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Novo núcleo de poder se firma

Um novo núcleo do poder, sem candidatos a presidente em 2010 e com um perfil mais moderado que o “núcleo duro”, que prevaleceu no primeiro mandato, instalou-se em Brasília em torno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O novo núcleo tem mais gerentes do que políticos e tirou, do Palácio do Planalto, as disputas internas do PT, o partido do presidente. Seu primeiro teste é lidar com a crise do setor aéreo, agravada pela tragédia do vôo 3054 da TAM.

O grupo de ministros e assessores que integram esse núcleo, conhecido formalmente como “coordenação política” do governo, formou-se definitivamente a partir do caos aéreo. Em março último, uma rebelião de controladores de vôo apanhou o governo inteiramente desarticulado para tratar da situação. O presidente Lula estava a caminho de Washington, para uma reunião com George Bush, e o único ministro civil em Brasília era Paulo Bernardo (Planejamento), destacado para negociar com os amotinados. O resultado foi um desastre, do ponto de vista administrativo e político, com arranhões na imagem do governo.

Dez meses após o choque de um boeing da Gol com um Legacy, o acidente com o vôo 3054 da TAM, com um número ainda maior de vítimas (199), deixou o Palácio do Planalto paralisado. O governo não tinha certeza de nada: se o problema fora na pista do aeroporto de Congonhas, o que colocava o acidente no colo do presidente, ou se fora falha do piloto ou de equipamento. Mas já havia um mínimo de articulação entre os chamados ministros da casa, um novo núcleo dirigente que foi capaz de dar respostas à situação, ao longo dos dias seguintes. Até mesmo o distanciamento do Palácio do Planalto no primeiro dia foi calculado.

Desde que o antigo “núcleo duro” se desfez, é a primeira vez que Lula reúne à sua volta um grupo de conselheiros que não hesitam em expressar ao presidente opiniões que às vezes ele não gostaria de ouvir. A mudança foi para melhor, segundo a avaliação do próprio Lula. O grupo, segundo o presidente, “está mais leve”, bem diferente daquele que reunia José Dirceu, Antonio Palocci, Luiz Gushiken. Dirceu e Palocci disputavam poder e eram dois candidatos, dentro do Palácio do Planalto, à sucessão de Lula. Dirceu e Gushiken eram inimigos figadais na briga para ver quem influenciava mais o chefe.

Atualmente, a não ser por uma ou outra referência à Dilma Rousseff (Casa Civil), não há no grupo de conselheiros presidenciais candidatos em potencial à Presidência. Dilma se dedica em tempo integral ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e praticamente deixou os demais afazeres da Casa Civil nas mãos da secretária-executiva Erenice Guerra. A idéia de que ela seja candidata em 2010 é do próprio Lula. Portanto, seu projeto político está nas mãos do presidente, que avalia que Dilma será uma candidata viável em 2010 somente se tirar as obras do PAC do papel.

Uma possível rivalidade, dentro do novo núcleo, vem sendo contornada. Paulo Bernardo, do Planejamento, e Dilma divergem na área econômica, mas “se completam”, segundo um dos integrantes do grupo. Bernardo toca o Orçamento e trabalha para viabilizar os recursos de que Dilma necessita para tocar os investimentos públicos. Bernardo, contam assessores do presidente, aprendeu a lidar com a ministra, que tem pavio curto e costuma tratar colegas e assessores aos berros.

É sabido também que Bernardo e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, não comungam das mesmas idéias sobre economia. Lula estimula a divergência entre eles, o que, segundo um assessor, o ajuda a tomar decisões. Um episódio recente - a definição da meta de inflação para 2009 - mostrou que, no novo ambiente que predomina no Planalto, os ministros estão evitando acirrar dissensões e expor o presidente.

Na véspera da reunião do Conselho Monetário Nacional que definiu a meta de 2009, Lula chamou Bernardo e Mantega para uma conversa no Palácio. Vendo que o ministro do Planejamento, além do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, queriam fixar a meta em 4% e o ministro da Fazenda insistia em 4,5%, Lula sugeriu uma solução intermediária - 4,25%. Mantega, apesar disso, perseverou na defesa dos 4,5%. Preocupado em não enfraquecer nem um dos dois auxiliares, o presidente ordenou: “Resolvam o que é melhor para o país”. Bernardo percebeu que, se a decisão fosse para uma votação pura e simples, Mantega sairia perdendo, uma vez que Meirelles queria 4%. Decidiu, então, votar por 4,5%. Seu gesto foi entendido como uma forma de não melindrar o colega da Fazenda e, assim, de não criar fissuras no núcleo do governo.

