Ecologia e Socialismo
16 de Agosto de 2007
A proposta do Protocolo de Kyoto é absolutamente insuficiente para conter
o aquecimento global e transforma o direito de poluir em mercadoria.
Michael Löwy *
Quando o tema é ecologia e socialismo, o primeiro a ser considerado é até que
ponto a razão capitalista está levando o nosso pequeno planeta - e os seres
vivos que o habitam - a uma situação catastrófica do ponto de vista do
meio-ambiente, das condições de sobrevivência da vida humana e da vida em geral.
Aproxima-se um desastre de proporções ainda incalculáveis e os sinais disso já
são visíveis.
Atualmente estão se produzindo tempestades tropicais que já assolaram regiões
dos Estados Unidos. Especialistas no tema acenam para a possibilidade de que
esses desastres chamados naturais tenham relação com o aquecimento global do
planeta e das águas oceânicas.
Os dramáticos resultados do desequilíbrio ecológico provocado pela lógica
destrutiva da acumulação capitalista são agora evidentes, e os sofreremos ainda
mais dentro de dois, dez, cinqüenta anos. Não é uma questão para ser resolvida
dentro de um século, nem sequer para trinta anos, é para agora; portanto, requer
uma urgente resposta política, ética e humana.
Como a oligarquia dominante está enfrentando estes problemas? Sua resposta é
lamentável. Os setores ecologicamente mais avançados do capital internacional -
a burguesia européia e outras, como os japoneses - chegaram a um acordo para
encarar o problema que consideravam de maior urgência, que é o do efeito estufa:
o chamado Protocolo de Kyoto.
Daqui a alguns anos, esse efeito estufa vai provocar o degelo nas zonas
glaciais, com o que o nível do mar vai subir, inundando várias cidades
costeiras. Este é um cenário bastante provável, e pode estar começando agora
mesmo, com o exemplo mais conhecido da tragédia de Nova Orleans.
A resposta dos capitalistas mais conscientes, mais abertos à questão
ecológica, se resume no Protocolo de Kyoto, que é absolutamente insuficiente. O
Protocolo busca, eventualmente, estabilizar o efeito estufa para dentro de 10 ou
15 anos, com base num mecanismo absurdo chamado “mercado dos direitos de
poluir”. Os países mais ricos seguem poluindo o mundo, mas baseados na
possibilidade de comprar dos países pobres o direito de poluir o que eles não
utilizam. Transformam o direito de poluir em mercadoria. Deste modo, as nações
continuam poluindo: tanto quanto podem ou estejam dispostos a pagar. Isso é o
mais avançado que a elite dominante conseguiu produzir.
Esse acordo mínimo, vazio, falido, é perfeitamente incapaz de responder ao
problema: os Estados Unidos, que são o país mais poluidor do mundo, se negam a
assinar o Tratado de Kyoto e, enquanto isso, seguem desenvolvendo sua economia
na lógica da destruição e da poluição.
O ecossocialismo
Necessitamos pensar em soluções radicais para esse problema. A solução de
Kyoto é absolutamente insuficiente e rechaçada pelos Estados Unidos. Se vamos
pensar em termos de soluções radicais, necessitamos pensar na questão do
socialismo. Por isso, existe um movimento, uma idéia, um programa, que é o
ecossocialismo.
O ecossocialismo parte de algumas idéias fundamentais de Marx sobre a lógica
do capital e de alguns dos descobrimentos, avanços e conquistas científicas do
movimento ecológico e da ciência ecológica. Marx não havia colocado ainda a
questão da ecologia em sua análise porque, na sua época, a questão era muito
pouco evidente. Mas ele afirma, em O Capital, que o sistema capitalista esgota
as forças do trabalhador e as forças da Terra. Traça um paralelo entre o
esgotamento do trabalhador e o esgotamento do planeta. Portanto, o
desenvolvimento do capitalismo acaba com a natureza.
As atuais fontes de energia do capitalismo são nocivas e perigosas; o que é
perigoso para o meio-ambiente, também o é para a humanidade: quer sejam as
energias fósseis, em particular o petróleo que vai acabar dentro de algumas
décadas - e se sabe matematicamente que vai acabar -, quer seja a energia
atômica, que é uma falsa alternativa, pois o lixo nuclear é um problema
gigantesco, muito perigoso, e que ninguém consegue resolver.
Então, a transformação revolucionária das forças produtivas passa pela
questão das novas fontes de energia, pelas chamadas fontes de energia
renováveis. No lugar do petróleo poluidor e da energia nuclear devastadora,
necessita-se buscar energias renováveis, como a energia solar. Mas ela não
interessa aos capitalistas, porque é gratuita, difícil de vender e não é
mercadoria.
O capitalismo não se interessa pela energia solar, não investe em seu
desenvolvimento. Obviamente, do ponto de vista socialista, é absolutamente
prioritária a pesquisa científica e o desenvolvimento tecnológico da energia
solar. Não é a única, mas, com certeza terá um papel central no processo de
transformação radical do projeto ecossocialista.
