Venezuela, Paraguai e os oligarcas do Brasil
O atual presidente da Venezuela, Hugo Chávez, tem sido muito criticado no Brasil. Independente dele ser bom ou ruim, democrata ou ditador, é curioso ver de onde partem, em nosso país, os ataques ao líder venezuelano.
Vamos aos fatos. Na década de 1970, a Rede Globo era uma das maiores beneficiadas com a ditadura militar implantada no Brasil em 1964. Havia, naquele período, ditaduras no Chile, na Argentina, no Uruguai, no Paraguai e em outros pontos da América Latina. A Rede Globo estava inteiramente alinhada aos golpistas. De dentro e de fora do Brasil. A partir de um projeto que passava pelo famigerado regime, formava-se ali o império de comunicação da família Marinho.
Na mesma época, José Sarney era senador pelo Maranhão. Era também um dos dirigentes nacionais da ARENA, o partido da ditadura brasileira. Aliado de primeira hora dos militares golpistas ele tanto servia quanto se beneficiava da situação, sem criticar, obviamente, o "viés autoritário" de qualquer país do mundo.
O que nos causa perplexidade foi ver, no dia 30 de outubro deste ano, uma matéria no site da Globo onde Sarney, abusando do direito de ser sonso, diz que "no momento não há como declarar que a Venezuela é uma democracia exemplar". Este que hoje é senador pelo oprimido Amapá foi mais longe e também criticou "o viés autoritário da reforma constitucional", proposta na Venezuela.
Nascido dentro de uma oligarquia regional, beneficiado desde o berço com fraudes eleitorais orquestradas nos tribunais do Maranhão, Sarney ganhou asas na política brasileira graças ao apoio recebido pela ditadura de 64.
Hoje ele diz nos veículos da Rede Globo que está "apreensivo com as reformas feitas na Venezuela", cogitando trabalhar para barrar a entrada dos venezuelanos no Mercosul. Trata-se do mesmo político que foi cúmplice de um regime ditatorial que implantou a censura, cassou mandatos, fechou o Congresso, prendeu, matou e torturou adversários.
Em dezembro de 1968, poucos dias após a ditadura brasileira aumentar seu rosário de atrocidades a partir de um Ato Institucional (AI-5), foi promovido um encontro no Rio de Janeiro entre o Marechal Costa e Silva (então presidente do Brasil) e todos os governadores dos Estados brasileiros. Sarney, na época governador do Maranhão, foi o encarregado de saudar o ditador de plantão em nome dos outros governadores.
Em 19 de dezembro de 1968 Sarney chegou a publicar em seu próprio jornal no Maranhão (Jornal do Dia) um texto falando daquele momento. Nele, fez questão de lembrar sua relação carnal com a ditadura, escrevendo de próprio punho: "Eu apoiei e por ela fui apoiado". Em seguida, no mesmo texto, diz sobre o AI-5: "Compreendo perfeitamente, homem de governo, as dificuldades enfrentadas pelo Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Marechal Artur da Costa e Silva, tendo de romper a ordem jurídica, marchando para o estabelecimento de medidas de exceção, que ferem os postulados democráticos".
Lembro desses dois casos (do discurso e do artigo) ao ver hoje políticos da Venezuela chamando publicamente Sarney de lacaio. Num português claro, ele foi chamado de um homem "sem dignidade, servil, bajulador e desprezível". Mas, em 68, as coisas estavam só começando. No final dos anos 70, este mesmo Sarney apoiou o chamado "pacote de abril de 77", uma ação da ditadura brasileira que fechou novamente o Congresso Nacional, criou a figura do senador "eleito" sem voto e ampliou para seis anos o mandato do general que iria assumir a presidência, digo, a ditadura.
Foi também ele que, em 1984, atuou contra o movimento das "Diretas, Já!", uma grande mobilização popular feita em todo o Brasil em favor de eleições diretas para presidente. Mas a turma da velha ARENA trabalhou para barrar no Congresso a emenda constitucional que permitiria estas eleições. Logo depois, ainda em 1984, o próprio Sarney chegaria à vice-presidência, indicado por um grupo de oriundos da ditadura, em uma eleição ilegítima, feita dentro do Congresso Nacional e sem nenhuma participação do cidadão brasileiro.
Estamos falando aqui de mais um triste capítulo de nossa história. Um episódio que marcou de forma muito negativa a nossa trôpega "transição" para a "democracia", pois o presidente "eleito" de forma indireta, Tancredo Neves, morreu antes de assumir. E Sarney, o vice, o filhote do regime autoritário, exerceu a presidência por cinco longos anos.