O ministro Walfrido dos Mares Guia, responsável pela articulação política, traz para as reuniões de coordenação as notícias sobre os humores do Congresso, discute o que precisa ser feito, mas também dá palpites sobre assuntos variados. Empresário bem-sucedido, Walfrido fala de economia com o presidente, fazendo, quando necessário, um contraponto aos críticos da política econômica. Recentemente, quando cresceu a cantilena contra a política cambial, o ministro explicou a Lula que a perda de valor do dólar é um fenômeno mundial e que o real está forte, em grande medida, por causa dos méritos da política econômica, que está atraindo uma enxurrada de dólares ao país e derrubando a cotação da moeda americana. Coube a Walfrido também chamar a atenção do presidente para o ingresso recorde de investimento estrangeiro direto.

Nas reuniões do núcleo, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, também vai além dos comentários sobre economia. Numa das reuniões para tratar da crise provocada pelo acidente da TAM, a discussão enveredou sobre as reações da população, que estariam localizadas na classe média. Mantega interveio: “Há crescimento no país, mas ele não chegou à classe média”. Walfrido tentou contemporizar, dizendo que já não havia “mais engenheiros no mercado” para contratar, sinal de que o crescimento também começava a chegar à classe média.

Uma mudança na secretaria-particular de Lula liberou Gilberto Carvalho para ações políticas. Nas reuniões do núcleo, ele escuta mais do que fala, o que deixa para fazer depois, a sós com Lula. Assessor da estrita confiança do presidente, Carvalho tem sido usado para missões externas. É hoje o principal vínculo do presidente com o PT.

No dia em que Renan Calheiros foi cobrar apoio de Lula para se safar do processo no Senado por quebra do decoro parlamentar, Carvalho estava reunido na ante-sala do presidente com lideranças petistas no Senado. Quando Renan foi embora, levou-os para uma conversa com o presidente. Os senadores saíram dali dizendo que Renan não poderia sofrer pré-julgamento. “Quando fala com alguém, Gilberto é o presidente da República”, diz um ministro da coordenação.

O núcleo dirigente ganhou há quatro meses um novo integrante - o jornalista Franklin Martins, que assumiu a Secretaria de Comunicação com a missão de implantar uma rede de televisão pública e distender as relações de Lula com a imprensa. Hoje, ele é muito mais do que isso. Transformou-se num conselheiro do presidente, muito embora, em geral, não despache com ele por mais de 15 minutos diários - além de participar das reuniões de coordenação. “Ele tem habilidade, a confiança do presidente, é sensato, de esquerda e está conquistando seu espaço político”, diz um amigo de Lula. “Não se oferece, mas toda vez que é solicitado a dar uma opinião, é muito consistente.”

Na reunião realizada ainda com o prédio da TAM em chamas, foi Franklin quem balizou a reação do governo, com o apoio de outros ministros. Decisão mais tarde criticada, Lula não apareceu para se solidarizar com as vítimas, tarefa que coube ao porta-voz, que deixou mais dúvidas do que esclarecimentos. Inseguro, sem informações, incompatibilizado com parte do setor aéreo - como os controladores de tráfego aéreo -, o governo decidiu espelhar-se no que aconteceu no acidente da Gol, 10 meses antes, e esperar por informações mais precisas, antes de agir. Num clima tenso, o governo buscava culpados, sendo que o governo paulista parecia o candidato perfeito e acabado por causa de um laudo do IPT que supostamente teria avalizado a liberação da pista (informação que não era inteiramente verdadeira).

O clima de beligerância foi aos poucos reduzido ao longo da manhã do dia seguinte, quando o núcleo dirigente não se esquivou de discutir as próprias responsabilidades do governo no acidente. Paulo Bernardo, um dos ministros mais leais a Lula, foi um dos mais críticos. Walfrido esvaziou os ensaios de ataque à oposição, auxiliado por informações que vinham do Congresso. A ordem passou a ser “despolitizar” o acidente. E agir. Ali, surgiu o consenso de que não havia mais a menor condição política para o ministro Waldir Pires permanecer no cargo. Também foi decidida a mensagem de Lula à Nação e mencionou-se, pela primeira vez, o nome do ex-presidente do Supremo Nelson Jobim para o lugar de Pires. Na defensiva, o governo passou a tentar retomar o controle da situação, sob a orientação de um novo núcleo decisório que, a depender da atuação do recém-empossado ministro da Defesa, ainda pode ganhar mais um integrante de peso.

Valor Econômico

*Publicado por Nezimar Borges

 

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