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Rir ou chorar? Venezuela denuncia "Operação Alicate" com base em suposto documento da CIA

Local: São Paulo
Fonte: Luiz Azenha
Link: http://viomundo.globo.com/

Parece um filme de espionagem. Propaganda e contra-propaganda. O governo venezuelano "vazou" um documento que teria sido escrito no dia 20 de novembro na embaixada dos Estados Unidos em Caracas e enviado ao diretor da CIA, nos Estados Unidos. Ninguém explicou como foi obtido.

De qualquer forma, está causando sensação entre os internautas, já que foi publicado e é debatido em sites da Venezuela e de vários países. Chavistas dizem que o documento prova envolvimento dos Estados Unidos com as mobilizações contra a aprovação da reforma constitucional. A oposição diz que é peça de ficção. Jornalistas venezuelanos afirmam que informações contidas no documento podem ser verdadeiras e teriam o objetivo de intimidar pessoas e entidades cujos nomes aparecem no texto.

O documento original não apareceu, apenas uma tradução em espanhol. Curiosamente, hoje, um dos jornais mais influentes dos Estados Unidos, o "Washington Post", dá destaque à repentina mudança no cenário eleitoral venezuelano, baseando-se no fato de que Chávez perdeu aliados importantes nas últimas semanas, do ex-general Raúl Baduel e do partido aliado Podemos.

Será que Hugo Chávez, diante da possibilidade de derrota, volta a usar o inimigo externo? O envolvimento dos Estados Unidos com a política interna da Venezuela é confesso e vem desde 2000, inclusive com apoio ao golpe de abril de 2002.

Antecipo que a tradução que fiz do suposto documento, do espanhol para o português, é imperfeita e sujeita a erros, mas nada que altere fundamentalmente o conteúdo. Reproduzo abaixo, como se fosse peça de uma grande teoria conspiratória, parte do que está circulando na internet. Os fatos podem confirmá-lo ou desmentí-lo:

"MEMORANDO CONFIDENCIAL

De: Michael Middleton Steere, Embaixada dos Estados Unidos

Para: Michael Hayden, Diretor da Central de Inteligência Americana

Assunto: Fase final da Operação Alicate

Levando em consideração os documentos anteriores sobre a Operação Alicate, que coordena o HUMINT [Human Intelligence, setor de inteligência humana] de acordo com a ordem 3623-g-0217, cumpro informá-lo o status atual da operação, que se encontra em fase final.

De forma resumida, apresento os diversos cenários descritos nos memorandos anteriores, os quais nas últimas semanas adquiriram novos contornos:

Cenário Eleitoral

Tal como informei no memorando anterior, as tendências de intenções de voto se mantém. Até agora as distintas medições realizadas, incluídas as nossas, dão ao SIM uma vantagem entre 10 e 13 pontos (57% SIM, 44% NÃO). Tal estimativa percentual se dá num marco de abstenção em torno de 60% dos eleitores inscritos. Nossa análise observa que essa é uma tendência irreversível no curto prazo, ou seja, nos próximos 15 dias não se pode modificar de maneira significativa.

Por outro lado, a campanha publicitária promovida pelo Plano e as deserções nas fileiras governamentais (Podemos-Baduel, por exemplo) conseguiram tirar de Chávez seis pontos em sua posição inicial, tal como não havia acontecido em outras campanhas, quando ele partiu com uma vantagem de 15 a 20%.

[...]

Nesse sentido, este escritório recomenda executar o previsto no plano da Operação Alicate, no caso de consolidar-se nos próximos dias este cenário. Como é de seu conhecimento temos proposto um elenco de respostas, dentre as quais estão:

- Impedir o plebiscito ou desconhecer o resultado enquanto, ao mesmo tempo, se faz a campanha do NÃO.

Em termos de orientação tática, pode parecer contraditório, mas para o momento político conjuntural é necessária a sua combinação. Nos dias que faltam podemos fortalecer as atividades que podem impedir o plebiscito e ao mesmo tempo preparar as condições para desconhecer os resultados.

