outras energias alternativas, como a eólica e a solar,
ampliando a hidrelétrica, antes de se falar em energia nuclear. Temo que a
transformação de grandes áreas de plantio de alimentos em canaviais inflacione o
preço da comida e favoreça a exploração do trabalho escravo e semi-escravo, como
ocorre. É também importante discutir o luxo do transporte individual e investir
no coletivo de qualidade.
O sr. está decepcionado com o governo Lula nesta ou em outras questões?
Minha avaliação do governo, entre aplausos e críticas, está contida em dois
livros recentemente lançados pela Editora Rocco: A Mosca Azul e Calendário do
Poder. Não se trata de decepção. O Brasil e a América Latina são, hoje, melhores
com Lula do que seriam sem ele. Contudo, espero mais deste governo. Espero o
tanto que prometeu e se comprometeu em público: reformas agrária, tributária e
política, maior investimento em educação e saúde e retomada do caráter
emancipatório do Bolsa-Família, com reativação dos Comitês Gestores. E há muito
a aplaudir: a política externa, o controle da inflação, o combate aos crimes de
colarinho branco, o PAC, a defesa dos direitos humanos.
Qual é o futuro político do PT, na sua visão? O partido conseguirá eleger o
próximo presidente?
O PT, às vésperas de seu Congresso Nacional, está diante de grandes desafios,
como reduzir a crescente distância entre o petismo e o lulismo (evitando a
peemedebetização do PT); apurar, enfim, as denúncias de corrupção de alguns de
seus dirigentes e militantes e punir os responsáveis; voltar a se sintonizar com
os movimentos sociais; elaborar uma proposta de nação, evitando trocá-la por um
projeto de eleição; redefinir-se como socialista e explicar o que isso
significa; pressionar o governo Lula a cumprir suas propostas históricas, como a
reforma agrária.
A que atividades o sr. tem se dedicado nos últimos tempos? Pretende
desenvolver algum outro trabalho social no governo?
Se Deus quiser e a literatura me permitir, jamais voltarei ao poder público
ou à iniciativa privada. O que faço hoje é o que pretendo fazer o resto da vida:
escrever, evangelizar, assessorar movimentos populares. É o que me basta e me
faz feliz.
Jornal Estado de S. Paulo
http://www.estadao.com.br/
*Publicado por Nezimar Borges
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