Casal Capiberibe: Dois seres preciosos
Por Ana Miranda
Foto: Casal Capiberibe alimentando os filhos nos anos de exílio no Chile. ->fonte Folha do Amapá.
No final dos anos 1940, quando o Amapá deixara de fazer parte da Província do Pará e se tornara território, na cidade histórica do Amapá nasceu a menina Janete. O pai era balconista, e a mãe trabalhava como doméstica. Aos 7 anos, Janete, seus sete irmãos e os pais se mudaram para a capital, Macapá. Um ano depois, o pai conseguiu um trabalho como cozinheiro na companhia mineradora Icomi, em Serra do Navio, uma cidade norte-americana encravada na floresta amazônica, com casas típicas, gramados, jardins. Ali, Janete e sua família viveram entre os operários que extraíam o manganês. Na empresa havia uma divisão social que se expressava até mesmo por uma denominação perversa: os primários, os intermediários, e o staff. Essas classes viviam em bairros separados. Os primários ganhavam tão pouco, que só podiam comprar alimento para a família até meados do mês. Depois, comiam apenas xibé – farinha de mandioca com água. As maçãs, e as outras coisas boas no mercado da Icomi, eram somente para os intermediários e o staff. As crianças estudavam na mesma escola, mas recebiam tratamento diferente. Naquela aldeia perdida, Janete aprendeu uma antiga lição sobre o mundo.
Aos 15 anos foi com a irmã mais velha para Macapá, a fim de continuarem seus estudos. Na capital, Janete conheceu o estivador Chaguinha, um comunista histórico, adorável figura que reunia jovens em sua casa e lhes ensinava ideologia e política adversas ao sistema militar que acabava de se instalar no Brasil. Na escola para formação de professores, uma grande afinidade aproximou Janete do jovem João Capiberibe, filho de um vigia, vindo da ilha do Marajó, morador de um bairro pobre chamado Igarapé das Mulheres. Passaram a viver juntos em Belém, onde se ligaram à Ação Libertadora Nacional, que mantinha uma base de guerrilha em Imperatriz. Em 1970, Janete e João casaram-se numa igreja no Amapá. Ela usava um vestido emprestado.
A vida do casal era modestíssima e austera. Em Imperatriz trabalharam para organizar os lavradores, enquanto se preparavam para a guerrilha camponesa. Janete ficou grávida. Quando viajavam de ônibus para Belém, de onde seguiriam até o Araguaia, foram presos. Prestes a ter a criança, Janete conseguiu liberdade vigiada. Durante os onze meses em que o marido passou no presídio São José, de Belém, Janete morou com a filha Artionka num casebre perto da prisão. Visitava sempre o marido, enquanto preparava com amigos um plano de fuga. Quando ele adoeceu e foi internado na Santa Casa, surgiu a oportunidade esperada, e ele escapou, vestido de médico. Janete o esperava num carro, trazendo apenas o bebê e uma sacola. No porto tomaram um barco até Santarém. No dia seguinte, os jornais mostravam a foto do “perigoso terrorista”, procurado vivo ou morto. Janete descoloriu os cabelos de João, e atravessaram a Amazônia em direção à Bolívia, rio acima.
Foi uma viagem terrível e maravilhosa ao mesmo tempo. Enquanto enfrentavam as intempéries, as doenças, o desconforto, sem poder atender às necessidades da filha de apenas 9 meses, os fugitivos descobriam as profundezas de sua terra, a vida dos povos ribeirinhos, o encanto avassalador da floresta com seus habitantes. Janete e João viveram como os camponeses bolivianos, ela empregada numa fazenda onde o marido era obreiro. Reuniam-se com as pessoas do Partido Comunista boliviano, gente muito pobre. Após o golpe de Estado fugiram para o Peru, num ônibus repleto de índias quíchuas com suas saias rodadas, e sacos de comida, animais. O casal brasileiro foi morar num vinhedo no interior do Chile, que fora expropriado por Salvador Allende e transformado em república. Viveram exilados por dez anos, entre o Canadá, onde cultivaram uma sólida formação profissional, e Moçambique, onde tiveram contato com as populações tribais e a condição mais extrema da humanidade, até que a anistia permitiu retornarem ao Brasil.
Encontraram um imenso desafio pela frente. O Amapá, quase todo coberto de floresta tropical, estava em pleno processo de destruição, sob políticas atrasadas e subalternas, cujo símbolo poderia ser a cratera abandonada em Serra do Navio pela própria Icomi, que se retirara após esgotar todas as reservas de manganês. Janete e João Capiberibe entregaram-se ao trabalho. Ela elegeu-se vereadora – e ele, prefeito --, depois deputada estadual por quatro vezes, sendo na última a mais votada em toda a história do Amapá. Foi secretária de Indústria, Comércio e Mineração, duas vezes primeira-dama de seu Estado, quando João Capiberibe foi eleito governador. Ele realizou mudanças profundas no Amapá, com uma visão inovadora, governou com transparência e engajamento social. Criou um projeto de desenvolvimento ambientalista, com uma proposta de valorização da história e da cultura regionais, com a distribuição de renda, de conhecimento, e de tecnologia. Atraiu para seu Estado o investimento internacional, promovendo a integração e a cooperação entre o Amapá e a União Européia, via Guiana Francesa, ali vizinha. Quando terminou seu segundo mandato como governador, o Amapá ingressara no “irreversível caminho do futuro”.
Janete Capiberibe estimulou a criação de fábricas para beneficiamento de mel silvestre; pequenas indústrias de farinha de mandioca; racionalizou a colheita do palmito de açaí; apoiou grupos de mulheres do campo que passaram a explorar os produtos da floresta, transformando sementes, ervas, raízes em remédios, perfumes, chás; treinou e credenciou as parteiras locais; defendeu interesses dos índios, dos pescadores, dos seringueiros, dos castanheiros e de suas mulheres e filhos, lutou por seu acesso a riquezas que antes eram exploradas pelas companhias alienígenas. O casal contrariou os interesses dos oligarcas, num mundo em que a tradição sempre foi a devastação que enriquece a uns poucos e empobrece a terra e seu povo, em que a política se faz com unhas e dentes.
E são esses preciosos seres, com uma “biografia imaculada”, com força para lutar por uma política de revigoração e auto-estima do povo, com sensibilidade para perceber as necessidades alheias, que têm seu mandato político ameaçado por acusações que a qualquer observador parecem forjadas: o testemunho de duas jovens de que uma correligionária teria comprado seu voto na eleição passada, por 26 reais; as mesmas jovens que tentaram extorquir dinheiro ao advogado do casal, para retirarem seu testemunho. Não apenas no Brasil há indignação contra o processo de cassação e seu resultado desastroso, mas também em outros países, em meios onde o trabalho do casal Capiberibe é conhecido. Parafraseando Shakespeare, uma injustiça pequena cometemos, para cometer uma grande injustiça.
As liberdades, temo-las dentro de nós pela cultura, não são concessões graciosas da lei.
Ana Miranda é escritora, autora de Boca do Inferno, Desmundo, Dias & Dias, Deus-dará, entre outros livros.
*Publicado por Nezimar Borges
|