No caso de não reconhecimento dos resultados, é importante a criação de uma matriz de opinião sobre a vitória do NÃO e em tal sentido continuaremos trabalhando com as empresas de pesquisas que contratamos. Ao mesmo tempo que mantemos a campanha pelo NÃO, trabalhamos na crítica ao CNE [TRE venezuelano] e sua conexão com uma série de fraudes, o que gera na opinião pública a sensação de fraude. Nesse sentido temos insistido nas inconsistências do registro eleitoral permanente, mantivemos contato com uma equipe de especialistas de universidades, que por seu prestígio acadêmico dá credibilidade à teoria de uma manipulação de dados por parte do CNE, além de lançar dúvidas sobre a tinta [usada para marcar quem já votou] e o comportamento das máquinas de votação.

Nesse contexto, confundir o ato de votação no dia 2 de dezembro se integra com a campanha do VOTA e PERMANEÇA [pela qual os antichavistas não se dispersariam], para produzir uma implosão que nos permita executar a ordem já estabelecida na Operação Alicate. Neste último aspecto combinamos com forças aliadas dar informações nas primeiras horas da tarde de domingo, 2 de dezembro, explorando as sondagens preliminares nas mesas de votação. A operação montada requer uma coordenação dos meios de comunicação a nível internacional, de acordo com o combinado.

Como explicamos em outro documento, trabalhar com estes dois cenários não deixa de ser politicamente perigoso, pela divisão que existe nos grupos opositores. Apesar de nosso esforço para unir a todos os setores, há opiniões contrárias a alguns aspectos de nosso Plano. Fizemos contatos e reuniões com o Primeiro Justiça e Novo Tempo e parece que não vão apoiar nossa estratégia. Ao contrário do Comando Nacional de Resistência e da Ação Democrática, com quem temos trabalhado as duas opções. Aqui é necessário ressaltar o papel que vem sendo desempenhado por Peña Esclusa e Guyon Cellis, de acordo com a coordenação prévia de Richard Nazario, com o objetivo de disseminar em todo o território nacional pequenos focos de protesto, que gerem um clima de ingovernabilidade, permitindo a revolta geral de uma parte substancial da população.

Desta forma, considero conveniente que a operação seja canalizada para o escritório, evitando complicações para a Embaixada.

Tarefas imediatas:

A combinação das atividades anteriores (impedir o plebiscito, denunciar a fraude e ocupar as ruas) resultará no encerramento vitorioso de nossa operação se sustentarmos o esforço diplomático para isolar ainda mais Chávez no terreno internacional, unir a oposição e buscar uma aliança dos abstencionistas com os que votam pelo NÃO; aumentar a pressão nas ruas nos dias que antecedem o 2 de dezembro; executar ações militares de apoio às mobilizações e tarefas propagandísticas; e completar a preparação operacional de nossas forças.

O apoio das equipes externas vindas do país verde e azul está coordenado, a ação marítima do azul está prevista e a fronteira com o verde, nos pontos determinados, está livre.

Seguem as tarefas realizadas para cumprir com as metas:

Quanto às mobilizações de rua, tal como contempla o plano, conseguimos persuadir importantes setores estudantis para as mobilizações, ligados a instituições educativas privadas, para que se incorporem organicamente à nossa inciativa de destituir Chávez. Na terceira semana de novembro conseguimos um acordo com os líderes emergentes que acolheram nosso ideário de democracia e liberdade.

[...]

Como você sabe, um dos objetivos da Operação Alicate é controlar uma franja territorial ou institucional, com apoio maciço dos cidadãos descontentes, em um período de 72 a 120 horas, tempo estimado como mínimo para detonar a fase seguinte das ações previstas, dentre as quais um pronunciamento militar.

[...]

Na esfera da propaganda e das operações psicológicas contempladas no plano em curso é onde temos tido o maior êxito, a ponto de que nas últimas semanas impusemos a nossa agenda, dominando a cena publicitária. O papel da SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa) e das agências internacionais tem sido chave.

[...]

