Um trágico 11 de Setembro
Por Mariana Vidal - vidal@fazendomedia.com
Onze de setembro. Uma data para a História, sem dúvida. Mas que história nos vem à mente quando pensamos nesta data? Provavelmente a dos heróicos bombeiros de Nova York – exaustivamente televisionada pela grande mídia – aviões terroristas nos céus dos Estados Unidos, as torres gêmeas em escombros.
Mas nesse lado de cá da América, há exatos 32 anos, aviões terroristas também rasgaram os céus do Chile e reduziram a escombros o Palácio La Moneda. Esse onze de setembro anda meio esquecido, afinal, basta uma rápida conferida nos jornais e noticiários de TV para se constatar que o Brasil está mais próximo dos Estados Unidos e da Europa que dos demais países da América Latina.
Em 11 de setembro de 1973, Salvador Allende, presidente socialista eleito pelo povo chileno, sofreu golpe de Estado e foi assassinado com o bombardeio do palácio presidencial pelos Hawker Hunter (jatos estadunidenses ou “urubus de aço pintados de camuflado com foguetes pendurados nas asas”, como definiu Alfredo Sirkis, autor do livro Roleta Chilena).
E, recordando o triste episódio, é importante lembrar que, não por acaso, as rádios Corporación, Portales e Nacional foram bombardeadas antes do Palácio La Moneda. Mais que nunca, num continente marcado por profunda desigualdade social onde a maioria da população não tem acesso à internet, a televisão instalou-se como um veículo alienante a serviço das elites e grande parte dos alfabetizados não sabem interpretar o que lêem, o rádio faz-se necessário como arma política e instrumento de transformação social.
E foi pela Radio Magallanes que Allende se despediu do povo que o elegeu e avisou que a nação estava sendo atacada. Segue a íntegra de seu discurso, extraído do livro Roleta Chilena.
“Compatriotas: Esta será seguramente a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A aviação bombardeou as antenas de Radio Portales e Radio Corporación. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção, e elas serão o castigo moral para os que traíram o juramento feito: soldados de Chile, comandantes-em-chefe titulares e mais o almirante Merino, que se autodesignou, e o señor Mendoza, esse general rasteiro, que ontem manifestara-me sua fidelidade e lealdade ao governo.
Frente a estes fatos, só me cabe dizer aos trabalhadores: não vou renunciar!
Colocado neste transe histórico, pagarei com minha vida a lealdade do povo, e digo-lhes que tenho certeza que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos não poderá ser apagada definitivamente. Eles têm a força, mas não se detêm processos sociais pelo crime e pela força. A História é nossa, ela é feita pelos povos.
Trabalhadores da minha pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram e a confiança que depositaram num homem que foi apenas intérprete dos seus anseios de justiça, que empenhou sua palavra no respeito à Constituição e à lei, e que a respeitou. Neste momento definitivo, o derradeiro em que posso me dirigir a vocês, peço que aproveitem a lição. O capital estrangeiro, o imperialismo unido à reação, criou o clima para que as Forças Armadas rompessem uma tradição que lhes ensinou Schneider e que reafirmou o comandante Anaya, vítimas do mesmo setor social que hoje está nas suas casas esperando através de mão alheia reconquistar o poder, para seguir defendendo seus privilégios.
Me dirijo sobretudo à modesta mulher da nossa terra, à camponesa que acreditou em nós, à operaria que trabalhou mais, à mãe que soube da nossa preocupação pelas crianças. Me dirijo aos profissionais patriotas que há dias continuam trabalhando contra a sedição auspiciada por órgãos de classe, para defender as vantagens que a sociedade capitalista deu a uns poucos.
Me dirijo à juventude, àqueles que cantaram, que entregaram sua alegria e seu espírito de luta.
Me dirijo ao homem chileno, operário, camponês, intelectual, àqueles que serão perseguidos porque em nosso país o fascismo já se faz presente há algum tempo em atentados terroristas, sabotagens de estradas de ferro e pontes, oleodutos e gasodutos.
Frente ao silêncio dos que tinham a obrigação – interrupção momentânea da transmissão de Radio Magallanes - ...a que estavam submetidos. A História os julgará.
Seguramente, Radio Magallanes será calada e o metal tranqüilo da minha voz não chegará mais a vocês...
Não importa ... Não importa, vocês seguirão me ouvindo, estarei sempre junto de vocês, pelo menos minha lembrança será de um homem digno, leal à lealdade dos trabalhadores.
O povo deve se defender, mas não se sacrificar. Não deve deixar-se arrasar nem crivar de balas, mas tampouco pode se deixar humilhar.
Trabalhadores da minha pátria: tenho fé no Chile e no seu destino. Este momento cinzento e amargo, onde a traição pretende se impor, será superado. Sigam sabendo que muito mais cedo do que tarde de novo se abrirão as grandes avenidas por onde passará o homem digno que quer construir uma sociedade melhor...
Viva Chile, viva o povo, vivam os trabalhadores... Estas são minhas últimas palavras ... Tenho certeza de que meu sacrifício não será em vão, tenho certeza de que pelo menos será uma lição moral que castigará a felonia, a covardia e a traição...".
O locutor de Radio Magallanes soluça ao retomar a palavra. Avisa que vão suspender as transmissões, estão sendo atacados.
*Publicado por Nezimar Borges
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