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A morte de Jango / JK, acidente ou atentado?

Local: RJ - 18/01/2008
Fonte: Mair Pena Neto / Urariano Motta
Link: http://www.diretodaredacao.com/

A MORTE DE JANGO

Mair Pena Neto 16/01/2008

Um dos filhos do ex-presidente João Goulart, João Vicente, voltou a tocar em uma ferida que se recusa a fechar: as circunstâncias da morte de seu pai, em dezembro de 1976, oficialmente por enfarte fulminante, em sua fazenda na província de Corrientes, na Argentina. Jango estava exilado há 12 anos, após ser deposto pelo golpe militar.

Embora tenha morrido em casa, deitado em sua cama, ao lado da mulher Maria Tereza, a morte de Jango nunca foi aceita como natural pela família. As ditaduras que dominavam o cone sul estavam articuladas para assassinar seus opositores, onde quer que estivessem, e Jango, mesmo com seu espírito conciliador, era um incômodo para os militares.

João Vicente voltou a invocar a versão de Mario Barreiro Neiva, susposto agente da repressão uruguaia, preso no Rio Grande do Sul, que conta ter participado da morte de Jango, por enevenenamento. O filho de Jango disse que o uruguaio lhe falou que a operação foi autorizada pelo delegado Sergio Fleury e outros dois agentes brasileiros numa viagem a Montevidéu. A família de Jango encaminhou as informações à Procuradoria Geral da República e pediu nova investigação.

Por mais que a versão do agente uruguaio de que a morte de Jango foi tramada pelos serviços secretos do Brasil e do Uruguai, com apoio da CIA, careça de credibilidade, ela não é de todo inverossímil.

No mesmo ano de 1976, quatro meses antes da morte de Jango, morrera o também ex-presidente Juscelino Kubitschek, em um acidente na via Dutra, até hoje alvo de suspeitas. E Jango e JK, as duas figuras mais populares da política do país, estavam articulados na formação da Frente Ampla para a promoção de um processo pacífico de redemocratização do Brasil.

Portanto, existiam condições objetivas para que houvesse interesse em sua morte. Em 1975, em carta ao general João Batista Figueiredo, à época chefe do SNI, o general Manuel Contreras, chefe do serviço secreto chileno de Pinochet, falava da preocupação com o possível triunfo dos democratas nas eleições americanas e o apoio que poderiam prestar aos opositores das ditaduras sul-americanas.

Contreras expressava apoio ao plano de ações coordenadas contra autoridades eclesiásticas e conhecidos políticos, chegando a mencionar nominalmente JK e o ex-ministro de Salvador Allende, Orlando Letelier.

Em setembro do ano seguinte, Letelier morreria em Washington, num atentado que explodiu seu carro, e que teve Contreras apontado como principal responsável. Depois, morre JK e Jango planeja sua volta ao país.

A possibilidade do retorno de Jango era vista com temor pela linha dura, fortemente atuante. Ainda estávamos a cinco anos do atentado a bomba do Riocentro. Em 1976, o ministro do Exército, Sylvio Frota, um expoente da linha dura, dava a ordem para que Jango, caso entrasse no país, fosse "imediatamente preso e conduzido ao quartel da PM, onde ficará em rigorosa incomunicabilidade à disposição da PF."

Jango só voltou ao país dentro de um caixão, mas a causa de sua morte continua insepulta.

JK, ACIDENTE OU ATENTADO?

Urariano Motta Publicada em: 16/01/2008

A recente ação da família de João Goulart, na Procuradoria Geral da República, para que se investigue o envenenamento de Jango, atualiza os anos da Operação Condor. Ora. As mortes de Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda, em um período de 9 meses, já deveriam inspirar em nossa imaginosa imprensa mais que conjeturas. Assim como Deus, a história não joga dados. Aos dados que não se jogam, portanto. Nos limites de JK.

1. Em 1975, o jornalista Jack Anderson revelou que o general chileno Manuel Contreras qualificou Kubitschek como uma ameaça, em uma carta enviada ao ditador João Figueiredo. Bueno. Contreras era chefe do Serviço de Inteligência do regime do Augusto Pinochet, responsável pela morte do ex-chanceler chileno socialista Orlando Letelier, ocorrida em 1976 em Washington, e atribuída à Operação Condor.

2. Segundo o cientista político Luiz Roberto da Costa Jr, em artigo no Observatório da Imprensa, ao mencionar as circunstâncias da morte de JK: “Não houve choque com o ônibus da Cometa, pois este estava atrás da Caravan verde. Testemunhas do ônibus que afirmam ter visto o clarão (‘sol’, como quer a versão oficial) e ouvido a explosão (‘batida’, como quer a versão oficial) não depuseram. O Opala periciado em 1996 não corresponde ao Opala do acidente em 1976, o chassi é diferente”.

3. Na revista Época de 29.3.1999, sob o título de Um tiro na história: “Depois de 35 anos trabalhando como perito criminal na Polícia Civil de Minas Gerais, o historiador Alberto Carlos Minas está se aposentando e decidiu fazer uma revelação: ‘Eu vi um buraco de bala no crânio do motorista Geraldo Ribeiro’. Era Geraldo Ribeiro quem dirigia o Opala do ex-presidente Juscelino Kubitschek no dia 22 de agosto de 1976, quando bateu num ônibus na Via Dutra e ambos morreram.... Segundo Minas, quando o corpo de Geraldo Ribeiro foi exumado, há pouco menos de três anos, o crânio estava inteiro e tinha um buraco. ‘De bala’, garante. ‘Depois que vi isso não me deixaram entrar na sala novamente’ ”.

4. E mais, do mesmo Carlos Alberto, em uma rápida entrevista: “As fotos das vítimas sumiram. Em 1996 o processo foi reaberto, mas jamais poderia ter prescrito. A família do motorista nunca viu o corpo dele. Eu era o perito do caso e não pude acompanhar de perto a exumação dos corpos. Quando levantaram a ossada do Geraldo Ribeiro, vi um buraco de bala no crânio dele... Do tamanho da tampa de uma caneta, de cerca de 7 milímetros. O crânio estava íntegro e intacto. Eu o vi inteiro na minha frente, ele não estava esfacelado como depois apareceu. Podem dizer que eu estava enganado quanto ao buraco, mas, se eu estiver errado, como eles explicam um objeto metálico dentro do crânio do Geraldo? Por que o crânio estava fragmentado depois dos exames?”.

5. Em livro que me foi enviado por Maria de Lourdes Ribeiro, filha do motorista e amigo de JK, há o laudo número 12.31/96, do IML de Minas Gerais. Nele se escreve: “... fragmento metálico de forma cilindro-cônica, medindo sete milímetros de comprimento e diâmetro médio de dois milímetros, revelando-se como fragmento de prego enferrujado e corroído, recolhido do interior do crânio...”.

6. Note-se a passagem especiosa e esperta de bala para prego. E mais: uma coisa é um prego dentro de um crânio, ali depositado “em período posterior à destruição das partes moles, provavelmente através de forames da base craniana”, nos termos e imaginação do laudo exato do IML Outra coisa é um buraco no crânio, criado pelo acaso desse prego de Deus.

Dados como os acima agora voltam. Em relação à Operação Condor, a história ainda está rolando os dados.

*Publicado por Nezimar Borges

 

LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA

Cientista político, professor emérito da Universidade de Brasília e autor de "As Relações Perigosas: Brasil-Estados Unidos de Collor a Lula, 1990-2004", "Brasil, Argentina e Estados Unidos" e "De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina". Leia alguns de seus artigos AQUI>>

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