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Na Venezuela, jornais são livres para comparar presidente eleito três vezes a ditador delirante que prendeu, matou e torturou

Local: VENEZUELA - 02/12/2007
Fonte: LUIZ AZENHA
Link: http://viomundo.globo.com

 

CARACAS - Eles poderiam trocar o disco. Por exemplo, dizer que existem traços de um culto à personalidade de Hugo Chávez na Venezuela, o que é fato; que em alguns anúncios e cartazes pagos com o dinheiro público (da PDVSA), por exemplo, a foto do presidente aparece com destaque; que o slogan oficial é "A Venezuela agora é de todos", parecido com o "Brasil, um país de todos", extraindo disso todos os dividendos políticos possíveis de uma associação entre Chávez e Lula.

Dou essa dica uma vez que essa história da falta de liberdade de imprensa na Venezuela não cola. Ah, já sei. A assinatura do El Nacional deu pau e não chega mais na sede da TV Globo. Só pode ser isso. Neste domingo, o jornal dá editorial de capa dizendo "Decidimos o futuro" e pedindo que todos votem. Não pede abertamente o NÃO, já que também aqui na Venezuela os jornais se dizem "apartidários" e "neutros". Porém, a matéria principal da página 3, espaço nobre, não trata das eleições de hoje. Essa foi para a página 4.

Curiosamente, os editores do El Nacional escolheram o seguinte assunto para a página nobre da edição de um dia histórico para o país: "Os venezuelanos rechaçaram os delírios do último ditador".

Ilustrada com o quebra-quebra nas ruas, no dia 4 de novembro de 1957, depois que o general Marcos Pérez Jimenez, que assumiu em um golpe e governou como ditador de fato - com presos políticos, tortura e morte - propôs suspender as eleições de 1957 e se submeter a um plebiscito. Sacaram a do jornal?

Estabelecer uma ligação entre Marcos Pérez Jimenez, que não foi eleito, torturou, prendeu e matou - e Hugo Chávez, eleito três vezes presidente pela maioria dos venezuelanos. E fazer isso através da menção a um plebiscito que não tem qualquer relação histórica com o de hoje. O de hoje está previsto na Constituição venezuelana de 1999, que também dá aos eleitores o direito de afastar, por plebiscito, qualquer governante depois da metade do mandato. Foi isso o que aconteceu com Chávez - e ele foi mantido com 59% dos votos.

Qual o delírio do general ditador? Em 1957, diante do Congresso, Pérez Jimezes disse: "A Venezuela é a primeira potência da América Latina". Não era. Chávez tem dito que pretende tornar a Venezuela uma potência. Pode, sim, ser um delírio, ainda que ele esteja montado na segunda maior reserva de petróleo do mundo a 100 dólares por barril.

Ele pode ser louco, delirante, narcisista, incompetente, o que quer que seja. Tudo isso está sujeito a investigação. Mas a verdade factual, não se esqueçam, demonstra que a Venezuela É, HOJE, UMA DEMOCRACIA, que Chávez foi eleito pela maioria e que cabe aos venezuelanos decidirem se querem ou não mudar a Constituição. Se o NÃO ganhar, que Chávez respeite as regras do jogo.

Na página 5, o próprio jornal publica os resultados das 11 eleições realizadas no país desde 1998, "todas vencidas pelo oficialismo". Ali está a verdade factual: 63,45% dos votos em 1998; 59,76% em 2002 e 62,84% em 2006.

Agradeçam à mídia brasileira, que ainda não chegou a esse ponto. É curioso, porém: a edição escrita da Folha deste domingo destaca que 65% dos brasileiros são contrários ao terceiro mandato de Lula, que não está previsto e não passa de um factóide, embora o jornal não tenha se dedicado a combater o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso.

Por outro lado, na internet a FolhaOnline destaca que Lula tem apoio de 50% da população, ou seja, da metade dos brasileiros. Presumimos dái que 50% dos brasileiros não apóiam Lula. Mas quem se dá ao trabalho de ir além da manchete descobre que 35% dos brasileiros consideram o governo Lula regular, ou seja, podem não apoiar, mas também não se dizem contra. São 85% de ótimo, bom e regular. E 14% de péssimo. Nestes 14% estão os leitores da Folha, presumo. A cobertura completa, em vídeo, do REFERENDO NA VENEZUELA ESTÁ AQUI. Publicado em 2 de dezembro de 2007

*Publicado por Nezimar Borges

 

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