Transparência, controle social e
sociedade civil
Informe ABONG
Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais
A queda da avaliação positiva do
presidente, após um ano e meio de mandato, como apontam as pesquisas
de opinião, pode ser o início de um desencantamento por parte do
eleitorado com a figura do mito Lula. O ex-metalúrgico do ABC, pouco
a pouco, pode passar a ser visto como um político típico do
imaginário popular: aquele incapaz de cumprir diversas promessas
feitas em campanha. E, se por um lado, a explicação para esta
desilusão está no desempenho econômico do país, por outro, é
inegável que uma série de fatos políticos contribuem para o
enfraquecimento da imagem do líder histórico da esquerda brasileira.
Um exemplo ilustrativo foi o das irregularidades ocorridas na compra
de hemoderivados no Ministério da Saúde. Este tipo de fraude, apesar
de ter se iniciado na década de 1990, ajuda a deteriorar a imagem de
qualquer governo, pois está estreitamente relacionada à falta de
transparência em relação àquilo que ocorre no dia-a-dia da sua
administração. Do ponto de vista da sociedade civil, o
não-cumprimento das promessas em relação à transparência das
informações públicas e ao controle social do Estado explicam parte
do desapontamento.
Os Estados contemporâneos que promovem a
transparência das informações públicas e, assim, como ferramenta de
aperfeiçoamento da democracia representativa, além de incentivarem a
educação política e o empoderamento do(a) cidadão(ã), também
subsidiam o julgamento de governantes por parte de toda sociedade.
Estas são razões pelas quais todo(a) eleitor(a) deveria ter acesso
às informações relativas à arrecadação e aos gastos do
Estado.
Atualmente, tramitam no Congresso Nacional duas
proposições relacionadas à transparência e ao controle social das
contas públicas: o Projeto de Lei 130/2003, de autoria do Senador
João Capiberibe (PSB/AP), e o Projeto Lei 110/2003, de autoria do
deputado Alexandre Cardoso (PSB/RJ).
A primeira
proposição, o PL Lei n° 130, foi apresentada ao Senado Federal, em
abril de 2003, pelo senador João Capiberibe (PSB-AP). O intuito
deste Projeto de Lei é acrescentar dispositivos à Lei de
Responsabilidade Fiscal, a fim de conferir transparência à gestão
das contas públicas em todos os níveis. Caso seja aprovado, mantida
a atual redação, todas as pessoas gestoras de orçamentos públicos do
país estarão obrigadas a criar uma página na Internet com
informações detalhadas e atualizadas, compreensíveis para os
cidadãos e cidadãs, sobre a execução orçamentária (receitas e
despesas) de todos os órgãos dos poderes Executivo, Judiciário e
Legislativo da União, Estados, municípios e do Distrito Federal.
Este projeto, potencialmente, pode ser o catalisador de uma grande
revolução no relacionamento entre Estado e sociedade no tocante ao
monitoramento dos recursos públicos. Esta proposição prevê que
deverão ser levados ao conhecimento público o lançamento e o
recebimento de toda a receita de unidade gestora, inclusive os
referentes a recursos extra-orçamentários. Atualmente, os recursos
extra-orçamentários financiam projetos por todo o país, porém, mesmo
para o Poder Legislativo, estas operações se constituem uma
verdadeira caixa-preta, dado que não estão submetidos ao crivo de
parlamentares durante a tramitação de nenhuma das três principais
peças orçamentárias: PPA, LDO e LOA. A redação da lei do Senador
Capiberibe deixa claro que as informações serão disponibilizadas,
instantaneamente, no maior nível de desagregação e detalhamento. A
proposição prevê a disponibilização para o(a) cidadão(ã), sem a
necessidade de senhas como acontece para o acesso ao Siafi - Sistema
Integrado de Informações Financeiras do Governo Federal, não apenas
o empenho, mas o produto e suas especificações, quantidade,
fornecedor, além do preço pago.
Para a sociedade, é
importante também que os dados primários (ou brutos) das contas
públicas estejam disponíveis e que, supletivamente, essas
informações também sejam levadas ao público em linguagem acessível.
Porém, não se admite, em nenhuma hipótese, que dados públicos sobre
receita e despesa sejam filtrados sob o pretexto de que as
informações devem ser primeiramente traduzidas para o cidadão leigo
em finanças públicas.
A segunda proposição em tramitação no
Congresso Nacional, o PL 110/2003, diz respeito à inclusão de
entidades da sociedade civil como usuárias dos sistemas de consulta,
fiscalização e acompanhamento orçamentário das Administrações
Públicas Federal, Estadual e Municipal - entre os quais, o acesso ao
Siafi. Contudo, após este projeto ter sido aprovado na Comissão de
Trabalho, de Administração e Serviço Público (CTASP) da Câmara dos
Deputados e ter recebido parecer favorável pela aprovação da
relatora, a deputada Maria Helena (PPS-RR), foi retirado da pauta da
Comissão de Finanças e Tributação (CFT), a pedido do próprio autor,
o deputado Alexandre Cardoso (PSB/RJ), que usou a prerrogativa que
lhe é de direito a pedido do governo. A pressão da Casa Civil,
alegando que o custo de implementação do projeto seria inviável do
ponto de vista fiscal, foi suficiente para barrar o projeto.
Adicionalmente, a Secretaria do Tesouro Nacional (STN) argumentou
que o grau de complexidade das informações disponíveis no Siafi
poderia gerar confusão e desinformação para o(a) cidadão(ã) comum.
Tal argumentação não poderia ser mais absurda, pois o nível de
informação desejado é uma escolha que cabe à sociedade e não ao
governo. Na verdade, qualquer filtragem dos dados já significa uma
interpretação das informações sob um ponto de vista específico - o
que colide diretamente com os conceitos de transparência e
democracia defendidos pela sociedade civil.
O governo Lula
sabe, mais do que nenhum outro, o quanto é cara para sociedade civil
a luta pela transparência das contas públicas e pelo controle social
do Estado, considerados os caminhos de aperfeiçoamento do sistema
democrático-representativo. Infelizmente, percebe-se que também
paira o desinteresse e o descaso pela temática, para não dizer que
há uma ação deliberada do governo no sentido de restringir o acesso
às informações públicas. A sociedade civil pergunta se o governo não
está jogando fora a chance histórica que lhe foi entregue de fazer
também pequenas revoluções na administração pública, já que o poder
político não está disponível a qualquer momento desejado. O pior, é
a sociedade saber que o governo está consciente
disto.
*Publicado por Nezimar Borges
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