A partir de 1987, uma nova Constituição estava sendo elaborada pelo Congresso Constituinte. Ela definiria o tempo do mandato presidencial. Havia um compromisso assumido publicamente por Tancredo Neves de ficar só quatro anos na presidência. Sarney, nesse caso, não cumpriu o compromisso e, junto com seu ministro das comunicações Antônio Carlos Magalhães, pressionou deputados e senadores para garantir cinco anos no poder. A moeda de troca usada pela dupla junto aos parlamentares foi à concessão de centenas emissoras de rádio e TV. Este governo foi marcado por graves denúncias de corrupção e por uma inflação nunca vista no país, chegando a mais de 80% ao mês.
Ainda durante a ditadura de 64, este mesmo José Sarney que hoje se "preocupa" com a democracia na América do Sul, tornou-se um oligarca em sua terra natal, controlando até hoje a maior parte da mídia maranhense (inclusive a afiliada da Rede Globo) e tendo parentes e aderentes espalhados pelo Legislativo e pelo Judiciário. Ele, que desde sempre foi aliado de banqueiros, empreiteiros, multinacionais, latifundiários e grandes grileiros de terra.
Em 2004 respondi a um processo movido por um irmão de Sarney. Na época, disse que no Maranhão (meu Estado natal), a atividade política havia cedido lugar a uma máfia e que esta mesma máfia era comandada por José Sarney. Chamado à presença de um juiz, mantive o que tinha dito. Hoje, vejo um deputado venezuelano, Carlos Escarrá, dizer que Sarney faz parte de um "sindicato de mafiosos". Temos que admitir que a turma de Chávez é, no mínimo, muito bem informada.
A revista ISTOÉ do último dia 7 de novembro informou que Sarney foi procurado por um enviado do embaixador americano Clifford Sodel que lhe pediu "ajuda para barrar a entrada da Venezuela no Mercosul". Na edição seguinte o senador do Amapá desmente timidamente a informação. Mas onde tem fumaça, tem fogo. A ISTOÉ é uma velha aliada do oligarca.
Registro também que, em julho deste ano, o aguerrido semanário Brasil de Fato, editado em São Paulo, fez uma edição especial sobre as mazelas do Maranhão, onde a manchete principal do jornal dizia, "Sarney, uma ameaça à democracia".
Percebe-se então, que os atuais críticos de Chávez no Brasil têm uma longa folha de serviços prestados a ditadores, golpistas e torturadores. Falo de regimes opressores que estavam sob a proteção dos governos americanos. No caso de Hugo Chávez ele é desafeto dos EUA. Ele critica abertamente os gringos. O seu pecado, então, não é a reforma constitucional que pode lhe permitir disputar sucessivas eleições. O problema é ele agir fora dos padrões impostos (repito, impostos!) pelos "democratas" do norte.
Os motivos para que a "máfia brasileira" se levante contra ele foi não renovar (dentro da Lei) a concessão de um canal de TV, montar projetos com os cubanos na área de saúde e educação, articular os camponeses venezuelanos com o MST do Brasil, tirar das mãos das multinacionais a administração do petróleo venezuelano, colocar o Banco Central do seu país sob o controle do Estado e criar dificuldades para avarentos empresários que lidam com escolas e hospitais.
Se Hugo Chávez não tivesse feito nada disso poderia, tranqüilamente, implantar uma ditadura, trucidar seus adversários e ficar por décadas no governo. Era só fazer igual ao general paraguaio Alfredo Stroessner, que exerceu por 35 anos o poder ditatorial em seu país com a conivência dos EUA. Depois de afastado da presidência, pediu asilo no Brasil, sendo recebido de braços abertos pelo então presidente José Sarney.
Stroessner foi acolhido pelo oligarca brasileiro no início de 1990. As entidades que tratam das questões ligadas aos direitos humanos no Brasil reclamaram muito e agiram contra o abrigo dado ao paraguaio em nosso país. No entanto, o caso relacionado ao ex-ditador e suas arbitrariedades foi abafado pelos grandes veículos da mídia verde amarela e por seus aliados no Congresso Nacional. Tudo "democraticamente" abafado...
* Jornalista com pós-graduação em Políticas Públicas. É autor dos livros ‘Havana, dezembro de 1999’ e ‘O caso do Convento das Mercês"
*Publicado por Nezimar Borges
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