Por isso, alguns velhos socialistas relacionam diretamente nossa utopia
revolucionária, o socialismo, o comunismo, com o Sol, com a energia solar. Essa
expressão de “comunismo solar” já aparece em alguns trabalhos de
ecossocialistas. Haveria uma espécie de profunda afinidade entre a energia solar
e o projeto comunista.
Os balanços negativos
Outro tema que deve ser examinado é o balanço negativo do que foi, a partir
da visão ecológica, a experiência do chamado “socialismo real” da União
Soviética e outros Estados burocráticos. Do ponto de vista da transformação do
aparelho produtivo, que avançou muito pouco, os resultados foram enormes
catástrofes ecológicas. Essa experiência é um caminho que nós não devemos
seguir.
Outro balanço negativo é o do reformismo verde. Os partidos verdes que se
formaram nos anos sessenta e setenta, no começo com certa perspectiva radical,
terminaram quase todos, entrando em governos de centro-esquerda e convertendo-se
ao social-liberalismo. As soluções que se requerem não passam por uma reforma
ecológica aqui ou acolá; isso não resolve nenhum dos problemas. O balanço desse
eco-reformismo verde é, portanto, bastante decepcionante.
Necessitamos levantar esta utopia revolucionária, essa possibilidade que é o
ecossocialismo, que é o comunismo solar. A probabilidade de uma transformação
radical da sociedade implica a expropriação do Capital. Mas, ficar apenas na
expropriação dos capitalistas não enfrentará a questão do meio-ambiente.
A perspectiva ecológica, compreendida na sua radicalidade como a própria
perspectiva socialista, implica a superação do capitalismo, a possibilidade de
uma sociedade mais humana, justa, igualitária, democrática e capaz de
estabelecer uma relação harmoniosa dos seres humanos entre si e com o
meio-ambiente, com a natureza.
Não basta estabelecer este objetivo, essa utopia revolucionária. É preciso
começar a construir esse futuro desde já. É necessário participar de todas as
lutas, inclusive das mais modestas; como, por exemplo, a de uma comunidade que
se defende contra uma empresa poluidora; ou a defesa de uma parte da natureza
que esteja ameaçada por um projeto comercial destrutivo.
É importante ir construindo a relação entre as lutas sociais e as ambientais,
pois elas tendem a concordar, unidas ao redor de objetivos comuns. Por exemplo,
as comunidades indígenas ou camponesas que enfrentam as multinacionais
desenvolvem um combate antiimperialista, mas também social e ecológico. A luta
pelo transporte coletivo moderno e gratuito é um combate para avançar na solução
do problema da poluição do ar. Conquistar uma rede de transporte público
gratuito significa que a circulação de automóveis vai diminuir, que a poluição
será menor, que o ar se tornará mais respirável.
Necessitamos perceber como, na prática, com essa perspectiva radical, as
batalhas diárias vão se combinando, convergindo, articulando.
Hoje o ecossocialismo é não só trabalho de pensadores ou revistas
especializadas, está presente nos movimentos sociais; mesmo que alguns deles não
se chamem ecologistas ou socialistas, está presente no espírito, na
radicalidade, na dinâmica dos movimentos sociais, em particular nas nações do
Terceiro Mundo como a Índia, os países africanos e os latino-americanos.
Mas alguns ideólogos da ecologia colocam falsos problemas. Por exemplo, que a
degradação do meio-ambiente é culpa de nosso consumismo, que cada um de nós
consome muito, que é necessário reduzir o consumo para proteger o meio-ambiente.
Isso responsabiliza os indivíduos e redime o sistema. É verdade que o consumo
dos indivíduos é um problema, mas o consumo do sistema capitalista, do
militarismo capitalista, da lógica de acumulação do capital, é muito maior.
Então, em vez de apregoar a autolimitação individual, é necessário chamar à
organização para lutar contra o sistema capitalista; essa deve ser nossa
resposta.
Outra visão equivocada é aquela que declara que a culpa é do ser humano, que
mediante o antropocentrismo e o humanismo se pôs no centro e desprezou os outros
seres vivos. Creio que esta concepção causa falsos problemas. Porque é do
interesse da humanidade, da sobrevivência dos seres humanos, dos homens e das
mulheres, preservar o meio do qual dependem inevitavelmente.
Não se trata de contrapor a sobrevivência humana à de outras espécies,
trata-se de entender que elas são inseparáveis e que nossa sobrevivência como
seres humanos depende da salvaguarda do equilíbrio ecológico e da diversidade
das espécies; portanto, desde o ecossocialismo estaríamos falando de um
humanismo biocentrista.
Michael Löwy é cientista social, leciona na Escola de Altos
Estudos em Ciências Sociais da Universidad de Paris. É autor de As aventuras de
Karl Marx contra o Barão de Münchhausen (Cortez Editora, 1998) e A estrela da
manhã. Surrealismo e marxismo. (Civilização Brasileira, 2002), entre outras
obras.
Enlace
*Publicado por Nezimar Borges
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