Neste último aspecto [financeiro] devo informar-lhe que dos 8 milhões que foram transferidos quase tudo foi gasto em propaganda, publicidade e contribuições a algumas organizações de fachada. Neste último caso temos tido dificuldades com a Development Alternative INC, já que a inteligência inimiga acompanha nossa conexão com o senhor Gerson Patete e tem monitorado a conta corrente do Banco Mercantil, No 0105-0026-59-102636243-1. É
urgente seguir fazendo transferências para essa conta e estabelecer outro canal para o financiamento contemplado nessa fase da Operação Alicate."

Publicado em 29 de novembro de 2007

A analista Eva Golinger, jornalista americana ligada ao chavismo, resumiu os objetivos do tal plano e identificou os países a partir dos quais os Estados Unidos dariam apoio a ele: Colômbia e Curaçao, que faz parte das Antilhas Holandesas, na costa da Venezuela. Ela escreveu, depois de analisar o texto:

"Para lograr impedir el referéndum, la CIA propone a las sigüentes acciones:

Calentar y tomar la calle con Guarimbas y “candelitas” [barricadas e incêndio de pneus, por exemplo]
Generar un clima de ingobernabilidad
Provocar un levantamiento general de una parte sustancial de la población
“Vota y Quédate””, plan de implosión dentro de los centros de votación
Comenzar a dar información en las primeras horas de la tarde del domingo 2 de diciembre, explotando los sondeos preliminares en las mesas de votación (en violación de las normas del CNE).
Coordinar todo esto con los medios de comunicación nacionales (Ravell, Globovisión y RCTV) e internacionales
Coordinar con Peña Esclusa y Guon Céllies, por parte del Agregado Militar de Defensa y Ejército de la Embajada de EEUU en Caracas, Richard Nazario.

Para lograr desconocer los resultados del referéndum, la CIA propone a lo siguente:

Creación de una matriz de opinión sobre el supuesto triunfo seguro del “NO”
Usar encuestadores contratados por la CIA
Criticar y deslegitimar al CNE
Generar una sensación de fraude
Usar un equipo de expertos de las universidades que hace creíble una manipulación de la data del CNE, el Registro Electoral Permanente (REP) y la tinta que se utiliza durante la votación

Además, en el memorando de la CIA, escrita por el funcionario Michael Steere, proclama la necesidad de ejecutar estas acciones para poder lograr su objetivo:

Impedir el referéndum
Denunciar el fraude
Tomar la calle
Aislar a Chávez en el ámbito internacional
Tratar de lograr la unidad de la oposición
Buscar la alianza de los abstencionistas y los que votarán por e “NO”
Sostener con firmeza la propaganda contra Chávez
Ejecutar las acciones militares de apoyo a las movilizaciones y tomas propagandísticas
Terminar las preparaciones operativas en las bases militares de Colombia y Curazao
Controlar una franja territorial o institucional durante las próximas 72 a 120 horas
Impulsar un pronunciamiento militar posiblemente dentro de la Guardia Nacional."

Acrescentado em 29 de novembro de 2007

Nas últimas semanas Chávez perdeu o apoio de importantes aliados. O partido Podemos, por exemplo, passou a fazer campanha pelo NÃO. Disse o secretário-geral, Ismael García ao Washington Post: "Todos fomos revolucionários e socialistas durante toda nossa vida, mas socialismo com democracia". O general aposentado Raúl Baduel, um aliado próximo do presidente venezuelano, também tornou pública sua oposição: "A proposta, além de tirar poder do povo, vai levar o país ao desastre", disse ele ao Post.

O jornal americano diz que o resultado de domingo vai depender do comparecimento dos eleitores às urnas.

Acrescentado em 29 de novembro de 2007

 

*Publicado por Nezimar Borges

 

LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA

Cientista político, professor emérito da Universidade de Brasília e autor de "As Relações Perigosas: Brasil-Estados Unidos de Collor a Lula, 1990-2004", "Brasil, Argentina e Estados Unidos" e "De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina". Leia alguns de seus artigos AQUI>>

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