Pela transparência nas
contas públicas
Ao propor que
gastos dos órgãos públicos sejam divulgados através da
Internet, aplicação de nova lei exigirá fiscalização
popular.
Luís Henrique Marques
"Abrir aos cidadãos todos os
orçamentos deste país, desde o da menor prefeitura até o
da Presidência da República e do Supremo Tribunal
Federal", assim o senador da República, João Capiberibe
(PSB-AP), definiu o objetivo central do projeto de lei
complementar (PLC 130/03) — o chamado Projeto da
Transparência — à Lei de Responsabilidade Fiscal. A
proposta, apresentada em sessão pública do Senado
Federal no dia de 15 de abril de 2003, estabelece que
todos os órgãos públicos do país (do governo federal, de
Estados e municípios, bem como do Legislativo e
Judiciário) deverão informar a sua execução orçamentária
através da Internet, em tempo real.
A proposta do
senador é inspirada num projeto implementado durante os
seus dois mandatos consecutivos como governador do
Estado do Amapá (1995 a abril de 2002). Esse projeto
resultou na criação de uma Intranet (rede interna de
computadores de uma instituição) entre todos os órgãos
do governo daquele Estado, culminando na divulgação de
uma página denominada Gestão do Dinheiro Público pelo
site oficial. Por meio dela, os atos financeiros do seu
governo, em todas as unidades de gastos, eram
atualizados diariamente. Nesse sentido, uma situação
contemplada pela proposta diz respeito às compras
efetuadas pelos órgãos públicos. "O projeto prevê que
todas as licitações e tomadas de preços sejam veiculadas
pela Internet", declarou Capiberibe ao apresentar o
projeto ao Senado, em 2003.
De acordo com a proposta
do senador do Amapá, até pequenos municípios que não
possuem serviços informatizados poderão adquirir poucos
microcomputadores e usar os softwares necessários, como
é o caso do Sistema Integrado de Administração
Financeira para Estados e Municípios (Siafem), criado e
oferecido pelo Serviço de Processamento de Dados
(Serpro), do Ministério da Fazenda. A proposta prevê
ainda um prazo de um ano para municípios bem equipados e
dois para os municípios menores se prepararem
tecnicamente para aplicar a nova lei.
Transparência e consciência
O professor de
Ciência Política da Universidade Federal de Brasília
(UNB) e presidente da organização não-governamental
Transparência, Consciência & Cidadania (TCC-Brasil),
Davi Fleischer, por princípio, é favorável ao Projeto de
Lei 130/03 já que significa um avanço enquanto
instrumento para uma política transparente.
Posições
como a do professor Davi Fleischer beiram a unanimidade
num país cuja história política está marcada por
inúmeros exemplos de corrupção, que têm feito aumentar,
em proporções sempre crescentes, a desconfiança da
população brasileira em relação à gestão dos recursos
públicos. É o que, a propósito, apontou a ONU: do que é
gasto no Brasil, 40% dos recursos são desviados por
corrupção ou mau gerenciamento.
Atualmente em análise
pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, o
Projeto da Transparência propõe que sejam divulgados ao
público, via Internet e segundo uma linguagem acessível
(não restrita a especialistas), todos os atos
relacionados à execução da despesa (o que inclui o
número do processo do gasto e do empenho): qual bem ou
serviço está sendo quitado; quem é a pessoa física ou
empresa que está recebendo o pagamento; enfim, toda a
receita de qualquer um dos órgãos públicos, inclusive os
recursos extra-orçamentários.
"Se um órgão público,
como uma prefeitura, por exemplo, se recusar a divulgar
sua execução orçamentária, o projeto de lei estabelece
como pena a suspensão do repasse de recursos dos fundos
de participação dos Estados e municípios, o mesmo
valendo para Brasília, o Distrito Federal", relatou
matéria publicada pela Agência Senado em 14 de abril do
ano passado. Ainda segundo a matéria, "o responsável
pelo órgão, em caso de descumprimento da lei, poderá ser
processado e condenado à prisão por seis meses a dois
anos".
Antes mesmo de ser aprovado, o Projeto da
Transparência já inspirou os primeiros exemplos. De
fato, outras instituições públicas já disponibilizam,
através da rede mundial de computadores, seus gastos,
receitas e demais informações orçamentárias. É o caso,
por exemplo, do Tribunal de Justiça de Santa Catarina e
do Ministério da Ciência e Tecnologia. A própria Câmara
dos Deputados, ainda em 2003, por iniciativa do deputado
Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), primeiro-secretário
daquela Casa, passou a divulgar todas as despesas
legislativas.
Participação popular
"As ações de
fiscalização e auditoria que vêm sendo realizadas, por
sorteio, em municípios deste imenso país já estão
repercutindo positivamente entre os milhões de cidadãos
que almejam deixar de serem meros pagadores de impostos
sem terem instrumentos eficazes para acompanhar os
gastos públicos", afirmou o senador João Capiberibe em
artigo de sua autoria publicado pela Agência Estado em
25 de junho de 2003, por ocasião da apresentação do
projeto de lei. "Os bons exemplos costumam dar bons
frutos", concluiu.
O próprio senador Capiberibe
admite, no entanto, que o acesso à Internet ainda está
longe de atingir a maioria da população do país. Por
outro lado, esse canal — não obstante os contrastes
econômicos da realidade brasileira — tem se popularizado
a cada dia. Atualmente, segundo o site
www.teleco.com.br, um pouco mais de 20 milhões de
brasileiros (o que corresponde a cerca de 11,5% da
população) já têm acesso à rede mundial de computadores.
De qualquer modo, para o senador amapaense, até o
momento, não existe canal mais eficiente do que a
Internet para viabilizar esse tipo de informação. Basta
levar em conta o "espaço ilimitado" que a rede é capaz
de disponibilizar.
Mas isso não é tudo. O senador
Demóstenes Torres (PFL-GO), autor do relatório favorável
ao Projeto da Transparência, aprovado por unanimidade
pelos senadores da Comissão de Constituição, Justiça e
Cidadania (CCJ), destacou que a nova lei, se aprovada,
cria uma "co-responsabilidade" entre a população e os
agentes públicos que efetuam as despesas.
Em função
dessa co-responsabilidade, a nova lei, se aprovada,
exigirá que pessoas e grupos (partidos políticos,
sindicatos, associações, entre outros) tomem a
iniciativa para atuarem como fiscais, seja a respeito do
cumprimento dela, seja para que, uma vez detectadas
irregularidades na administração de recursos públicos,
seus responsáveis sejam denunciados e respondam pública
e, se necessário, judicialmente por seus atos. Essa
atitude transformaria qualquer cidadão de mera vítima da
corrupção em co-responsável pela construção de uma nova
e transparente ordem política.
*Publicado por Nezimar Borges
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